24 de novembro de 2010
23 de novembro de 2010
Três Momentos em Helsinque
Momento 1
Primeira vez em Helsinque. Avião pousando às 16 horas de um dia de começo de inverno. Ainda é cedo, mas já começa a escurecer. Ainda é começo de inverno, mas a primeira neve já caiu. O avião pousa suavemente sobre a pista coberta de neve e a primeira impressão da cidade é de leveza, brancura, paz... deliciosa recepção na minha chegada!
Momento 2
Helsinque, 18 horas de sábado. É cedo, mas a noite já está bem escura. Só não mais escura porque a neve branca atenua a escuridão. As lojas já estão fechadas. Circulam poucas pessoas pela rua, todas escondidas por trás de suas roupas, muitas roupas. A cidade não é amistosa. Parece pesada, densa, escura, armada... Parece fazer sentido a chamada "depressão de inverno" (winter blues), que acomete cada vez mais pessoas, nesse período, nos países conhecidos por seus rigorosos invernos. Viver pra que?
Momento 3
Helsinque, 3a feira, 18 horas. Ao fim de um dia extenuante de trabalho, a informação de que sobrara um convite para o jogo de hockey sobre gelo. Cansado, mas a oportunidade de uma experiência tipicamente finlandesa é irresistivelmente atraente. O trajeto de carro sobre a neve, a caminhada do carro até o estádio caminhando sobre a neve, o estádio coberto e aquecido, o esporte com regras incompreensíveis, a pancadaria comendo solta como se nada estivesse acontecendo, a delicadeza de brutamontes que se equilibram no gelo e conduzem um pequeno disco com habilidade ao mesmo tempo em que enchem de porrada os adversários... tudo é novo, tudo é desconhecido, tudo é encantamento...
Primeira vez em Helsinque. Avião pousando às 16 horas de um dia de começo de inverno. Ainda é cedo, mas já começa a escurecer. Ainda é começo de inverno, mas a primeira neve já caiu. O avião pousa suavemente sobre a pista coberta de neve e a primeira impressão da cidade é de leveza, brancura, paz... deliciosa recepção na minha chegada!
| Cemitério de Helsinki |
Helsinque, 18 horas de sábado. É cedo, mas a noite já está bem escura. Só não mais escura porque a neve branca atenua a escuridão. As lojas já estão fechadas. Circulam poucas pessoas pela rua, todas escondidas por trás de suas roupas, muitas roupas. A cidade não é amistosa. Parece pesada, densa, escura, armada... Parece fazer sentido a chamada "depressão de inverno" (winter blues), que acomete cada vez mais pessoas, nesse período, nos países conhecidos por seus rigorosos invernos. Viver pra que?
Momento 3
Helsinque, 3a feira, 18 horas. Ao fim de um dia extenuante de trabalho, a informação de que sobrara um convite para o jogo de hockey sobre gelo. Cansado, mas a oportunidade de uma experiência tipicamente finlandesa é irresistivelmente atraente. O trajeto de carro sobre a neve, a caminhada do carro até o estádio caminhando sobre a neve, o estádio coberto e aquecido, o esporte com regras incompreensíveis, a pancadaria comendo solta como se nada estivesse acontecendo, a delicadeza de brutamontes que se equilibram no gelo e conduzem um pequeno disco com habilidade ao mesmo tempo em que enchem de porrada os adversários... tudo é novo, tudo é desconhecido, tudo é encantamento...
"Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo..." Fernando Pessoa, O Guardador de Rebanhos
6 de setembro de 2010
Um momento de prazer em Oslo, Noruega - Setembro de 2010
Não é onde eu queria estar agora. É uma viagem de puro trabalho e pouco prazer. Mas no meio de agenda de milhões de compromissos, consegui encaixar visita à pré-estréia da exposição de artista brasileiro aqui em Oslo. Seu nome é Ernesto Neto, famoso em vários países, e seu trabalho é intrigante, repleto de estímulos sensoriais de todas as formas: você pode tocar, cheirar, sentir. A exposição dele está hoje na maior galeria de arte contemporânea da Noruega. Pena ter que vir à Noruega para conhecer o trabalho de um artista brasileiro que é conhecido mais fora do que dentro do Brasil. Na foto, eu me delicio com uma de suas obras interativas. Para quem quiser saber mais sobre ele, veja o que diz a Wikipedia: Ernesto Neto
4 de julho de 2010
O Perigo de Uma História Única
Uma amiga querida, Dora, me enviou hoje o link para um vídeo da escritora nigeriana Chimamanda Adichi (da qual eu nunca tinha ouvido falar até hoje), em que ela fala sobre o "o perigo de uma história única". São na verdade dois vídeos, de cerca de 10 min cada, e que trazem uma belíssima reflexão sobre como os estereótipos e as imagens que temos das pessoas, dos lugares, das culturas vão se formando. Senti-me feliz pelo comentário de Dora de que o que a escritora fala tem a haver com meu blog, e por isso achei interessante partilhar aqui. A relação que Dora viu foi, provavelmente, a minha constante tentativa - nem sempre bem sucedida - de ver todas as histórias que existem por trás do mundo, das pessoas, dos lugares. Os dois vídeos estão aqui:
Chimamanda Adichi - O Perigo de Uma História Única - Primeira Parte
Chimamanda Adichi - O Perigo de Uma História Única - Segunda Parte
Ao ver os dois vídeos, lembrei-me de uma viagem que fiz ao Equador em 2002. Em um passeio à cidadezinha de Otavalo, onde se localiza um dos mais tradicionais mercados indígenas do Equador (foto à direita), conheci no trajeto um americano de uns 40-50 anos que viajava com sua filha de uns 15 anos. Começamos a conversar sobre viagens e, ao falar que era brasileiro, ele imediatamente começou a discorrer sobre futebol, Pelé, carnaval e meninos de rua ("uma história única"). Contive o meu desconforto até o momento em que, ao falar dos países por onde já viajáramos, ele elogiou o Equador, como um país exótico, e me perguntou qual o lugar mais exótico que eu já havia visitado. Respondi quase imediatamente, não foi pensado, não foi sacanagem, e disse a ele "os Estados Unidos". Ele me olhou com ar pasmo e eu expliquei a ele que o conceito de exótico, no sentido de "esquisito, excêntrico, extravagante" se aplicava, no caso de um brasileiro, mais aos Estados Unidos do que ao Equador e que, portanto, a pergunta era inadequada. Ele pareceu entender e se desculpou pela pergunta. Ficou evidente ali o "perigo de uma história única".
PS. A tempo: não estou aqui reproduzindo a 'história única' de que todos os americanos são tão alienados quanto o meu interlocutor! Conheço vários americanos decentes que sabem enxergar outras histórias além da que lhes ensinaram na televisão e na escola.
Chimamanda Adichi - O Perigo de Uma História Única - Primeira Parte
Chimamanda Adichi - O Perigo de Uma História Única - Segunda Parte
Ao ver os dois vídeos, lembrei-me de uma viagem que fiz ao Equador em 2002. Em um passeio à cidadezinha de Otavalo, onde se localiza um dos mais tradicionais mercados indígenas do Equador (foto à direita), conheci no trajeto um americano de uns 40-50 anos que viajava com sua filha de uns 15 anos. Começamos a conversar sobre viagens e, ao falar que era brasileiro, ele imediatamente começou a discorrer sobre futebol, Pelé, carnaval e meninos de rua ("uma história única"). Contive o meu desconforto até o momento em que, ao falar dos países por onde já viajáramos, ele elogiou o Equador, como um país exótico, e me perguntou qual o lugar mais exótico que eu já havia visitado. Respondi quase imediatamente, não foi pensado, não foi sacanagem, e disse a ele "os Estados Unidos". Ele me olhou com ar pasmo e eu expliquei a ele que o conceito de exótico, no sentido de "esquisito, excêntrico, extravagante" se aplicava, no caso de um brasileiro, mais aos Estados Unidos do que ao Equador e que, portanto, a pergunta era inadequada. Ele pareceu entender e se desculpou pela pergunta. Ficou evidente ali o "perigo de uma história única".
PS. A tempo: não estou aqui reproduzindo a 'história única' de que todos os americanos são tão alienados quanto o meu interlocutor! Conheço vários americanos decentes que sabem enxergar outras histórias além da que lhes ensinaram na televisão e na escola.
31 de janeiro de 2010
"All Inclusive" na Bahia
Por uma opção da família, passei, junto com pais, irmãos e sobrinhos, nove dias em um desses hotéis all inclusive, na Bahia, para celebrar os 80 anos de meu pai e os 55 anos de casados dos velhos. Fazia muito tempo que a família toda não se reunia para algo do tipo e o saldo final foi extremamente generoso para todos: uma dose enorme de carinho, de afeto, de risadas e de trocas.
Para quem não sabe, um hotel all inclusive é aquele que inclui, em seus preços, todas as refeições e bebidas, inclusive alcoólicas, durante 24 horas, oferecendo ainda uma ampla variedade de atividades, esportes e diversões, também incluídas no preço. A primeira vez que ouvi falar nesse tipo de acomodação foi nos resorts do Caribe, mas a moda parece que pegou forte nos grandes hotéis do Nordeste do Brasil. E era uma dessas coisas que eu dizia que “nunca experimentei e nunca gostei”.
Por uma opção pessoal, fui o único da família que optou pela acomodação não inclusive, o que implicou eu pagar pelas despesas de alimentação e bebidas durante minha estadia. No entanto, meus bons propósitos não resistiram à lógica de um hotel all inclusive, porque a única forma de eu escapar dos grandes buffets de comida servidos durante as refeições era pedir à la carte no quarto, longe do resto da turma, o que não fazia muito sentido. Assim, me sobrava a opção de pagar o elevado preço do buffet para comer apenas alguma coisinha mais leve, como era a minha vontade, ou cair na tentação de experimentar um pouquinho da grande variedade de comidas e bebidas apresentadas, sem falar na variada mesa de doces, meu ponto fraco. Ou seja, todo o conceito de all inclusive é formulado para você comer, comer muito. O tempo todo… a toda hora…
Esses hotéis são normalmente construídos distantes dos grandes centros, geralmente em praias remotas. Mas isso não faz muita diferença, pois a maior parte das pessoas não sai de dentro do hotel, nem mesmo para ir à praia (seja por que na praia as comidas e bebidas não estão incluídas ou, se incluídas, demoram mais pra chegar). Mas para que ir a algum lugar? Afinal, comer e beber por 24 horas seguidas te tira o peso de ter que fazer planos para algum outro tipo de atividade. Deve ser por isso que os resorts recomendam que você descanse bem antes da viagem. Eu acreditava que era para aproveitar tudo o que o resort tem a oferecer, mas na verdade é para que o tempo de comer e de encher a cara não seja desnecessariamente reduzido pela necessidade de sono.
Os hóspedes são ‘marcados’ com uma pulseirinha colorida não-removível, que o qualifica a pedir de tudo a qualquer hora. Não é difícil perceber um certo orgulho nos seres que a exibem, como que dotados de um poder maior que os dos pobres mortais que têm que pagar pelo que comem e bebem, como eu, igualmente marcado por uma pulseirinha de outra cor que denota a minha inferioridade. Essa pulseirinha poderosa habilita os seres que a vestem a comer e beber bastante entre as refeições e, depois, nas refeições, comer e beber ainda mais. Não é muito provável que estejam fazendo isso por fome ou por necessidade e confesso não conseguir enxergar muito o sentido de toda essa comilança.
Imagino que, ao contrário de acomodações mais tradicionais, um resort all inclusive não ajuda muito a economia local, a não ser os donos do próprio hotel. Afinal, além de todos os estímulos para ficar dentro do hotel, não há muitos estímulos para sair dele. Esses hotéis estão normalmente muito distantes de tudo e de todos, fazendo com que sair do hotel para conhecer alguma outra coisa seja uma empreitada tão onerosa ou complexa que a opção é mesmo continuar comendo e bebendo em local conhecido, sem precisar pagar adicionalmente por serviços que já foram pagos e incluídos na sua hospedagem, nem se deslocar para nenhum outro lugar mais distante do que a piscina do hotel. Era exatamente isso que acontecia no nosso hotel, onde a maior parte dos hóspedes sequer se dirigia à praia em frente (50 metros), concentrando-se na área ao redor da piscina do hotel.
Ao longo dessa semana, consegui fugir do presídio, digo, do resort, por pelo menos três vezes, para conhecer um pouco da cidade e de outras praias, bem como para experimentar um pouco da gastronomia local (sim, porque se a comida do resort não pode ser descrita como ruim, certamente preza mais a quantidade do que a qualidade, numa terra onde as opções gastronômicas são absolutamente maravilhosas). Nem sempre tive sucesso em convencer companheiros de fuga; afinal a fuga implica despesas que a mera permanência no presídio já elimina.
Resumindo, foi bom porque o objetivo era esse: juntarmos a família toda para uma celebração. Muito provavelmente, a convivência intensa não teria acontecido num cenário onde as opções de passeios e de refeições fossem suficientemente amplas para cada um fazer, comer e beber o que gosta na hora que gosta. Pode até ser que alguma situação bastante particular, seja pelas circunstâncias, seja pelo local, me leve novamente a um hotel all inclusive. Mas definitivamente essa não é a minha praia. Além do que, é forçoso reconhecer que, exceto por algumas pequenas variações, um hotel igualzinho a esse, localizado a 30 km de Brasília, não faria muita diferença. Ok, aqui tem o clima, tem a fantástica vista do mar da varanda onde agora escrevo, mas a considerar o que fiz por aqui, vir ou não vir à Bahia não teria feito muita diferença.
Para quem não sabe, um hotel all inclusive é aquele que inclui, em seus preços, todas as refeições e bebidas, inclusive alcoólicas, durante 24 horas, oferecendo ainda uma ampla variedade de atividades, esportes e diversões, também incluídas no preço. A primeira vez que ouvi falar nesse tipo de acomodação foi nos resorts do Caribe, mas a moda parece que pegou forte nos grandes hotéis do Nordeste do Brasil. E era uma dessas coisas que eu dizia que “nunca experimentei e nunca gostei”.
Por uma opção pessoal, fui o único da família que optou pela acomodação não inclusive, o que implicou eu pagar pelas despesas de alimentação e bebidas durante minha estadia. No entanto, meus bons propósitos não resistiram à lógica de um hotel all inclusive, porque a única forma de eu escapar dos grandes buffets de comida servidos durante as refeições era pedir à la carte no quarto, longe do resto da turma, o que não fazia muito sentido. Assim, me sobrava a opção de pagar o elevado preço do buffet para comer apenas alguma coisinha mais leve, como era a minha vontade, ou cair na tentação de experimentar um pouquinho da grande variedade de comidas e bebidas apresentadas, sem falar na variada mesa de doces, meu ponto fraco. Ou seja, todo o conceito de all inclusive é formulado para você comer, comer muito. O tempo todo… a toda hora…
Esses hotéis são normalmente construídos distantes dos grandes centros, geralmente em praias remotas. Mas isso não faz muita diferença, pois a maior parte das pessoas não sai de dentro do hotel, nem mesmo para ir à praia (seja por que na praia as comidas e bebidas não estão incluídas ou, se incluídas, demoram mais pra chegar). Mas para que ir a algum lugar? Afinal, comer e beber por 24 horas seguidas te tira o peso de ter que fazer planos para algum outro tipo de atividade. Deve ser por isso que os resorts recomendam que você descanse bem antes da viagem. Eu acreditava que era para aproveitar tudo o que o resort tem a oferecer, mas na verdade é para que o tempo de comer e de encher a cara não seja desnecessariamente reduzido pela necessidade de sono.
Os hóspedes são ‘marcados’ com uma pulseirinha colorida não-removível, que o qualifica a pedir de tudo a qualquer hora. Não é difícil perceber um certo orgulho nos seres que a exibem, como que dotados de um poder maior que os dos pobres mortais que têm que pagar pelo que comem e bebem, como eu, igualmente marcado por uma pulseirinha de outra cor que denota a minha inferioridade. Essa pulseirinha poderosa habilita os seres que a vestem a comer e beber bastante entre as refeições e, depois, nas refeições, comer e beber ainda mais. Não é muito provável que estejam fazendo isso por fome ou por necessidade e confesso não conseguir enxergar muito o sentido de toda essa comilança.
Imagino que, ao contrário de acomodações mais tradicionais, um resort all inclusive não ajuda muito a economia local, a não ser os donos do próprio hotel. Afinal, além de todos os estímulos para ficar dentro do hotel, não há muitos estímulos para sair dele. Esses hotéis estão normalmente muito distantes de tudo e de todos, fazendo com que sair do hotel para conhecer alguma outra coisa seja uma empreitada tão onerosa ou complexa que a opção é mesmo continuar comendo e bebendo em local conhecido, sem precisar pagar adicionalmente por serviços que já foram pagos e incluídos na sua hospedagem, nem se deslocar para nenhum outro lugar mais distante do que a piscina do hotel. Era exatamente isso que acontecia no nosso hotel, onde a maior parte dos hóspedes sequer se dirigia à praia em frente (50 metros), concentrando-se na área ao redor da piscina do hotel.
Ao longo dessa semana, consegui fugir do presídio, digo, do resort, por pelo menos três vezes, para conhecer um pouco da cidade e de outras praias, bem como para experimentar um pouco da gastronomia local (sim, porque se a comida do resort não pode ser descrita como ruim, certamente preza mais a quantidade do que a qualidade, numa terra onde as opções gastronômicas são absolutamente maravilhosas). Nem sempre tive sucesso em convencer companheiros de fuga; afinal a fuga implica despesas que a mera permanência no presídio já elimina.
Resumindo, foi bom porque o objetivo era esse: juntarmos a família toda para uma celebração. Muito provavelmente, a convivência intensa não teria acontecido num cenário onde as opções de passeios e de refeições fossem suficientemente amplas para cada um fazer, comer e beber o que gosta na hora que gosta. Pode até ser que alguma situação bastante particular, seja pelas circunstâncias, seja pelo local, me leve novamente a um hotel all inclusive. Mas definitivamente essa não é a minha praia. Além do que, é forçoso reconhecer que, exceto por algumas pequenas variações, um hotel igualzinho a esse, localizado a 30 km de Brasília, não faria muita diferença. Ok, aqui tem o clima, tem a fantástica vista do mar da varanda onde agora escrevo, mas a considerar o que fiz por aqui, vir ou não vir à Bahia não teria feito muita diferença.
19 de dezembro de 2009
Fim de Festa
Já não restam muitos convidados para a festa. Os mais interessantes já foram embora. Do lado de fora, os não convidados e os que foram convidados e não conseguiram entrar também já foram embora. Sobraram poucos: os que não podem ir por consideração aos donos da casa, os chatos, os bêbados e os alegres. Chatos, bêbados e alegres adoram qualquer festa, encontram-se, conversam entre si, sequer percebem o que não funcionou ou o que aconteceu na festa, e não desconfiam que esteja na hora de ir embora e que os donos da casa já querem dormir. Mas a festa não deu certo, o som falhou, a música ao vivo desafinou, as luzes queimaram, a comida tava ruim, alguns convidados não puderam entrar, os convidados mais esperados vieram mas se comportaram mal e o gran finale tão esperado não aconteceu. Depois de preparada por dois anos, a festa sequer teve o programado registro fotográfico dos convidados ao seu final. Os espertos saíram antes da hora, quando viram a festa afundar, quando viram que não ia rolar. Ficaram os amigos dos donos, os que acreditaram até o fim que a festa podia melhorar, que a foto ia rolar e que, exaustos, tentavam, como um exército de brancaleones, ao mesmo tempo cantar, consertar a iluminação, preparar e servir a comida, comprar mais bebidas no bar da esquina, alegrar e animar os convidados restantes, como se com isso conseguissem minimizar o mal comportamento dos convidados principais que estragaram a festa.
Copenhagen, Dinamarca, 20 de dezembro de 2009, 2h00 da manhã, 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Fim de festa. Sobraram frustração, desapontamento e decepção. O mundo inteiro estava de olho no que acontecia aqui. Nunca antes na história da humanidade um tema científico despertou tanta atenção de governantes, de políticos, da mídia internacional e de cidadãos comuns. Nunca antes uma Conferência desse tipo mobilizou tantos participantes, foi assunto de tantas conversas, preocupando igualmente os que dele entendiam e os que não entendiam. Foram mais de 115 Chefes de Estado/Governo, 40000 participantes registrados, governamentais e não-governamentais, 5000 jornalistas. Uma logística sem precedentes. Uma expectativa à altura da quantidade de participantes, da estatura dos líderes mundiais presentes e, principalmente, da importância do tema para o futuro da humanidade. O resultado final, contudo, foi muito pior do que as minhas baixíssimas expectativas poderiam imaginar: uma grande demonstração coletiva de desprezo pelas atuais e futuras gerações da humanidade. Mas o show deve continuar... enquanto houver show... enquanto houver artistas, palhaços e macacos... e enquanto houver platéia.
Copenhagen, Dinamarca, 20 de dezembro de 2009, 2h00 da manhã, 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Fim de festa. Sobraram frustração, desapontamento e decepção. O mundo inteiro estava de olho no que acontecia aqui. Nunca antes na história da humanidade um tema científico despertou tanta atenção de governantes, de políticos, da mídia internacional e de cidadãos comuns. Nunca antes uma Conferência desse tipo mobilizou tantos participantes, foi assunto de tantas conversas, preocupando igualmente os que dele entendiam e os que não entendiam. Foram mais de 115 Chefes de Estado/Governo, 40000 participantes registrados, governamentais e não-governamentais, 5000 jornalistas. Uma logística sem precedentes. Uma expectativa à altura da quantidade de participantes, da estatura dos líderes mundiais presentes e, principalmente, da importância do tema para o futuro da humanidade. O resultado final, contudo, foi muito pior do que as minhas baixíssimas expectativas poderiam imaginar: uma grande demonstração coletiva de desprezo pelas atuais e futuras gerações da humanidade. Mas o show deve continuar... enquanto houver show... enquanto houver artistas, palhaços e macacos... e enquanto houver platéia.
13 de dezembro de 2009
As Prostitutas de Copenhagen
Na Dinamarca eles têm um sindicato das prostitutas. Não, eu não estou brincando, as prostitutas aqui são sindicalizadas. E a Dinamarca tem também, como em qualquer outro país, políticos que gostam de se auto-promover às custas de grupos como as prostitutas, como forma de fazê-los parecerem melhores para o público.
Foi assim que a prefeita de Copenhagen decidiu aproveitar a Conferência do Clima para aparecer, alertando os quase 40000 visitantes que a cidade recebeu nesse período para não utilizarem as profissionais do sexo. Ela chegou ao ponto de imprimir cartões postais e enviá-los para cerca de 160 hotéis da cidade apelando aos delegados da Conferência “seja sustentável – não compre sexo”. Não entendi exatamente o que faz com que pagar por sexo seja pouco ecológico… talvez sejam as camisinhas usadas no ato ou a quantidade extra de CO2 emitida durante o ato? Essa parte a prefeita não explicou bem…
Naturalmente, essa iniciativa não foi muito bem recebida pela indústria do sexo, de forma que elas decidiram retaliar. E a forma de retaliação não poderia ser mais original. Elas simplesmente anunciaram que todos os delegados da Conferência que apresentassem o cartão da prefeita junto com o crachá da Conferência teriam sexo grátis. Nessa, a prefeita ‘sifu’…
Como a prostituição é legal no país, o protesto do sindicato considerou a iniciativa da prefeita uma forma de preconceito, num país que zela muito pela imagem de “politicamente correto”. Além disso, o protesto toca também numa ferida local que escapou às discussões, que é a noção de que os visitantes estrangeiros é que fazem a alegria dos prostíbulos. Segundo a representante do sindicato da prostitutas, essa noção é errada: “a grande maioria do nosso público é local”.
Não há dados divulgados sobre o sucesso ou não do protesto. E, finalmente, só pra deixar claro, eu não cheguei a usar a promoção ;-)
30 de junho de 2009
Sicília, Itália - Abril de 2009
Escolhi pela internet o que parecia ser um simpático Bed&Breakfast, Gianni & Lucia, cujo dono, Gianni, sem pressa e minuciosamente, me apresentou a região e a cidade, me deu mapas, recomendações de passeio, sugestões de restaurantes. Nada como o atendimento prive que um grande hotel não te oferece.
Catânia é considerada uma cidade grande na Sicília (300.000 habitantes) e com poucos atrativos para o viajante, mas acabou se revelando uma interessante cidade, com boas opções culturais, históricas e, também, de gastronomia. Iniciei minha estada num simpático restaurante, Il Borgo de Federico, desses bem típicos, com televisão transmitindo futebol, famílias, jovens casais, crianças, no qual exerci o delicioso prazer de observar gente enquanto experimentava o honesto ‘vinho da casa’ e uma novidade gastronômica, a carne de cavalo, prato típico da cidade, e surpreendentemente suculenta, macia e saborosa. Voltei caminhando para o hotel, não sem antes parar numa das muitas e esteticamente atraentes confeitarias da cidade para experimentar outra especialidade local, o delicioso canolli de ricota, uma espécie de biscoito recheado de uma pasta de ricota com pistache.
Para mim, a principal razão de ficar em Catânia era explorar a região em volta, mas principalmente, fazer uma expedição ao vulcão Etna, o maior vulcão em atividade do planeta (3400m) e, em constante erupção, cenário de tantos eventos trágicos e visualmente impactantes nas muitas cidades construídas no seu entorno. No entanto, descobri, frustrado, que eu não havia combinado meus dias de folga com a natureza, de forma que por dois dias fiquei em Catânia esperando o sol abrir para que eu pudesse ver o Etna.
Por conta das nuvens, dediquei meu domingo a explorar Catânia. Catânia é uma cidade comum, e se torna interessante exatamente por isso. Gente ordinária, poucos turistas, o que torna mais agradável visitar seus restaurantes, mercados, ruas, lojas, brincando com uma língua da qual meus conhecimentos são rudimentares e, como em outras ocasiões, com outras línguas, descobrindo que consigo comer, sobreviver, locomover-me, hospedar-me. É fascinante, ainda que às vezes estressante, estar num lugar sem falar nada da língua local, ainda que o italiano pareça muito semelhante, e às vezes dependendo da generosa ajuda de algum anjo da guarda que chega num momento de apuro, e que arranha o inglês ou outra língua qualquer mais conhecida. Mesmo com anjos da guarda, porém, freqüentemente se perde uma informação, uma sugestão, uma direção, uma piada, uma dica.
Catânia no domingo é uma cidade morta. Ruas vazias, comércio fechado, pouca gente circulando, o que torna a cidade propícia para explorar com calma suas muitas praças e construções históricas. Vez por outra me sentava num banco de praça e, enquanto observava o povo, lia e aprendia mais sobre o relevante papel que a Sicília teve em diversos momentos da história universal, inclusive na II Guerra Mundial. Aprendi, também, um pouco da fascinante e assustadora história da máfia na região, uma presença forte que, embora sofrendo baques recentes, continua se fazendo presente, ainda que não notada pelo viajante comum. Mas a parte mais interessante do dia foi mesmo passear pela feira de produtores orgânicos locais, onde fui tentado pela profusão de queijos, geléias, frios, vinhos, grãos e nozes ali expostos, numa degustação que acabou sendo o meu almoço.
No B&B, encontrei um simpático casal de velhinhos ingleses aposentados, que dedicam seu tempo livre a viajar pelo mundo. Estavam agora explorando a Sicília e trocamos sugestões e recomendações do que já tínhamos lido e visto. Nessas importantes trocas que acontecem numa viagem, o interessante é ouvir e captar todas as recomendações e sugestões, mas nunca deixar de fazer sua própria viagem, com seu próprio olhar e sentimento. Porque o que torna cada lugar interessante, ou não, é exatamente o olhar, o momento, a emoção que se vive naquela hora, e isso é sempre único para cada pessoa, razão por que não faz sentido querer repetir “aquela maravilhosa” viagem que alguém nos descreveu.
Mesmo com as pesadas nuvens, não resisti a fazer uma viagem ao Etna, optando pela CIRCUMETNEA, uma ferrovia que, ao longo de 110 km, vai contornando o Etna e parando em diversas cidadezinhas locais. Supostamente, o Etna seria vislumbrado e apreciado em cada um desses 110 km, mas o que vi mesmo em todo o trajeto foram nuvens, muitas nuvens. Embora o trem seja supostamente turístico, havia poucos turistas nele, que era mesmo ocupado pelos moradores locais que se deslocavam entre essas cidadezinhas, não cobertas pela rede ferroviária do estado. Numa delas, Randazzo, saltei do trem para descobrir resquícios bem vivos do período medieval, castelos, construções, pontes, igrejas. Na volta ao trem, uma parada numa lojinha de produtos típicos, onde, com muita mímica e boa vontade, consegui um delicioso sanduíche de mortadela e um copo descartável cheio do vinho local, e fui caminhando pelas ruas sob a chuva até chegar à estação de trem. Um banquete memorável.
O dia seguinte, à tarde, era o início de minha “vida oficial” na Sicília. Fui de ônibus de Catania a Siracusa, onde consegui chegar a tempo de deixar as coisas no hotel, resolver algumas pendências de trabalho e sair para passear na belíssima ilha de Ortigia, sem dúvida a parte mais interessante de Siracusa. Como costuma acontecer, lembro pouco dos detalhes que li e ouvi sobre Siracusa, mas me lembro que, pela sua localização, é uma cidade com decisivo papel em vários dos grandes momentos da história universal. Além disso, muitos filósofos dos tempos helênicos passaram por aqui.
Taormina seria apenas uma cidadezinha italiana qualquer não tivesse sido construída onde foi. Teatros gregos são comuns em todas as cidades por onde andaram esses povos (e não são poucos), mas duvido que algum tenha sido construído num penhasco com vistas tão espetaculares para o mar. Fiquei a imaginar o que deve ser um show num lugar desse, onde o palco disputa a atenção com as vistas do mar e do vulcão Etna ao fundo.
E por falar em Etna, saio da Sicília com a frustração de não vê-lo, quase com a certeza de que esse vulcão não existe. Depois de andar 110 km de trem para ver o Etna e de me hospedar em Taormina num dos mais privilegiados pontos de visualização do vulcão, não tive sequer esboço do grande vulcão.
Isso me faz lembrar das estórias que ouço e das viagens que já fiz, para as quais existe antecipadamente a expectativa de uma vista, de uma fotografia, de um monumento, de um cenário… A frustração é inevitável quando se depende da indomável e imprevisível natureza, ou dos dias de abertura de um museu, de uma doença no dia exato da visita. Qualquer dessas coisas pode ser a diferença entre ver ou não ver o Etna, deslumbrar-se ou não com a visão de Macchu Picchu a partir da Porta do Sol, enxergar ou não o por do sol nas dunas de areia da Índia, admirar ou não a arquitetura de Québec, só pra citar algumas frustrações já vividas. Isso tudo para não falar de como uma diarréia pôde me impedir de admirar o Taj Mahal com a grandeza que ele merece.
Como não ver o Etna não foi a primeira expectativa frustrada numa viagem, isso não me estragou o prazer de estar por ali, até mesmo porque descobri, depois, que a Sicília é muito mais do que o Etna. Numa viagem, nem sempre se encontra o que se foi buscar, e estar aberto e receptivo a isso é um dos grandes segredos de bem viajar. Até mesmo porque, com frequência, o que se encontra é mais fascinante do que aquilo que fomos buscar.
24 de junho de 2009
Uma Nova Janela para Paris
Surpreendi-me ao me dar conta de que esta já é a sétima vez que venho a Paris... em três delas, vim apaixonado... em uma vim a trabalho, na outra vim com meus pais, na sexta com amigos e nesta última vim sozinho. Cada uma única e deliciosa em seus encantos. A grande vantagem de vir mais vezes a uma cidade como Paris é não precisar mais fazer o inevitável check list das atrações turísticas... Torre Eiffel, Rio Sena, Catedral de Notre Dame, Museu do Louvre, são atrações fantásticas mas que terminam quase que se impondo como obrigações do visitante.
Agora não... não tenho mais nenhuma obrigação em Paris. Não preciso acordar cedo e pegar o metrô para cumprir aquela agenda cuidadosamente desenhada na noite anterior. Estou livre, totalmente livre, para andar onde eu quiser, ir onde quiser, sentir o que quiser. E isso significa simplesmente sentir Paris, do jeito que se apresenta. Mais do que ir a Paris, significa deixar Paris vir a mim, se é que isso não é muita pretensão.
Agora não... não tenho mais nenhuma obrigação em Paris. Não preciso acordar cedo e pegar o metrô para cumprir aquela agenda cuidadosamente desenhada na noite anterior. Estou livre, totalmente livre, para andar onde eu quiser, ir onde quiser, sentir o que quiser. E isso significa simplesmente sentir Paris, do jeito que se apresenta. Mais do que ir a Paris, significa deixar Paris vir a mim, se é que isso não é muita pretensão.
Pra começar, o maravilhoso metrô de Paris, que se orgulha de nunca te deixar a mais de 500 metros de qualquer ponto da cidade, é bom para te levar rapidamente a lugares distantes mas,como todo metrô, não te permite ver a cidade, o sol, as ruas, as pessoas (exceto aquelas que, sonolentas e mal humoradas, se encaminham ou voltam do trabalho ou da escola). Então, o bom agora é andar a pé e de ônibus (a moda agora em Paris é andar no super bem bolado esquema de bicicletas, mas essa fica pra uma outra vez ainda ;-). É claro que, somente no metrô, você consegue ver a faceta da cidade que vai bem além do turismo, ali está o cidadão comum, o imigrante, o legal e o clandestino, o branco, o negro, o metrô, literalmente, encerra a cidade.
Eu, que adoro um mapa, saio a pé pela cidade, sem mapa. Me perco, o que é fascinante. Também me fascino quando já não me perco e me localizo. Ao me deslocar, privilegio o ônibus. Não é tão simples quanto o metrô, tem que estudar mais, tem que perguntar, tem que olhar em volta, tem que tentar entender, mas não é isso que faz a cidade ficar mais interessante? E não é isso que te faz ir de um lugar a outro olhando a cidade, o sol, os rostos, as peles, de forma mais interessante do que enterrado no buraco do metrô?
Me lembro que, da primeira vez que vim a Paris, todos me falavam para me preparar para o mal humor do francês. Todas as piores expectativas que eu tinha foram cumpridas, mas ao menos, viajando mais tarde pelo interior, descobri que não é o francês que é mal humorado, é o parisiense. E não foram poucas as oportunidades que eles tiveram para me mostrar um pouco de seu mal humor e má vontade. Na segunda vez, vim com a mesma má vontade e percebi o mesmo mal humor. E a partir da segunda, terceira, enfim, os parisienses já não me pareciam mais tão mal humorados. Mudaram os parisienses ou mudei eu?
Bom, as mulheres parisienses não mudaram. Continuam lindas, elegantes, charmosas. As que não são lindas, não escapam de ser charmosas. Não valorizam os seios, como nos EUA, nem a bunda, como no Brasil, mas sabem como ninguém, com saltos e saias, especialmente no verão, valorizar suas pernas. E que pernas... Mas elas são como Paris. Não olham pra mim. Elas não olham pra ninguém. Andam, certas de que são lindas, elegantes e charmosas. E a nós, homens, nos cabe apenas admirá-las. Como fazemos com Paris. A única coisa que não entendo é como, sem olhos nos olhos (sim, elas nunca olham nos seus olhos), acontecem os grandes encontros daqueles filmes franceses que tanto povoaram minhas fantasias.
Paris tem séculos de vida, de história, de cultura... Acho que é mais fácil eu mudar e compreender Paris do que ela se ajustar a mim. E Paris vale a pena. Eles são mal humorados, são pouco higiênicos, muitas coisas não funcionam bem, mas Paris é Paris, e não é à toa que estou aqui pela sétima vez. A cidade é linda, cada esquina exala história, cultura, sabores, cheiros, sentimentos. Paris é uma cidade completa na estimulação de cada sentido.
Já pouco olho o guia ou o mapa para saber onde ir, o que comer, o que fazer. Não estou em busca daquele “lugarzinho” recomendado pelos amigos e pelos guias. Sigo o fluxo, olho para as carinhas de felizes (ou infelizes) comensais, antes de escolher onde vou comer. Entro no que parece ser bom, ainda que possa não ser (é raro, mas acontece!). Arrisco mais e mais meu francês de segundo grau. Passeio por lugares menos turísticos e mais parisienses. Eu, que adoro fotos, já não tiro fotos, apenas olho, guardo na memória. Não preciso mais provar a mim mesmo que estive aqui.
E tudo isso me faz sentir Paris de uma forma diferente, nova, mas sempre igualmente fascinante, arrebatadora, apaixonante. É, de fato, uma cidade para se vir quantas vezes se puder. Ela continuará te esnobando, sem olhar pra você, mas, mesmo assim (ou por causa disso mesmo), não tenho como não continuar apaixonado por ela.
De Aiuruoca para Paris
É interessante sair de Minas Gerais, visitando a Serra do Cipó e o Vale do Matutu, em Aiuruoca, e 24 horas depois estar em Paris. Lembro-me de uma amiga que me dizia que eu era igualmente feliz tanto na Chapada dos Veadeiros quanto em Londres. E foi assim que me senti nessa transição de férias tão insólita quanto instigante, com todas as possíveis divergências e convergências entre os dois destinos.Saí do Brasil poucos dias depois do trágico acidente com o vôo da Air France, que ia do Rio para Paris. Embora as lembranças nesses casos sejam inevitáveis, não tive nenhum tipo de insegurança ao embarcar no avião. Meu medo de viajar existe, sim, mas não está no avião, está nas estradas brasileiras, essas sim, fontes de estresse, de perigo, de risco. Essas me provocam tensões, dores musculares, dores de cabeça. No avião, é o tempo de entrar e sair dele, e uma turbulência no máximo incomoda a leitura durante o vôo. Ponto para Paris.
Já nos respectivos destinos, na Serra do Cipó ou em Aiuruoca é o carro, é o 4x4 que me move, me leva por terras, matos, fronteiras, lugares pouco navegados. Eu faço a rota. Em Paris, é o ônibus, o metrô, que me conduz por ruas e avenidas ao mesmo tempo lindas e congestionadas. As rotas já existem, eu não as faço. Ponto para Aiuruoca. Mas, no fim, em ambos os destinos, são os pés que me guiam, que me levam, que me fazem achar o caminho mais bonito, mais deserto, mais original. Andei muito, as pernas cansam muito, tanto em Aiuruoca quanto em Paris.
E a comida? Serra do Cipó e Aiuruoca são Minas, Paris é França. A comida é diferente em Minas e em Paris, mas em ambas é parte inseparável da cultura e do modo de viver dos dois lugares, onde comer não é apenas para matar a fome. Numa, o feijão tropeiro, o arroz, o bife, a galinha ensopada, o queijo quente, a goiabada com queijo Minas, a batata frita. Na outra, o entrecôte, o gigot d’agneau, o patê de lapin, o panini com queijo Brie, o creme brulée, a batata frita (essa última é universal, mas boa mesmo é a do McDonald’s ;-). Numa, a casa da Dona Neuza, na outra, o Café de La Paix. Tudo diferente, mas tudo bom, comer é um grande prazer. E comida leva ao vinho. Em Minas, é inverno... o tempo convida ao vinho. Em Paris, bem... em Paris, tudo convida ao vinho, sempre... E o vinho é um grande prazer... para o corpo e para a alma.
Em Aiuruoca, o Vale do Matutu, tudo é remoto, deserto, vazio (de gente, quero dizer). Estradas de difícil acesso, comunidades pouco povoadas, baixa estação. Em Paris, nada mais urbano e metropolitano, o mundo inteiro está ali, o verão chega e convida a viver a cidade. A vida, em suas diferentes nuances, pulsa nas duas. Ambas são vastas, grandes, ambas convidam à descoberta.
Mas nem tudo é igual. Minas te acolhe, protege, é familiar; Paris te esnoba, te expõe, é estranha, é estrangeira. São duas lindas damas, mas Paris te é indiferente, ali você é apenas mais um a admirá-la, mas ela não te nota e nem você entende o que ela diz. Aiuruoca parece estar tão feliz quanto você pelo fato de você estar ali, e você entende isso, tanto na palavra quanto no olhar. São duas lindas damas, mas uma não te olha nos olhos. A outra te olha nos olhos e ainda diz “olha moço, você bem que dá um bom caldo, viu?” (deliciosa frase ouvida de uma atendente num posto de gasolina nas proximidades de Aiuruoca). 10 x 0 pra Aiuruoca!
Mas nem tudo é igual. Minas te acolhe, protege, é familiar; Paris te esnoba, te expõe, é estranha, é estrangeira. São duas lindas damas, mas Paris te é indiferente, ali você é apenas mais um a admirá-la, mas ela não te nota e nem você entende o que ela diz. Aiuruoca parece estar tão feliz quanto você pelo fato de você estar ali, e você entende isso, tanto na palavra quanto no olhar. São duas lindas damas, mas uma não te olha nos olhos. A outra te olha nos olhos e ainda diz “olha moço, você bem que dá um bom caldo, viu?” (deliciosa frase ouvida de uma atendente num posto de gasolina nas proximidades de Aiuruoca). 10 x 0 pra Aiuruoca!
16 de junho de 2009
Katy Perry em Paris

No primeiro dia de minhas férias em Paris, e estando hospedado em sua casa, só mesmo meu amigo Shazzan para me fazer ir a um show de Katy Perry em Paris. Se você não sabe quem é Katy Perry, não se preocupe, eu também só fiquei sabendo hoje, quando ele me disse que haveria um show dela no famoso teatro Olympia, palco, há mais de 100 anos, de grandes nomes da música mundial como Edith Piaf, Louis Armstrong, Elis Regina, Aretha Franklin, Beatles, Tina Turner, entre outros. Quando ele me convidou, eu bem que me lembrei, preocupado, de que, na hora em que saí hoje de manhã, havia uma fila de adolescentes em frente ao teatro e eu pensei que algo do tipo Menudos deveria estar se apresentando, embora aqueles adolescentes sequer tenham idéia do que venham a ter sido os Menudos (sorte deles!).
E lá fomos nós pro Olympia, comprar ingresso de cambista, e adentrar o imenso salão vermelho característico do lugar, com um copão de cerveja na mão, que ficamos tomando em pé enquanto aguardávamos o show por mais de uma hora (sim, os shows são assistidos em pé). Em volta, eu olhava e tinha a certeza de que não havia uma alma viva mais jovem do que nós. A grande maioria na mesma faixa de idade da cantora, vinte e poucos anos. Na entrada da cantora no palco, os indefectíveis gritinhos e pulinhos, a que assisti com a paciência de quem leva a filha adolescente a um show desse (bem, na verdade, duvido que alguma adolescente aceite a companhia do pai num show desse!).
Eu me divertia muito observando os gestos, coreografias e falas da moça, enquanto observava o cenário, composto por gansos e um enorme coração cor de rosa, músicos vestidos de terno cor de rosa. Assistia a tudo com os inevitáveis passinhos de quem segue o ritmo da música, e com tentativas nem sempre bem sucedidas de me desviar das criancinhas colocadas sobre o pescoço dos pais para poderem enxergar melhor o palco. Assistia a tudo com o olhar distante de quem não pertence àquele ambiente até o momento em que, após uma tosca coreografia em que um palhaço vestido de carteiro entra no palco para entregar uma carta à cantora e ela solta, então, a música, Mr. Postman, grande hit dos Carpenters na década de 70. Nessa hora, enquanto eu batia os pezinhos mais animadinho, pude prestar mais atenção e vi alguns marmanjos também se soltando e traindo a idade.
Outro que traiu a idade foi o sujeito que acendeu um isqueiro e o levantou durante o show. Lembrei-me dos shows a que eu ia quando jovem, e o grande momento de emoção era o acender de isqueiros ou fósforos por grande parte da platéia na escuridão, o que produzia um fantástico efeito luminoso. No show de Katy Perry, porém, o grande efeito luminoso era dos milhares de aparelhos celulares que eram levantados para tentar captar a melhor imagem da mocinha.
O show terminou com o grande hit I Kissed a Girl (“Eu Beijei uma Garota”), o que produziu frisson comparável ao que vi, no Brasil, com as meninas que assistiam, nas primeiras filas, aos shows de Zélia Duncan e Cássia Eller (http://www.youtube.com/watch?v=DLt5n0auPwM para quem quiser conhecer I Kissed a Girl).
Chegando em casa, fui investigar melhor o fenômeno e descobri que Katy Perry foi lançada ao estrelato há um ano atrás, depois dos elogios que Madonna fez à música que a cantora fez avacalhando um namorado que lhe deu um pé na bunda (“Ur so Gay”, ou “Você é tão Gay”). Nao há muito mais o que saber de uma carreira de apenas um ano, mas para quem quiser conhecer mais, tem até um site de Katy Perry no Brasil (http://www.katyperry.com.br/).
Enquanto isso, vou dormir pensando no que Edith Piaf, Aretha Franklin e Elis Regina devem estar sentindo ao serem colocadas, junto com Katy Perry, no rol das grandes damas que pisaram o palco do Olympia.
26 de julho de 2007
Sydney, Australia, Julho de 2007
15 de junho de 2007
Washington, DC e Ricksgransen, Suécia - Glamour de viajar?
Washington, DC, EUA, 7 a 8 de junho de 2007
Riksgransen, Suécia, 11 a 14 de junho de 2007
Escrevi, outro dia, de maneira genérica, sobre a imagem de glamour que as pessoas têm sobre essas viagens de trabalho. Eu seria hipócrita se dissesse que todas elas são insuportáveis, que em algumas eu não vejo coisas bonitas, conheço gente interessante ou experimento comidas diferentes. Mas, no geral, são mesmo viagens de pouco prazer e muito trabalho, sem que haja muitas oportunidades para conhecer seja lá o que ou quem for. E minha viagem à remota Ricksgransen é um exemplo típico de como as coisas acontecem.
Saí de Brasília às 13:30, em direção a São Paulo, Congonhas. Em condições normais, o deslocamento do aeroporto local para o aeroporto internacional, cheio de malas, já é desagradável, mas esse dia era um feriado e o trajeto que normalmente é feito em 40 minutos levou duras horas e meia, o que já foi suficiente para me fazer chegar cansado e mal humorado em Guarulhos, onde tomaria o avião para Washington. Tão cansado que nem jantei no avião, apenas tomei meu infalível Dramin e capotei.
Viajar de classe econômica – carinhosamente conhecida como ‘cattle class’, ou ‘classe gado’ em português – não é exatamente confortável para quem tem altura ao menos mediana, de forma que cheguei ligeiramente quebrado por volta das 06h30min da manhã em Washington. Fui direto para o hotel, na esperança de que houvesse um quarto disponível para um bom e merecido banho, mas isso seria querer demais dos rígidos padrões de hotelaria americanos. Quarto, apenas depois do meio dia. Tomei um banho de gato e troquei de roupa no banheiro do hotel, larguei a mala na recepção e fui direto para a reunião.
A reunião durou o dia inteiro, inclusive com direito ao famoso ‘almoço de trabalho’ americano (um simples sanduíche) e, ao fim do dia, senti que uma poderosa gripe me derrubava. Foi uma boa oportunidade para fugir do já agendado jantar – novamente de trabalho – e voltei pro hotel, não sem antes passar numa daquelas fantásticas farmácias americanas, onde preparei o meu coquetel anti-gripe. Dormi bem cedo e bem. Tão bem que, entusiasmado com o remédio, tomei outra dose.
Descobri então que aqueles remédios antigripais que têm escrito ‘noite’ e ‘dia’, com fórmulas aparentemente idênticas, não eram puro marketing. Tomei, pela manhã, o tal do ‘noite’ e passei a manhã caindo de tanto sono, almocei caindo de sono e, ao fim do dia, ainda morrendo de sono, fui direto para o aeroporto, para regressar ao Brasil (isso mesmo, cheguei num dia e fui embora no outro). A motorista de táxi, uma indiana, quis me roubar na tarifa previamente acertada no hotel e isso rendeu uns bons e irritantes minutos de discussão na porta do aeroporto, até que se chegasse a um consenso. A essa altura, já irritado, a discussão tinha virado, para mim, uma questão de honra.
Na hora do check in, surpresa! Depois de a assistente muito procurar, sem sucesso, a minha reserva no sistema, sou informado que meu bilhete estava marcado para o dia seguinte. Depois de xingar até a 3ª geração de todas as pessoa que pudessem ter contribuído para o erro, comecei a infrutífera negociação com a moça da companhia que me informava que o único lugar disponível naquele vôo era na 1ª classe. Eu tinha um problema básico que fazia o meu embarque precisar ser feito naquele dia: outra viagem a trabalho que eu faria imediatamente em seguida. E foi assim que, revoltado, deixei no caixa da companhia a absurda quantia de U$ 1,200.00 (mil e duzentos dólares) para voltar numa 1ª classe das mais vagabundinhas, cujo custo não se justifica sob prisma algum.
Quando as coisas estão ruins, console-se... elas sempre podem ficar piores. Mesmo na primeira classe, não fiquei nem um pouco feliz com o atraso de quase duas horas na partida do vôo, atraso esse totalmente passado todo dentro do avião. Mas as coisas ainda podem ficar piores: quando cheguei em São Paulo, às 10:00 da manhã, já havia perdido o vôo das 9 para Brasília. E o próximo saía apenas, acredite, às 18 horas. Seriam oito horas no aeroporto que, naquela época, vivia o auge do apagão aéreo no Brasil, em que o caos imperava na aviação brasileira. Eu passaria essas intermináveis horas alternando entre o sono profundo e o trabalho, já de olho na viagem que faria no dia seguinte.
Mas podia ficar ainda pior. O vôo das 6 saiu apenas à meia noite, de forma que cheguei em casa apenas às duas da manhã. Foi o tempo de tomar um delicioso banho, cair na cama e, após uma noite mal dormida, me levantar e me preparar para a próxima viagem. Desfiz uma mala, fiz a outra e, poucas horas depois de chegar a Brasília, já estava novamente no aeroporto. Tinha uma longa jornada pela frente. Uma jornada que, incluídos todos os tempos de deslocamento e de espera em aeroportos, ia me tomar cerca de 30 horas até a remota cidadezinha de Riksgransen, no norte da Suécia, onde haveria a reunião chamada, sugestivamente, “Diálogo do Sol da Meia Noite”.
A trajetória incluiu 1h30m de Brasília a São Paulo, 4hs no aeroporto, 11hs de São Paulo a Munique, 2h30m de Munique a Estocolmo, 5hs no aeroporto, 2h30m de Estocolmo a Kiruna e, finalmente, 2 horas de ônibus de Kiruna a Riksgransen, onde chegamos por volta das duas horas da manhã, sob a forte luz do sol, que ainda brilhava nesse horário.
O sol da meia noite é um fenômeno que ocorre em altas latitudes norte, onde o sol continua visível por todo o dia, durante certo período do ano. A foto ao lado foi tirada às 22 horas. O número de dias por ano em que esse fenômeno se dá aumenta à medida que se viaje mais em direção ao pólo norte. Em Riksgransen, dura cerca de um mês. Muitos visitantes e turistas têm dificuldade em dormir durante a noite, quando o sol está brilhando. No meu caso, a longa jornada de viagem não me deu outra opção a não ser cair na cama e dormir. Mas quando, no meio da noite, me levantei para ir ao banheiro, com aquela natural sensação de “onde estou?” que me atinge na primeira noite em uma cidade, não pude conter o susto ao ver o sol lá fora e pensar que eu já estava atrasado para o trabalho. Nas próximas noites, prevenido, dormi sempre com uma máscara de olhos.
O sol da meia noite é realmente um fenômeno impressionante e, depois de uma jornada com tantos percalços, me senti feliz de estar ali, no meio do nada, observando, entre uma reunião e outra, o sol que nunca se punha (o hotel onde seria a reunião era totalmente isolado de qualquer civilização, apenas uma estação de esqui dominada por turistas durante o inverno).
Era verão, mas o frio era de 5 graus e as montanhas estavam cobertas de neve, apesar do sol permanente. Fiquei imaginando como seria o inverno nessa região onde, soube, a temperatura varia de -20 a -30 graus e há luz do dia apenas por cerca de uma hora, ao meio dia. A arquitetura do hotel era composta de diversos prédios entre os quais tínhamos que nos deslocar com freqüência, de forma que foram sucessivos choques térmicos ao longo dos dias, entre os 5 graus de fora e os muitos graus da calefação interna. Não foi por acaso que vários dos participantes logo estavam acometidos de gripe e dor de garganta.
Passado o deslumbramento, eu tive que lidar com o lado prático de um dia de 24 horas de sol. Em geral, logo após o jantar, quem tem vontade de ir pra cama com o sol brilhando? Nada melhor do que sair para uma boa caminhada pelas montanhas, à luz do sol, às 11 horas da noite. E foi na primeira dessas caminhadas, acompanhado por uma bela, doce e charmosa participante, já conhecida de outras reuniões, que senti uma gostosa sensação de encantamento. Uma boa conversa, um bom vinho, um cenário inebriante composto por lagos e montanhas, e o sol da meia noite brilhando de maneira insistente.
No dia seguinte, a reunião continua, apenas uma reunião como outra qualquer, diferente apenas no menu que, em todas as refeições, incluía as pobres renas, que minha mente costumou associar unicamente ao transporte do Papai Noel, nunca como prato principal. Não sei se foram elas, ou alguma outra das diferentes comidas que experimentei por lá, ou o cansaço de todos esses dias, mas me vi no dia seguinte sofrendo de uma dolorosa intoxicação alimentar. Eu acreditava que essas coisas só aconteciam na América Latina, na Ásia ou na África, não na Suécia. O ponto alto dessa intoxicação foi quando, depois do jantar, e em continuação à noite anterior, me vi no quarto da bela, doce e charmosa mulher e, antes que acontecesse qualquer coisa entre nós, tive que sair correndo para o meu quarto por medo de uma tragédia que seria traumatizante. Cômico, se não trágico!
No dia seguinte, teria início a longa jornada de regresso e, receoso que estava de encarar essas quase 30 horas de viagem no estado em que me encontrava, resolvi consultar o médico de plantão do hotel, que a recepcionista tão generosamente me ofereceu. O médico trocou umas quatro palavras comigo, me receitou um Imosec anti-diarréico e, prontamente, me apresentou uma conta de U$ 200.00. O susto quase me curou da intoxicação, mas o estrago estava feito. Quem mandou não perguntar nada e acreditar que aquele rapazinho com cara de recém saído da faculdade estava ali de graça esperando eu chegar?
O longo regresso, que já seria normalmente cansativo, foi agravado por dores, cólicas e mal estar. Quando finalmente cheguei em casa, depois de uma viagem que parecia não ter mais fim, olhei para trás e me perguntei o que exatamente havia acontecido de glamoroso em todos esses dias de viagem. Tá bom, eu tava num cenário maravilhoso, encantei-me com a moça bela, doce e charmosa, mas nem essas coisas pude aproveitar adequadamente. Foram quase dez dias de viagens seguidas, mais tempo em aviões, aeroportos e hotéis do que em qualquer outro lugar, e ainda tenho que convencer as pessoas que não há nada de glamour nisso tudo. Naquele dia, meu chuveiro, minha cama, meu travesseiro, minha casa, pareceram mais perfeitos do que em qualquer outro momento da minha vida. E acordei no dia seguinte sem sinais da intoxicação que havia me debelado na Suécia.
Riksgransen, Suécia, 11 a 14 de junho de 2007
Escrevi, outro dia, de maneira genérica, sobre a imagem de glamour que as pessoas têm sobre essas viagens de trabalho. Eu seria hipócrita se dissesse que todas elas são insuportáveis, que em algumas eu não vejo coisas bonitas, conheço gente interessante ou experimento comidas diferentes. Mas, no geral, são mesmo viagens de pouco prazer e muito trabalho, sem que haja muitas oportunidades para conhecer seja lá o que ou quem for. E minha viagem à remota Ricksgransen é um exemplo típico de como as coisas acontecem.
Saí de Brasília às 13:30, em direção a São Paulo, Congonhas. Em condições normais, o deslocamento do aeroporto local para o aeroporto internacional, cheio de malas, já é desagradável, mas esse dia era um feriado e o trajeto que normalmente é feito em 40 minutos levou duras horas e meia, o que já foi suficiente para me fazer chegar cansado e mal humorado em Guarulhos, onde tomaria o avião para Washington. Tão cansado que nem jantei no avião, apenas tomei meu infalível Dramin e capotei.
Viajar de classe econômica – carinhosamente conhecida como ‘cattle class’, ou ‘classe gado’ em português – não é exatamente confortável para quem tem altura ao menos mediana, de forma que cheguei ligeiramente quebrado por volta das 06h30min da manhã em Washington. Fui direto para o hotel, na esperança de que houvesse um quarto disponível para um bom e merecido banho, mas isso seria querer demais dos rígidos padrões de hotelaria americanos. Quarto, apenas depois do meio dia. Tomei um banho de gato e troquei de roupa no banheiro do hotel, larguei a mala na recepção e fui direto para a reunião.
A reunião durou o dia inteiro, inclusive com direito ao famoso ‘almoço de trabalho’ americano (um simples sanduíche) e, ao fim do dia, senti que uma poderosa gripe me derrubava. Foi uma boa oportunidade para fugir do já agendado jantar – novamente de trabalho – e voltei pro hotel, não sem antes passar numa daquelas fantásticas farmácias americanas, onde preparei o meu coquetel anti-gripe. Dormi bem cedo e bem. Tão bem que, entusiasmado com o remédio, tomei outra dose.
Descobri então que aqueles remédios antigripais que têm escrito ‘noite’ e ‘dia’, com fórmulas aparentemente idênticas, não eram puro marketing. Tomei, pela manhã, o tal do ‘noite’ e passei a manhã caindo de tanto sono, almocei caindo de sono e, ao fim do dia, ainda morrendo de sono, fui direto para o aeroporto, para regressar ao Brasil (isso mesmo, cheguei num dia e fui embora no outro). A motorista de táxi, uma indiana, quis me roubar na tarifa previamente acertada no hotel e isso rendeu uns bons e irritantes minutos de discussão na porta do aeroporto, até que se chegasse a um consenso. A essa altura, já irritado, a discussão tinha virado, para mim, uma questão de honra.
Na hora do check in, surpresa! Depois de a assistente muito procurar, sem sucesso, a minha reserva no sistema, sou informado que meu bilhete estava marcado para o dia seguinte. Depois de xingar até a 3ª geração de todas as pessoa que pudessem ter contribuído para o erro, comecei a infrutífera negociação com a moça da companhia que me informava que o único lugar disponível naquele vôo era na 1ª classe. Eu tinha um problema básico que fazia o meu embarque precisar ser feito naquele dia: outra viagem a trabalho que eu faria imediatamente em seguida. E foi assim que, revoltado, deixei no caixa da companhia a absurda quantia de U$ 1,200.00 (mil e duzentos dólares) para voltar numa 1ª classe das mais vagabundinhas, cujo custo não se justifica sob prisma algum.
Quando as coisas estão ruins, console-se... elas sempre podem ficar piores. Mesmo na primeira classe, não fiquei nem um pouco feliz com o atraso de quase duas horas na partida do vôo, atraso esse totalmente passado todo dentro do avião. Mas as coisas ainda podem ficar piores: quando cheguei em São Paulo, às 10:00 da manhã, já havia perdido o vôo das 9 para Brasília. E o próximo saía apenas, acredite, às 18 horas. Seriam oito horas no aeroporto que, naquela época, vivia o auge do apagão aéreo no Brasil, em que o caos imperava na aviação brasileira. Eu passaria essas intermináveis horas alternando entre o sono profundo e o trabalho, já de olho na viagem que faria no dia seguinte.
Mas podia ficar ainda pior. O vôo das 6 saiu apenas à meia noite, de forma que cheguei em casa apenas às duas da manhã. Foi o tempo de tomar um delicioso banho, cair na cama e, após uma noite mal dormida, me levantar e me preparar para a próxima viagem. Desfiz uma mala, fiz a outra e, poucas horas depois de chegar a Brasília, já estava novamente no aeroporto. Tinha uma longa jornada pela frente. Uma jornada que, incluídos todos os tempos de deslocamento e de espera em aeroportos, ia me tomar cerca de 30 horas até a remota cidadezinha de Riksgransen, no norte da Suécia, onde haveria a reunião chamada, sugestivamente, “Diálogo do Sol da Meia Noite”.
A trajetória incluiu 1h30m de Brasília a São Paulo, 4hs no aeroporto, 11hs de São Paulo a Munique, 2h30m de Munique a Estocolmo, 5hs no aeroporto, 2h30m de Estocolmo a Kiruna e, finalmente, 2 horas de ônibus de Kiruna a Riksgransen, onde chegamos por volta das duas horas da manhã, sob a forte luz do sol, que ainda brilhava nesse horário.
O sol da meia noite é realmente um fenômeno impressionante e, depois de uma jornada com tantos percalços, me senti feliz de estar ali, no meio do nada, observando, entre uma reunião e outra, o sol que nunca se punha (o hotel onde seria a reunião era totalmente isolado de qualquer civilização, apenas uma estação de esqui dominada por turistas durante o inverno).
Era verão, mas o frio era de 5 graus e as montanhas estavam cobertas de neve, apesar do sol permanente. Fiquei imaginando como seria o inverno nessa região onde, soube, a temperatura varia de -20 a -30 graus e há luz do dia apenas por cerca de uma hora, ao meio dia. A arquitetura do hotel era composta de diversos prédios entre os quais tínhamos que nos deslocar com freqüência, de forma que foram sucessivos choques térmicos ao longo dos dias, entre os 5 graus de fora e os muitos graus da calefação interna. Não foi por acaso que vários dos participantes logo estavam acometidos de gripe e dor de garganta.
Passado o deslumbramento, eu tive que lidar com o lado prático de um dia de 24 horas de sol. Em geral, logo após o jantar, quem tem vontade de ir pra cama com o sol brilhando? Nada melhor do que sair para uma boa caminhada pelas montanhas, à luz do sol, às 11 horas da noite. E foi na primeira dessas caminhadas, acompanhado por uma bela, doce e charmosa participante, já conhecida de outras reuniões, que senti uma gostosa sensação de encantamento. Uma boa conversa, um bom vinho, um cenário inebriante composto por lagos e montanhas, e o sol da meia noite brilhando de maneira insistente.
No dia seguinte, a reunião continua, apenas uma reunião como outra qualquer, diferente apenas no menu que, em todas as refeições, incluía as pobres renas, que minha mente costumou associar unicamente ao transporte do Papai Noel, nunca como prato principal. Não sei se foram elas, ou alguma outra das diferentes comidas que experimentei por lá, ou o cansaço de todos esses dias, mas me vi no dia seguinte sofrendo de uma dolorosa intoxicação alimentar. Eu acreditava que essas coisas só aconteciam na América Latina, na Ásia ou na África, não na Suécia. O ponto alto dessa intoxicação foi quando, depois do jantar, e em continuação à noite anterior, me vi no quarto da bela, doce e charmosa mulher e, antes que acontecesse qualquer coisa entre nós, tive que sair correndo para o meu quarto por medo de uma tragédia que seria traumatizante. Cômico, se não trágico!
No dia seguinte, teria início a longa jornada de regresso e, receoso que estava de encarar essas quase 30 horas de viagem no estado em que me encontrava, resolvi consultar o médico de plantão do hotel, que a recepcionista tão generosamente me ofereceu. O médico trocou umas quatro palavras comigo, me receitou um Imosec anti-diarréico e, prontamente, me apresentou uma conta de U$ 200.00. O susto quase me curou da intoxicação, mas o estrago estava feito. Quem mandou não perguntar nada e acreditar que aquele rapazinho com cara de recém saído da faculdade estava ali de graça esperando eu chegar?
O longo regresso, que já seria normalmente cansativo, foi agravado por dores, cólicas e mal estar. Quando finalmente cheguei em casa, depois de uma viagem que parecia não ter mais fim, olhei para trás e me perguntei o que exatamente havia acontecido de glamoroso em todos esses dias de viagem. Tá bom, eu tava num cenário maravilhoso, encantei-me com a moça bela, doce e charmosa, mas nem essas coisas pude aproveitar adequadamente. Foram quase dez dias de viagens seguidas, mais tempo em aviões, aeroportos e hotéis do que em qualquer outro lugar, e ainda tenho que convencer as pessoas que não há nada de glamour nisso tudo. Naquele dia, meu chuveiro, minha cama, meu travesseiro, minha casa, pareceram mais perfeitos do que em qualquer outro momento da minha vida. E acordei no dia seguinte sem sinais da intoxicação que havia me debelado na Suécia.
20 de dezembro de 2005
Montreal, Canadá - Dezembro de 2005
Montreal, Canadá, Dezembro... Tá frio aqui... muito frio. Um frio que eu ainda não havia conhecido, nem mesmo nos morros cobertos de neve por onde já andei caminhando. Um frio que te faz precisar de informações para tomar decisões sobre o seu dia. Um frio que dá até pra entender aquela mania norte-americana de não fazer nada sem antes olhar a meteorologia. Na hora em que escrevo, às 9 da manhã, o termômetro registra 12 graus negativos. E a tal da sensação térmica, que é uma medida que junta a temperatura e o vento pra dizer quanto que na verdade tá parecendo, é de 18 graus negativos.
Está na hora de sair pro Centro de Convenções, que fica a apenas 5 minutos daqui, caminhando. Perto o suficiente para nenhum taxista querer te levar numa corrida de não mais do que 2 minutos - ou levar com muita má vontade. Mas longe o suficiente para caminhar a 12 graus negativos. E se, no meio do caminho, vc encontra um sinal fechado, esses dois minutos até que se abra novamente são intermináveis.
A grande vantagem do frio é que eu fico bonito... muito bonito. Quando coloco o meu cachecol, o meu pulôver, o meu sobretudo, me olho no espelho e pergunto “espelho, espelho meu, existe alguém mais gostoso, bonito e elegante do que eu?”... o espelho fica embasbacado, sem resposta, sem palavras... mas isso é porque o espelho não consegue ver que, por baixo disso tudo, ainda vai uma ceroula, um camisetão e uma meia bem grossa, tudo sem charme algum. O espelho também não vê quando, já na rua, coloco a luva e a touquinha que me fazem parecer um marginal decadente de 3a categoria...
Mas a inevitável pergunta é: como um povo vive num país em que essa temperatura não é exceção, é quase regra? Naturalmente, eles se adaptam. Montreal tem uma extensa rede de galerias subterrâneas, verdadeiros shopping centers por baixo da terra, por onde as pessoas circulam. Não é à toa que não se vê quase ninguém nas ruas, tá todo mundo enterrado. Além disso, os hotéis, centros de conferência, restaurantes, bares, tudo que é fechado, tem sistemas de aquecimento altamente eficientes. O resultado prático disso é que quando você sai da rua e entra num desses lugares, começa um verdadeiro strip tease... tira a touca, tira as luvas, tira o cachecol, tira o pulôver, e assim vai tirando... numa dessas situações, o restaurante estava tão quente que tive que ir ao banheiro tirar o ceroulão que já tava me assando.
O mais interessante é olhar o sol brilhando pela janela. É quase com ingenuidade que eu olho prá fora e fico com vontade de sair andando pelas ruas... impossível entender como um sol lindo daquele convive com uma temperatura de 12 graus negativos. Peguei pouca neve até agora. Neve é aquela coisa que a gente acha linda quando vê cair pela janela, mas que na hora que você tá andando na rua, com um sapato brasileiro não preparado para ela, escorregando no chão e congelando seu pé, ela perde toda a beleza romântica dos filmes de Natal americanos, e se torna um suplício. Nada de guerrinha de bola de neve ou de bonecos de neve.
Como costuma acontecer nessas viagens a trabalho, sobre a cidade de Montreal, além dos 12 graus negativos, do hotel e do centro de conferências, pouco posso dizer. Sei que há bons restaurantes, bares de jazz, casas de show, shoppings, mas, como costuma acontecer nessas viagens, não só não há tempo para essas explorações, como o frio terrível que faz à noite, ao fim de todas as tarefas, não encoraja grandes aventuras exploratórias.
Mas isso aqui não é lugar para trabalhar. É lugar para comer bem, tomar um bom vinho, beijar na boca, comer chocolate, ler perto da lareira, dormir numa cama gostosa, tomar um banho de banheira... ou tudo isso junto, não necessariamente nessa ordem...
Está na hora de sair pro Centro de Convenções, que fica a apenas 5 minutos daqui, caminhando. Perto o suficiente para nenhum taxista querer te levar numa corrida de não mais do que 2 minutos - ou levar com muita má vontade. Mas longe o suficiente para caminhar a 12 graus negativos. E se, no meio do caminho, vc encontra um sinal fechado, esses dois minutos até que se abra novamente são intermináveis.
A grande vantagem do frio é que eu fico bonito... muito bonito. Quando coloco o meu cachecol, o meu pulôver, o meu sobretudo, me olho no espelho e pergunto “espelho, espelho meu, existe alguém mais gostoso, bonito e elegante do que eu?”... o espelho fica embasbacado, sem resposta, sem palavras... mas isso é porque o espelho não consegue ver que, por baixo disso tudo, ainda vai uma ceroula, um camisetão e uma meia bem grossa, tudo sem charme algum. O espelho também não vê quando, já na rua, coloco a luva e a touquinha que me fazem parecer um marginal decadente de 3a categoria...
Mas a inevitável pergunta é: como um povo vive num país em que essa temperatura não é exceção, é quase regra? Naturalmente, eles se adaptam. Montreal tem uma extensa rede de galerias subterrâneas, verdadeiros shopping centers por baixo da terra, por onde as pessoas circulam. Não é à toa que não se vê quase ninguém nas ruas, tá todo mundo enterrado. Além disso, os hotéis, centros de conferência, restaurantes, bares, tudo que é fechado, tem sistemas de aquecimento altamente eficientes. O resultado prático disso é que quando você sai da rua e entra num desses lugares, começa um verdadeiro strip tease... tira a touca, tira as luvas, tira o cachecol, tira o pulôver, e assim vai tirando... numa dessas situações, o restaurante estava tão quente que tive que ir ao banheiro tirar o ceroulão que já tava me assando.
O mais interessante é olhar o sol brilhando pela janela. É quase com ingenuidade que eu olho prá fora e fico com vontade de sair andando pelas ruas... impossível entender como um sol lindo daquele convive com uma temperatura de 12 graus negativos. Peguei pouca neve até agora. Neve é aquela coisa que a gente acha linda quando vê cair pela janela, mas que na hora que você tá andando na rua, com um sapato brasileiro não preparado para ela, escorregando no chão e congelando seu pé, ela perde toda a beleza romântica dos filmes de Natal americanos, e se torna um suplício. Nada de guerrinha de bola de neve ou de bonecos de neve.
Como costuma acontecer nessas viagens a trabalho, sobre a cidade de Montreal, além dos 12 graus negativos, do hotel e do centro de conferências, pouco posso dizer. Sei que há bons restaurantes, bares de jazz, casas de show, shoppings, mas, como costuma acontecer nessas viagens, não só não há tempo para essas explorações, como o frio terrível que faz à noite, ao fim de todas as tarefas, não encoraja grandes aventuras exploratórias.
Mas isso aqui não é lugar para trabalhar. É lugar para comer bem, tomar um bom vinho, beijar na boca, comer chocolate, ler perto da lareira, dormir numa cama gostosa, tomar um banho de banheira... ou tudo isso junto, não necessariamente nessa ordem...
30 de novembro de 2005
Nairobi, Quenia - A África Errada - Novembro 2005
Agora, estou em Nairobi, no Quenia. O pior dessa viagem, alem de nao encontrar chocolate e internet, tem sido explicar para quem eu encontro por que eh que o Brasil aprovou o comercio de armas, uma coisa que soh boa para bandidos e para a elite. Mas essa eh outra discussao. A viagem tá sendo boa mesmo eh prá eu contar prá quem acha que minha vida de viajante é uma maravilha. Na minha recente fase Polyanna, eu até estava achando tudo lindo e maravilhoso, naquela de que, se tem que ser assim, que seja. E que eu tire o melhor disso. E foi mais ou menos o que aconteceu na China, que foi uma super cansativa – acho que estou cansado daquela viagem até hoje, sem nem me recuperar dos fusos horários – mas foi uma viagem interessante, com bastante trabalho mas também com a chance de conhecer algumas coisas interessantes do país.
Mas essa aqui, não há Polyanna que resista. Eu até vim animadinho, porque, apesar do longuíssimo vôo, em três trechos, o trecho mais longo (de quase 10 horas) foi o mais confortável vôo que já peguei em todas essas viagens. Poltronas ótimas, grande espaço entre assentos, boa comida, tudo tava indo bem. Até a hora em que cheguei ao hotel. Dizem que o hotel é um tal de hotel-escola da cidade, mas se for eles ainda têm muito que aprender até começar a ensinar.
Já começou no check in. Depois de tantas viagens, já percebi que vc sabe mais ou menos o que esperar de um hotel pelo que vc encontra no check in. Aqui foi um processo lento, burocrático, confuso, até que eu recebesse a chave do quarto. O quarto correspondeu às expectativas que eu comecei a ter já no check in... horrível. Um carpete fedorento, lençóis velhos, móveis antigos e em mal estado, paredes precisando de uma boa pintura, cortinas empoeiradas. Num lugar de extremos de calor, surpreende não ter um ar condicionado nem um ventilador. Frigobar com água gelada, nem pensar. E o tolinho aqui ainda perguntou na recepção se havia internet no quarto. Finalmente, no teto, um romântico mosquiteiro pendia sobre a cama, o que prometia uma noite cheia de mosquitos dados os furinhos na tela do mosquiteiro.
A vista que me tinham descrevido como a principal atraçao do hotel era desoladora. De fato, uma bela piscina numa área verde extensa e até simpática. À volta da piscina, um cenário típico desses filmes africanos, tipo Out of África, onde um bando de empregados negros, vestidos imaculadamente de brancos, deslizam entre as mesas servindo abonados cidadãos deitados sobre as espreguiçadeiras. O detalhe é que muitos dos cidadãos eram também negros, e depois vim a descobrir que o hotel era uma espécie de clube local, onde a elite abonada pode pagar mensalmente para usar as instalações. E logo na divisa do hotel, ao fundo da minha privilegiada vista, uma enorme favela, provavelmente residência de muitos dos empregados do hotel.
O banheiro, a começar pela iluminação, extremamente pobre, que só pode ser intencional para que não se perceba o tom escurecido dos azulejos. Mas isso não foi nada até o momento em que descobri, tarde demais, que a água quente só existia até 11 horas da noite. Enfim, um daqueles hotéis em que vc chega e decide que no dia seguinte vai embora. Mas no dia seguinte, na correria do trabalho, cheio de compromissos e correndo muito, vc começa a pensar que não vale a pena esse esforço todo por apenas 3 noites. Mas que acabam por serem três noites longe de serem as noites mais interessantes da minha vida.
No trabalho, o velho esquema. Passar o dia inteiro em reunioes no centro de convencoes. Até aí, nada de diferente, muito trabalho, a velha dificuldade de ficar mudando de língua o tempo todo e, confesso, até muito mais trabalho do que eu previa para essa viagem. Mas isso nem me incomoda, faz parte. O que me incomoda mesmo é encarar o absolutamente almoço buffet no único restaurante disponível. O que se tornou ainda pior considerado o igualmente intragável café da manhã no hotel, onde, imagino, os pães servidos deveriam até ter sido gostosos há uns 10 dias atrás, quando devem ter sido feitos.
Entao, essa viagem está longe de ser qualquer coisa que eu possa recomendar a alguém de quem eu goste, embora a África, em si, seja um continente fascinante em termos de vida selvagem, música, cultura, comida, artes... é apenas que, dessa vez, eu vim prá África errada.
Mas essa aqui, não há Polyanna que resista. Eu até vim animadinho, porque, apesar do longuíssimo vôo, em três trechos, o trecho mais longo (de quase 10 horas) foi o mais confortável vôo que já peguei em todas essas viagens. Poltronas ótimas, grande espaço entre assentos, boa comida, tudo tava indo bem. Até a hora em que cheguei ao hotel. Dizem que o hotel é um tal de hotel-escola da cidade, mas se for eles ainda têm muito que aprender até começar a ensinar.
Já começou no check in. Depois de tantas viagens, já percebi que vc sabe mais ou menos o que esperar de um hotel pelo que vc encontra no check in. Aqui foi um processo lento, burocrático, confuso, até que eu recebesse a chave do quarto. O quarto correspondeu às expectativas que eu comecei a ter já no check in... horrível. Um carpete fedorento, lençóis velhos, móveis antigos e em mal estado, paredes precisando de uma boa pintura, cortinas empoeiradas. Num lugar de extremos de calor, surpreende não ter um ar condicionado nem um ventilador. Frigobar com água gelada, nem pensar. E o tolinho aqui ainda perguntou na recepção se havia internet no quarto. Finalmente, no teto, um romântico mosquiteiro pendia sobre a cama, o que prometia uma noite cheia de mosquitos dados os furinhos na tela do mosquiteiro.
A vista que me tinham descrevido como a principal atraçao do hotel era desoladora. De fato, uma bela piscina numa área verde extensa e até simpática. À volta da piscina, um cenário típico desses filmes africanos, tipo Out of África, onde um bando de empregados negros, vestidos imaculadamente de brancos, deslizam entre as mesas servindo abonados cidadãos deitados sobre as espreguiçadeiras. O detalhe é que muitos dos cidadãos eram também negros, e depois vim a descobrir que o hotel era uma espécie de clube local, onde a elite abonada pode pagar mensalmente para usar as instalações. E logo na divisa do hotel, ao fundo da minha privilegiada vista, uma enorme favela, provavelmente residência de muitos dos empregados do hotel.
O banheiro, a começar pela iluminação, extremamente pobre, que só pode ser intencional para que não se perceba o tom escurecido dos azulejos. Mas isso não foi nada até o momento em que descobri, tarde demais, que a água quente só existia até 11 horas da noite. Enfim, um daqueles hotéis em que vc chega e decide que no dia seguinte vai embora. Mas no dia seguinte, na correria do trabalho, cheio de compromissos e correndo muito, vc começa a pensar que não vale a pena esse esforço todo por apenas 3 noites. Mas que acabam por serem três noites longe de serem as noites mais interessantes da minha vida.
No trabalho, o velho esquema. Passar o dia inteiro em reunioes no centro de convencoes. Até aí, nada de diferente, muito trabalho, a velha dificuldade de ficar mudando de língua o tempo todo e, confesso, até muito mais trabalho do que eu previa para essa viagem. Mas isso nem me incomoda, faz parte. O que me incomoda mesmo é encarar o absolutamente almoço buffet no único restaurante disponível. O que se tornou ainda pior considerado o igualmente intragável café da manhã no hotel, onde, imagino, os pães servidos deveriam até ter sido gostosos há uns 10 dias atrás, quando devem ter sido feitos.
Entao, essa viagem está longe de ser qualquer coisa que eu possa recomendar a alguém de quem eu goste, embora a África, em si, seja um continente fascinante em termos de vida selvagem, música, cultura, comida, artes... é apenas que, dessa vez, eu vim prá África errada.
30 de outubro de 2005
China, Outubro de 2005
Em minhas andanças pelo mundo, a China sempre esteve entre as prioridades dos lugares a visitar. Por diversas razões, essa viagem nunca aconteceu até o dia em que precisei ir à China, a trabalho. Apesar de nem todo mundo acreditar que essas viagens a trabalho raramente contêm componentes de prazer, frustrei-me antecipadamente por saber que a viagem não seria exatamente como eu havia imaginado um dia estar na China - um mochileiro solto pelo país, com minhas indefectíveis botas, bermudas e camiseta, andando a pé, de ônibus, trem, navio, bicicleta e tuc-tuc, e me hospedando em simpáticas pousadas pelo interior do país. Durante os preparativos para a viagem, eu conseguia antever os meus sentimentos ao visitar um país tão diverso, mas no qual eu estaria preso a formalidades institucionais, com seus devidos rituais, hospedado em hotéis ocidentalizados, alimentando-me exclusivamente em refeições de trabalho, vestido de terno e gravadade.
A diferença entre uma viagem de trabalho e uma de lazer já se inicia na fase do planejamento. Ao contrário de uma viagem de férias, em que me preocupo mais com o conteúdo do que com a forma (interessa-me mais saber o que vou ver e encontrar do que como vou fazer ou onde vou me hospedar), tive que me preocupar, na preparação dessa viagem, com aspectos e detalhes logísticos inerentes a uma viagem de trabalho e, no caso particular, com aqueles que expressam as diferenças culturais entre Brasil e China. Isso se traduziu, especialmente, no contato diário com a Embaixada da China no Brasil, em que as noções de 'timing' dos dois povos se mostraram bem aparentes. Os chineses, organizados e previdentes, queriam, com bastante antecedência, informações e detalhes de nossa visita que, simplesmente, não éramos capazes de fornecer com tamanha antecipação (horários de vôos, medidas das roupas que a Ministra usaria na cerimônia especial, minuta do acordo de cooperação, cópia do discurso que seria pronunciado pela Ministra, etc. Os chineses certamente se desesperaram com nossa falta de respostas tanto quanto nós nos desesperamos por, diariamente, não ter as respostas que nos eram solicitadas.
Da parte dos chineses, pelo menos um mês antes da viagem, já tínhamos detalhes completos da agenda que a Ministra cumpriria, com níveis de detalhe que nos pareciam exagerados, repetidos em diversos momentos para assegurar que havia plena compreensão de tudo que aconteceria por lá. Já sabíamos onde nos hospedaríamos, quem encontraríamos em cada hora de cada dia, que autoridades participariam de cada evento, o que e onde comeríamos, quem nos acompanharia, quem seria o intérprete, tudo já estava definido com antecedência.
De nossa parte, porém, o exemplo mais evidente dessa diferença cultural foi o discurso da Ministra. Eles precisavam, com antecedência, para tradução no dia da cerimônia, do discurso escrito da Ministra. De uma Ministra que, frequentemente, fala de improviso de acordo com o 'clima' do evento e que, quando faz um discurso lido, ele é finalizado no avião ou no hotel, quando não na manhã do dia do evento. Isso era incompreensível para os chineses, que ficavam perplexos e, às vezes, irritados com a falta de materialização do discurso. Essa cobrança por parte deles foi se tornando um elemento de tensão nos preparativos para a viagem e somente no dia da dita cuja, um pouco antes de irmos para o aeroporto, conseguimos apresentar-lhes uma minuta do discurso, o qual poderia ser traduzido nos dois longos dias que duraria a nossa viagem (tempo, aliás, que certamente seria utilizado para fazer modificações no discurso, o que geraria uma nova onda de desespero quando desembarcássemos com a nova versão).
Entre os preparativos incomuns para a viagem, tive que lidar com uma cerimônia de ‘troca de presentes’ entre os Ministros. A primeira limitação, aqui, era como contornar o obstáculo do hipócrito impedimento legal que tem um Ministro de Estado no Brasil para adquirir um presente para um seu contraparte numa situação como essa. Depois, há que se imaginar o que presentear, dadas as diferenças tão gritantes de valores estéticos e culturais entre os dois povos. Finalmente, é essencial que se tenha a noção de diferenças culturais importantes como não oferecer um presente com embrulho branco, cor que simboliza a morte, nem abrir o presente recebido na frente de quem o ofereceu.
Passada a fase dos preparativos, vem a viagem propriamente dita. Do embarque em Brasília até o desembarque em Beijing (mais conhecida na minha geração como Pequim), são mais de 30 horas, entre horas de aeroporto e horas de avião. E são também onze horas de diferença em relação ao Brasil, de forma que chegamos a Beijing praticamente dois dias depois de ter saído de Brasília. Um trajeto tão longo quanto esse é particularmente nocivo quando a duração da viagem é curta - seriam dois dias viajando, dois dias na China e dois dias viajando de volta. Não é preciso dize que, durante os dias na China, dormia fora de hora e acordava na hora de dormir (o que valeu comentários irônicos da Ministra sobre a dificuldade de encontrar os meus olhos abertos durante um jantar de trabalho em que necessitava de uma informação, num dia em que quase caí sobre a mesa de tanto sono). E quando eu já estava me acostumando ao horário, estava na hora de voltar. Por isso, bom mesmo é o sofisticado sistema de compensação contra o jet lag da Ministra: quando tá escuro ela dorme, quando tá claro ela acorda. E funciona!
Chegamos a Beijing por volta do horário do almoço e nossa agenda oficial se iniciava no dia seguinte. Tínhamos a opção de descansar da longa viagem, o que pareceria natural, mas não resistimos à opção que nos foi oferecida de aproveitar aquela tarde para visitar a Grande Muralha. A Grande Muralha habita minha imaginação desde minhas primeiras aulas de história. Naquela época, acreditava-se ainda no mito, hoje desmentido, de que, da lua, se podia ver a Muralha (mas a informação ainda está nos livros escolares chineses). Não havia como perder aquela oportunidade, mesmo não sendo um dia perfeito: tava nublado, o que nos impediu de ver aquela imagem clássica da Muralha serpenteando nas montanhas a perder de vista. Gostaria, também, de saber como são feitas as fotos, imagens e documentários que sempre me mostraram a Grande Muralha deserta e silenciosa: no dia em que fomos havia uma multidão de chineses que falavam e tiravam fotos ao mesmo tempo, praticamente nos impedindo de qualquer registro fotográfico em que não estivéssemos cercados de chineses por todos os lados. Mesmo assim foi emocionante ver uma pequena parte dos quase 6700 km de uma muralha que varre a China de leste a oeste, cobrindo desertos, montanhas, pastos e planaltos, com mais de 2000 anos de fascinantes histórias. No auge de seu papel de proteger a China de invasões estrangeiras, a muralha contou com mais de um milhão de soldados espalhados ao longo de sua extensão.
As outras atrações turísticas que tivemos a chance de visitar – a Cidade Proibida e o Palácio de Verão – igualmente impressionam pela imponência, mas igualmente irritam pelas multidões de visitantes. Nesse aspecto, a China não é especialmente diferente de outros lugares no mundo de grande atração turística, mas o problema se agravava em função de estarmos num país com uma população de mais de 1.300.000.000 habitantes que, finalmente, começam a descobrir os prazeres do consumo (incluindo viajar).
Na Grande Muralha, tivemos o primeiro de vários episódios engraçadíssimos relacionados à tradução, o que não é de surpreender consideradas as diferenças entre uma língua de origem latina e uma outra cuja estrutura é totalmente diferente, incluindo o fato de que, na sua versão escrita, é feita por mais de 40.000 caracteres diferentes (ainda que apenas 10.000 deles sejam comumente utilizados). Assim, mais do que traduzir palavras ou frases, a missão de nosso intérprete era traduzir idéias. Com o seu português aprendido em uma temporada em Moçambique, nosso intérprete, um educado e atencioso jovem, funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros, nem sempre conseguiu traduzir com perfeição as idéias.
Durante a visita à Grande Muralha, a Ministra, querendo estabelecer diálogo com o funcionário do Ministério de Florestas que nos acompanhava, tratava de diversos temas da área ambiental. Em certo momento, a Ministra perguntou se a China tinha problemas com espécies exóticas invasoras, um termo que qualquer pessoa da área ambiental conhece bem. O intérprete, que não era da área ambiental, traduziu a pergunta e a inesperada e cômica resposta foi uma detalhada reconstituição das diversas invasões sofridas pelos chineses e as razões que levaram à construção da Grande Muralha.
Em outro momento divertido, o intérprete traduziu as restrições alimentares da Ministra como 'tabus'. A dieta da Ministra é sempre um motivo de preocupação, mas, no caso dos chineses, com hábitos alimentares bem diferentes dos nossos, nossos cuidados se redobraram. Mesmo assim, não foi possível relaxar em relação a esse aspecto da viagem porque cada refeição era um banquete com mais de 10 pratos diferente servidos em sequência e, em virtude das dificuldades de tradução de termos bem específicos, nem sempre conseguíamos ter a noção exata dos componentes de cada prato, forçando a Ministra a recusar os pratos com os quais não se sentia segura. Da minha parte, diverti-me experimentando a interessante culinária chinesa, tão diferente dos restaurantes chineses a que me habituei no mundo ocidental, mas tive que encarar o insuportável conceito de "frutas frescas" como sobremesa. Tá bom, não precisava ser um profiteroles, um petit gateau ou um brownie, mas podia ser ao menos uma banana ou maçã caramelizada, como a gente se acostumou a ver nos restaurantes chineses no Brasil.
Obviamente, numa viagem de caráter oficial como essa, não se tem a oportunidade de conhecer detalhes da vida do país. A famosa questão dos direitos humanos na China passa, assim, ao largo da nossa capacidade de observação. Mesmo assim, tivemos um episódio fantástico com nosso intérprete, quando passávamos em frente à Praça Tianamen. Para quem não se lembra, foi nessa praça que, em 1989, houve um histórico massacre de estudantes que se reuniam em protesto. O número de mortos, na ocasião, varia de 300 a 6000, conforme a fonte. Minha vontade era conhecer a versão oficial do governo chinês e, por isso, perguntei ao nosso intérprete se poderia me falar um pouco sobre a revolta dos estudantes na praça. O diálogo que se seguiu foi surreal. Na maior cara de pau, ele me perguntou ‘revolta de quem?’. Eu respondi ‘dos estudantes’. E ele continuou, ‘quando?’. Eu disse ‘em 1989’. Ele não perdeu a pose: ‘onde?’. Diante da minha insistência, e das evidências de que o fato era inegável, ele me respondeu, torturado, com um jeitinho vaselina e filosófico: ‘isso é uma coisa muito complexa; mil palavras não poderiam explicar; melhor perguntar à sua Embaixada para receber uma explicação’.
Vim a saber, depois, que esse tópico desapareceu completamente de qualquer meio de comunicação na China (incluindo livros, revistas, jornais, internet). É um tópico proibido pelo Governo Chinês. É comum que jovens chineses sejam completamente ignorantes sobre o episódio. Dessa forma, não surpreende a reação do jovem diplomata chinês: para ele, o massacre de Tianamem não existiu!
A viagem se encerrou com uma breve passagem por um shopping center que, segundo nosso amigo intérprete, era o maior shopping center da Ásia. Um ícone do capitalismo no maior país comunista do mundo. Não demorou muito, no entanto, para descobrirmos que nenhuma loja do maior shopping center da Ásia no maior país comunista do mundo aceitava cartões de crédito internacionais. Esse não foi o único, mas foi o mais expressivo exemplo das contradições que o gigante comunista ainda enfrenta em sua lenta e gradual transição à economia de mercado.
A China impressiona por qualquer aspecto que se possa examiná-la. Seja a enorme população, seja a cultura milenar, sejam as imponentes construções, sejam as contradições entre o comunismo e o livre mercado, entre a suposta liberdade e o autoritarismo do regime, seja a asfixiante burocracia estatal. Não dá, contudo, para ser indiferente. Não dá para passar por aqui sem ser tocado por algum aspecto de um país que provavelmente será, em poucos anos, a maior economia do planeta. A dúvida que me fica é como eles vão fazer para continuar manobrando e controlando com autoritarismo mais de um bilhão de chineses, num mundo ao qual a China tão rapidamente se expõe. Mas isso fica pra outra viagem... de preferência, não oficial!
A viagem se encerrou com uma breve passagem por um shopping center que, segundo nosso amigo intérprete, era o maior shopping center da Ásia. Um ícone do capitalismo no maior país comunista do mundo. Não demorou muito, no entanto, para descobrirmos que nenhuma loja do maior shopping center da Ásia no maior país comunista do mundo aceitava cartões de crédito internacionais. Esse não foi o único, mas foi o mais expressivo exemplo das contradições que o gigante comunista ainda enfrenta em sua lenta e gradual transição à economia de mercado.
A China impressiona por qualquer aspecto que se possa examiná-la. Seja a enorme população, seja a cultura milenar, sejam as imponentes construções, sejam as contradições entre o comunismo e o livre mercado, entre a suposta liberdade e o autoritarismo do regime, seja a asfixiante burocracia estatal. Não dá, contudo, para ser indiferente. Não dá para passar por aqui sem ser tocado por algum aspecto de um país que provavelmente será, em poucos anos, a maior economia do planeta. A dúvida que me fica é como eles vão fazer para continuar manobrando e controlando com autoritarismo mais de um bilhão de chineses, num mundo ao qual a China tão rapidamente se expõe. Mas isso fica pra outra viagem... de preferência, não oficial!
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Bem depois de minha viagem, li sobre os sofisticados mecanismos que o governo chinês utiliza para censurar a internet. Essa censura se faz por meio de uma ampla variedade de leis e regulamentos administrativos, vigorasamente implementados por organizações, empresas e provedores estatais de internet. Estima-se que a força tarefa da polícia da internet na China seja composta de mais de 30.000 pessoas, que atuam como censores e monitores. Comentários críticos em sítios da internet, foruns de discussão, blogs, etc, são usualmente apagados em segundos. Além da força tarefa especialmente designada para essa censura, e-mails, sites, blogs são censurados por pelos provedores de internet, que pertencem todos ao governo. O método é baseado na mesma tecnologia que bloqueia spams, por meio de palavras-chaves. A seguinte lista de palavras-chaves acionará o sistema de filtragem, bloqueando o acesso a qualquer conteúdo que as contenha: revolução, igualdade, liberdade, justiça, taiwan, tibet, falun gong, dissidente, dst (doenças sexualmente transmissíveis), democracia, direitos humanos.
18 de agosto de 2005
Montevidéu, Uruguai, 18 de agosto de 2005 – Encontros e Desencontros

18 de agosto, acabo de chegar de um delicioso jantar pós dia de trabalho, em que saboreei um belo vinho na companhia de alguns colegas de trabalho. Não era o motivo, eu até preferia que ninguém soubesse, mas o jantar terminou sendo também uma celebração de meu aniversário. Vários dos presentes não comporiam uma lista pequena de convidados para uma celebração, de forma que vi o jantar mais como uma refeição qualquer num dia de trabalho qualquer numa viagem a serviço qualquer, do que como celebração propriamente dita.
Mais uma viagem e não é porque é meu aniversário que ela me incomoda. É apenas mais uma no meio de tantas que já aconteceram neste ano e das muitas que ainda vão acontecer. Serão ainda muitas horas de vôo, de aeroporto, de arrumação de mala, de hotel. Enquanto olhava o mar pela janela, neste fim de noite, a sensação de impessoalidade de que se revestem essas viagens me fez lembrar do ótimo filme Encontros e Desencontros, que fala dessa sensação de estranhamento num outro país (Japão). Me senti como aquele personagem do Bill Murray, e me lembrei daquela antológica cena onde ele se senta na cama do hotel, olhar perdido, tentando encontrar-se em algum ponto perdido no horizonte. A foto dessa cena, anexa, poderia ter sido tirada de mim agora.
A sensação de que participo de uma reunião que, a rigor, poderia realizar-se em qualquer lugar, sem que isso fizesse diferença, é muito estranha. Os hotéis são todos parecidos, as camas, os banheiros, o café da manhã. As reuniões se realizam em lugares semelhantes, as refeições são cada vez mais “globalizadas”. As viagens se assemelham em tudo que têm de ruim, o mesmo atendimento ruim em todas as companhias, as filas para o check in, para o raio x, para a migração, para entrar no avião, para sair do avião, para a migração novamente,para pegar as malas (se elas chegarem!), para a alfândega, para o táxi, para o check in no hotel.
O nível de individuação das pessoas com que encontro é cada vez menor, é um ambiente onde todos falam as mesmas línguas, conversam os mesmos assuntos, discutem sobre os mesmos temas, usam as mesmas roupas. Será tão medíocre assim o resultado da globalização? Busco não perder, nunca, meu olhar para as diferenças. As diferenças de povos, línguas, culturas, comidas, música, trajes, artesanato, tudo isso é - ainda - diferente de um lugar para o outro e, sempre que possível, me deleito em ver essas diferenças. Mas descobri que isso é infinitamente mais fácil numa viagem de prazer do que numa viagem de trabalho.
Nessas viagens a trabalho, as diferenças são cada vez menores. Principalmente porque não sobra tempo para ver as diferenças que efetivamente fazem a diferença. Aqui em Montevidéu por exemplo. Três dias de reunião e não conversei ainda, de verdade, com um só uruguaio, a não ser em salas de trabalho. Não vi nada que possa dizer ser tipicamente uruguaio, sua vida, seus costumes, sua música, sua comida. Nada que me diga, de maneira categoria e inconfundível, que estou em Montevidéu e não em Buenos Aires ou Assunção. O hotel, o local das reuniões, as pessoas que delas participam, as refeições, tudo acontece aqui, mas podia ser em Brasília, sem que ninguém notasse a diferença.
A noite é sempre a minha grande esperança. De sair, ver algo novo, conhecer um bairro típico, uma comida tradicional, ver gente local. Mas nem isso é sempre possível. Uma vez é a preguiça e o cansaço, outra vez é um jantar de trabalho, outra vez é a conciliação com os colegas de trabalho, e com freqüência me vejo simplesmente jantando, num lugar qualquer, igual a outro qualquer.
Tá bom, acho que exagerei. Deve ser mesmo o tal do aniversário que, por menos importância que lhe dê, acaba trazendo essa aura de reflexão existencialista todos os anos. E eu que sempre achei viajar o grande prazer da vida, me vejo assim reclamando. É tudo isso que falei, sim, mas há ganhos também. Tenho aprendido muito, conhecido gente, crescido profissionalmente. Em alguns casos (poucos) dá até prá pensar que eu faço alguma diferença por estar ou não estar num determinado lugar. Nesses poucos casos, o prazer é maior.
Hora de dormir... o importante é nunca me perder de mim mesmo... o importante é promover um processo de individuação permanente em mim mesmo... tudo pode ser igual, mas enquanto eu for eu mesmo, ainda há esperança. Como diria o Leminski, “Essa mania de a gente ser exatamente como a gente é ainda vai nos levar mais além”.
Mais uma viagem e não é porque é meu aniversário que ela me incomoda. É apenas mais uma no meio de tantas que já aconteceram neste ano e das muitas que ainda vão acontecer. Serão ainda muitas horas de vôo, de aeroporto, de arrumação de mala, de hotel. Enquanto olhava o mar pela janela, neste fim de noite, a sensação de impessoalidade de que se revestem essas viagens me fez lembrar do ótimo filme Encontros e Desencontros, que fala dessa sensação de estranhamento num outro país (Japão). Me senti como aquele personagem do Bill Murray, e me lembrei daquela antológica cena onde ele se senta na cama do hotel, olhar perdido, tentando encontrar-se em algum ponto perdido no horizonte. A foto dessa cena, anexa, poderia ter sido tirada de mim agora.
A sensação de que participo de uma reunião que, a rigor, poderia realizar-se em qualquer lugar, sem que isso fizesse diferença, é muito estranha. Os hotéis são todos parecidos, as camas, os banheiros, o café da manhã. As reuniões se realizam em lugares semelhantes, as refeições são cada vez mais “globalizadas”. As viagens se assemelham em tudo que têm de ruim, o mesmo atendimento ruim em todas as companhias, as filas para o check in, para o raio x, para a migração, para entrar no avião, para sair do avião, para a migração novamente,para pegar as malas (se elas chegarem!), para a alfândega, para o táxi, para o check in no hotel.
O nível de individuação das pessoas com que encontro é cada vez menor, é um ambiente onde todos falam as mesmas línguas, conversam os mesmos assuntos, discutem sobre os mesmos temas, usam as mesmas roupas. Será tão medíocre assim o resultado da globalização? Busco não perder, nunca, meu olhar para as diferenças. As diferenças de povos, línguas, culturas, comidas, música, trajes, artesanato, tudo isso é - ainda - diferente de um lugar para o outro e, sempre que possível, me deleito em ver essas diferenças. Mas descobri que isso é infinitamente mais fácil numa viagem de prazer do que numa viagem de trabalho.
Nessas viagens a trabalho, as diferenças são cada vez menores. Principalmente porque não sobra tempo para ver as diferenças que efetivamente fazem a diferença. Aqui em Montevidéu por exemplo. Três dias de reunião e não conversei ainda, de verdade, com um só uruguaio, a não ser em salas de trabalho. Não vi nada que possa dizer ser tipicamente uruguaio, sua vida, seus costumes, sua música, sua comida. Nada que me diga, de maneira categoria e inconfundível, que estou em Montevidéu e não em Buenos Aires ou Assunção. O hotel, o local das reuniões, as pessoas que delas participam, as refeições, tudo acontece aqui, mas podia ser em Brasília, sem que ninguém notasse a diferença.
A noite é sempre a minha grande esperança. De sair, ver algo novo, conhecer um bairro típico, uma comida tradicional, ver gente local. Mas nem isso é sempre possível. Uma vez é a preguiça e o cansaço, outra vez é um jantar de trabalho, outra vez é a conciliação com os colegas de trabalho, e com freqüência me vejo simplesmente jantando, num lugar qualquer, igual a outro qualquer.
Tá bom, acho que exagerei. Deve ser mesmo o tal do aniversário que, por menos importância que lhe dê, acaba trazendo essa aura de reflexão existencialista todos os anos. E eu que sempre achei viajar o grande prazer da vida, me vejo assim reclamando. É tudo isso que falei, sim, mas há ganhos também. Tenho aprendido muito, conhecido gente, crescido profissionalmente. Em alguns casos (poucos) dá até prá pensar que eu faço alguma diferença por estar ou não estar num determinado lugar. Nesses poucos casos, o prazer é maior.
Hora de dormir... o importante é nunca me perder de mim mesmo... o importante é promover um processo de individuação permanente em mim mesmo... tudo pode ser igual, mas enquanto eu for eu mesmo, ainda há esperança. Como diria o Leminski, “Essa mania de a gente ser exatamente como a gente é ainda vai nos levar mais além”.
31 de março de 2005
Marrocos, março de 2005
Mas a chegada em Casablanca traz todos os tipos de emoções que essas viagens exóticas trazem consigo: expectativa, curiosidade, ansiedade e, claro, também certa insegurança. Tem que aprender os códigos locais, saber como se vai de um lugar pro outro, saber o que pedir pra comer, aprender a sobreviver com outra língua, outra cultura, tudo outro.
Tenho, naturalmente, que me despir dos preconceitos contra os franceses e contra a língua francesa. Isso não é exatamente fácil neste exato momento, em que me engalfinho com um irritante teclado francês (por que é que os franceses têm que ser diferentes até nisso?). Já no embarque, num vôo da Air France, começou a irritação ao ver que uma menina carregava no colo uma jaulinha de cachorro, que latia sem parar. Não acreditei que ela ia viajar todo o vôo com aquele cachorro e pensei "só podia ser coisa de francês, num vôo da Air France". Paguei a língua. Os comissários, em bloco, impuseram que a menina deixasse a gaiolinha no porão do avião, mas ela não aceitou. Depois de muita negociação, minha surpresa: a menina preferiu sair do avião, e assim saiu cheia de dignidade, carregando sua jaulinha. E a maior surpresa: era uma brasileira. Ou seja, essa babaquice francesa com os cães se acha no Brasil também.
Bom, gostando ou não de francês, é com as poucas palavras que conheço que vou ter que me virar aqui (o que é mais fácil do que me virar com árabe ;-). Não tem muita gente falando inglês por aqui, o que é perdoável; afinal eles não têm culpa de terem sido colonizados pelos franceses. Com meu parco francês, já consegui até tomar um chá de menta, o que me lembrou do delicioso e açucarado chá de menta que eu tomava num boteco libanês quando eu morava em Londres. Com toda essa falta de habilidade lingüística, até agora não me perdi, não morri de fome, nem deixei de perguntar a ninguém 'onde é', 'quanto custa' e coisas do gênero. Com meu francês de primeiro grau e com a boa vontade dos marroquinos, eu vou chegando lá.
O melhor num começo de viagem é se perder. Chegar ao hotel, tomar banho, andar pela rua, tomar um chá de menta num café a beira da calçada. Esse primeiro dia, então, é apenas pra relaxar da longa jornada, sentir os primeiros sons, cheiros, cores, sabores do lugar. Amanhã começa a exploração pra valer.
= = = = =
É bom não perder a capacidade de me deslumbrar, de me fascinar. Lembro-me de quando comecei uma longa viagem, que duraria seis meses, logo após o meu mestrado, e Sereen me disse que, depois de viajar um pouco, perde-se a capacidade de se deslumbrar, de se fascinar com as coisas, os lugares começam a ficar todos iguais. Fiquei com aquilo encucado, pensando se seria assim mesmo, até que, semanas depois, me encontrei mergulhando no Mar Vermelho e, ao ver aqueles recifes de corais, com vegetação e fauna multicolorida, uma visão deslumbrante, chorei no fundo do mar, emocionado com aquela beleza única, e percebi, fascinado e deslumbrado, que não tinha perdido a capacidade de me fascinar e de me deslumbrar.
E agora, no Marrocos, bom ver isso de novo. Depois de passar por alguns países árabes, outros muçulmanos, outros africanos, vejo que o Marrocos é tão árabe, tão muçulmano ou tão africano quanto os outros, mas é também tão único que me deslumbra em cada curva de estrada, em cada ruela de suas cidadezinhas imperiais (as medinas), e até mesmo em suas ruínas romanas (esses caras estão em todas, né?). É bom também descobrir que a novela brasileira que tornou o Marrocos tão próximo do imaginário coletivo brasileiro quanto Cancun e Aruba não é tão real assim. O Marrocos verdadeiro é bem diferente.
Dos franceses, os marroquinos herdaram muita coisa, entre o que há de melhor, destaca-se o prazer de comer, incluindo os charmosos cafés nas calçadas das ruas e os pães, deliciosos comparados com o que se encontra nessas viagens. Como nem tudo é perfeito, os marroquinos herdaram, também, dos franceses, aqueles insuportáveis chuveiros, compostos de uma mangueirinha pendurada na banheira, onde você tem que tomar banho, se ensaboar, se equilibrar e segurar a ducha com apenas duas mãos.
A comida, seja numa birosquinha bem simples ou num restaurante mais sofisticado, é sempre ótima. Bom, sou suspeito para falar isso, porque o carro-chefe aqui é o carneiro, e carneiro é comigo mesmo. Então, é tagine de carneiro, couscous de carneiro, kafta de carneiro... Para beber, arrisquei, com resultados abaixo da crítica, o vinho marroquino. A cerveja local não é, também, nada de excepcional. Acabo, então, ficando mesmo no delicioso chá de menta, refrescante mesmo quente.
Os cafés nas calçadas constituem uma verdadeira instituição nacional. Como na França, curto o delicioso prazer de simplesmente sentar-me, olhar o povo passar e tomar chá de menta. Peço um bule, abro um livro, meu caderno de anotações, e duas horas se passam sem que eu sequer perceba. Não há mulheres nesses cafés, apenas homens, ou, no máximo, alguma turista, mas sempre acompanhada por um homem. As mesas têm as cadeiras todas voltadas para frente, de forma que ninguém se senta de costas para a rua. Há dezenas desses cafés, e todos servem apenas chá e café, nada de comida; não consigo acreditar que sobrevivam apenas vendendo chá e café.
A recomendação aqui é não expor os joelhos e os ombros - ou seja, nada de bermudas ou de camiseta regata. Sofro mais pelas bermudas, mas nada que me incomode muito. Na verdade, estamos saindo do inverno aqui, está calor, mas um calor absolutamente suportável, em torno de 24 graus. O povo usa muita roupa aqui, os homens estão sempre vestindo uma camisa, um sweater e um casaco, faça a temperatura que fizer. Coisa de doido.
No grupo com que estou viajando, o destaque fica para uma babá inglesa e um marceneiro australiano, ambos bem jovens.. Fiquei imaginando quando que uma babá ou um marceneiro no Brasil poderiam fazer uma viagem dessas. São pessoas cultas, não ricas, moram decentemente no subúrbio, mas ganham dignamente para economizar e fazer uma viagem dessas. Fantástico.
Impressionante, quando viajo, minha capacidade de me desligar do mundo. Ao contrário do normal, tenho sonhado muito aqui. Quer dizer, sonhar eu sonho sempre, mas aqui tenho me lembrado muito dos meus sonhos. E são sempre sonhos legais, de gente querida, de coisas boas, algumas nostalgias, nada ruim. Bom dormir assim, dá prá relaxar pelo menos até as 5 horas da manhã, quando as mesquitas da cidade, com seus potentes alto-falantes, começam a chamar para as primeiras orações do dia. É assim cinco vezes por dia, como em qualquer país muçulmano. A prece das 5 da manhã é mais marcante por me tirar de um delicioso sono ao qual nem sempre consigo retornar.
Por falar em mercados, o Marrocos é uma tentação para quem gosta de coisas diferentes. O problema é que tudo de que gosto é pesado e volumoso. E viajando por várias cidades, de trem ou de ônibus, com uma mochila nas costas, não dá para pensar em comprar nada. Meu prazer, então, é olhar (se é que alguém consegue ter muito prazer ao olhar alguma coisa num mercado sem ser imediatamente assediado pelos comerciantes). E passeio pelas ruas dos mercados, resistindo heroicamente à tentação de comprar um tampo de mesa em mosaico, uma luminária de ferro ou uma peça de porcelana.
Saio dessa onda de consumo e parto para alguma coisa menos urbana, um trekking de dois dias no deserto do Alto Delta. O lado mais legal dessa experiência foi simplesmente ter dado conta dela. Com a vida sedentária que ando levando, esse era o meu maior receio. Por isso, ter encerrado os três dias de caminhada sem fazer feio foi motivo de grande celebração. A caminhada era menor do que outras que já fiz, mas muito mais do que qualquer tipo de exercício que ando fazendo recentemente (cerca de três a cinco horas por dia de caminhada, subindo e descendo). Os visuais eram absolutamente fascinantes para que eu sequer pensasse em fraquejar.
Passei por vilarejos bem pequenos, desses onde não passa turista, e as pessoas te olham com um ar meio esquisito, como se você fosse um ET por conta das roupas, botas, sandálias, chapéu, seja lá o que você estiver usando. E a gente ainda acha que estranhos são eles com aquelas roupas compridas, algumas cobrindo até a cabeça, naquela calor de rachar. Nesses lugares, andei ficando em acomodações bastante precárias, algumas camas e colchões não exatamente confortáveis, alguns lençóis já sem condições de uso e, provavelmente, sem serem lavados já há alguns meses. Em outros lugares, a falta de conforto continuava, mas eram lugares simpáticos, limpos, charmosos, as vezes velhas construções reformadas.
No meio do caminho, parávamos em casas de nômades, de berbers (uma das raças locais), e sempre rolava aquele ritual de sentar num tapete empoeirado e ser servido de um chá de menta onde a cor da água só era disfarçada pela cor da própria menta. Quando dava para entornar disfarçadamente, tudo bem, mas de vez em quando tinha que engolir e rezar para o organismo digerir seja lá o que fosse que entrasse. O mesmo valia para o pão que distribuíam, que passava de mão em mão, e era depois pousado sobre o tapete empoeirado.
Com toda minha birra da língua francesa, senti falta dela para interagir mais com as pessoas que encontrei pelo caminho. As vezes me via em diálogos surreais com pessoas que não me entendiam e a quem eu não entendia. De alguma forma, nos fazíamos compreender. Isso valia para essas paradas esporádicas - embora nesses casos nem francês adiantasse muito -, para as compras, para pedir informações, para escolher a comida no restaurante ou simplesmente para bater papo com algum curioso - em geral crianças.
Por alguma razão que ainda não consegui plenamente compreender, o deserto realmente exerce um fascínio grande sobre mim (deve ser efeito das inúmeras releituras do Pequeno Príncipe na infância ;-). No deserto, tenho a deliciosa sensação de não ver nada, não ouvir nada, apenas ver e sentir o vazio. Um lugar que me faz sentir pleno, consciente da minha pequenez, em que me conecto comigo mesmo ou com uma entidade superior, e me desconecto do mundo, da vida, das pessoas, do resto. Tive várias dessas oportunidades durante a viagem, e cada uma era uma boa chance desse encontro.
Foram dias gostosos no deserto, caminhadas, trens, jumentos, passeando por desertos que foram surpreendentemente diferentes de outros desertos por onde já passei. São desertos montanhosos, repletos de vales férteis, picos cobertos de neve (não esperava ver neve no Marrocos), além de vilarejos pendurados nas montanhas, como se favelas do Rio fossem.
= = = = =
De volta do deserto, um inglês comentou “de volta à civilização!”. Eu, que estava adorando estar no deserto, não gostei do comentário, mas adorei me encontrar em um lugar “civilizado”, onde eu tivesse acesso à internet. De qualquer maneira, foi bom, depois, ter uma conversa descontraída com o inglês sobre o que é ou não ser civilizado, especialmente quando se visita um pais tão rico em cultura, em arte, em conhecimentos tradicionais, e fazemos as inevitáveis comparações com os nossos próprios padrões culturais e de desenvolvimento.
Embora eu e o inglês comentássemos sobre as diferenças culturais entre o nosso ocidente e o Marrocos, não eram menores as diferenças entre mim e ele. Senti isso quando falei que tinha uma empregada em casa. Foi interessante observar a sua exaltada reação, que parecia tentar entender se eu era um rico oficial do governo, provavelmente vivendo à custa da corrupção típica dos países em desenvolvimento, se eu tinha trabalho escravo em casa ou se, afinal, o Brasil era um símbolo de civilização, com excelente qualidade de vida. Depois de muita conversa, ele começa a entender que ter uma empregada não é necessariamente um sinal de civilização; pelo contrário, é apenas um sinal de riqueza perversamente distribuída e que não é necessário ser rico para ter uma. Depois, conversando sobre o mesmo assunto num jantar com mais pessoas, confesso que não pude esconder um risinho de satisfação ao ver aqueles ingleses todos morrendo de inveja de mim, dos meu almoços em casa, do meu café da manha pronto quando acordo, da roupa lavada e passada, enquanto eles tem que encarar um terceiro expediente para ter tudo isso, sem a mesma qualidade.
O Marrocos surpreende na diversidade à medida que se anda de uma cidade para outra, e andei por muitas. Mudam as cores e o estilo das roupas, mudam as músicas, mudam os dialetos, mudam as cores das casas, mudam os cheiros. Um verdadeiro espetáculo para os sentidos. Não dá para ficar indiferente, não dá para não ficar virando os olhos de um lado para o outro à procura da próxima pessoa, do próximo traje, da próxima cor, do próximo cheiro, da próxima porta ou janela, da próxima ruela.
Só não mudou muito a comida que, apesar de saborosa, no fim se mostra absurdamente repetitiva: todos os cardápios, de norte a sul, são variações em torno dos mesmos temas: tagine, couscous, omelete. Sobremesa, que é bom, nem pensar. Ou melhor, existe, mas é igualmente repetitiva e composta de frutas da estação (quem foi que algum dia inventou que frutas da estação podem ser classificadas como sobremesa?) ou iogurte (Danone, sempre! E iogurte, é sobremesa?). Nos lugares mais sofisticados, a fruta da estação é substituída por uma salada de laranja fatiada polvilhada com canela, uma combinação interessante, ou por iogurte caseiro, em geral bem gostoso, mas que caberia melhor numa mesa de café da manhã.
O país é bastante explorado turisticamente, o que quer dizer que, mesmo em lugares remotos, acabo cruzando com um ou outro gringo, em geral franceses.. Há também espanhóis que cruzam, de carro, o Estreito de Gibraltar, e vêm passear por aqui. Não vi um brasileiro até agora, mas é interessante ver as reações dos marroquinos às minhas camisetas com cores ou bandeiras do Brasil. São reações simpáticas, naturalmente com referências a Ronaldo, Ronaldinho, Romário. Uma reação divertida foi a de um motorista de táxi que, passando em frente ao melhor hotel de Casablanca, e já sabendo que eu era brasileiro, apontou e disse "isso é para americanos e europeus". Só faltou dizer "isso não é pro seu bico!". Recebi aquele comentário como quem diz "você, brasileiro, é um dos nossos"... mais um gesto de carinho do que a minha automática exclusão do rol dos seres dignos de se hospedarem naquele hotel.
= = = = =
Depois de muito andar pelo deserto, foi interessante chegar ao mar, em Essaouira, uma cidadezinha de origens portuguesas que não tem nada a haver com o resto do país que visitei. À beira mar, casas todas pintadas de branco, ruelas estreitas mas organizadas, sem circulação de carros, ótimos restaurantes - com inclusão, agora, de peixes nos cardápios - visuais interessantíssimos, povo ainda mais acolhedor. Hoje, fui ver o pôr do sol nas muralhas da cidade, um cenário lindíssimo que, embora distantes das minhas imagens do Marrocos, não posso deixar de registrar como uma das mais emocionantes surpresas da viagem. Por isso, ali fiquei, primeiro olhando, depois tirando fotos e mais fotos, depois só olhando de novo. Não eram exatamente fotos típicas do Marrocos, mas sem dúvida foi muito bom e gostoso estar ali.
As compras constituem um capitulo à parte no Marrocos. Nisso, países árabes se parecem todos. São tantas horas e habilidades necessárias para a negociação e a barganha que eu desisto antes de entrar. O conceito de preço fixo, com uma etiquetinha pendurada, simplesmente não existe. Então, pra começar a conversa, você tem que ter, no mínimo, uma noção rudimentar de quanto vale o produto. Às vezes, você consegue isso por meio de conversas com outros viajantes, moradores locais ou em leituras. Mesmo assim, trata-se de produtos nos quais você não sabe a diferença entre um muito bom e um mal feito. Então, prá começar a conversa, você tem que pensar simplesmente se gosta ou não daquilo e quanto está disposto a pagar, no máximo. Se comprar, esqueça o preço:você só se sentirá enganado se comprar algo que não queria.
Em Essaouira, ao menos, há algumas lojas no centro com os preços afixados nos produtos, e não há barganha, o que já é um avanço considerável para quem está acostumado ao padrão ‘shopping center’. Infelizmente, não dá para carregar tudo que eu gostaria. Em Fes, me apaixonei pelas lindas mesas de mosaico de cerâmica, que vi sendo fabricadas, uma a uma, peça por peça, os pedacinhos de cerâmicas cortados a mão. Mas cada mesa custava uma fortuna e, naturalmente, não acreditei o suficiente no vendedor que prometia entregar a mesa na minha casa, sem que eu precisasse me preocupar com frete, alfândega ou qualquer outro aborrecimento burocrático.
Essaouira mereceria mais do que os dois dias em que fiquei. Além do surpreendente por do sol, a cidade tem muito charme, sem hordas de turistas, tranqüila, gostosa, boa comida, boa música, e o mar, sempre o mar. Ficaria aqui, facilmente, uns 3 ou 4 dias, relaxando, comendo bem, ouvindo boa musica africana, andando pelas ruas e sentando nos cafés na praça para tomar chá de menta. Mas a vida continua e há mais o que conhecer.
Finalmente, Marrakesh, a ultima parada da viagem. Por tudo que se lê, vê e ouve falar, é inevitável chegar a Marrakesh com altas expectativas, o que é sempre uma chance de desapontamento. Ao contrário de Casablanca, que cumpriu todas minhas expectativas – eu não tinha nenhuma - Marrakesh pode ser o contrário. Mas com o espírito aberto como estou, Marrakesh é tão síntese de tudo que o Marrocos pode oferecer que não creio que eu saia daqui desapontado, agora, já em direção ao Brasil, para retomar a minha vida normal, não exatamente civilizada.
Fotos em http://janelaseportas.shutterfly.com/action/pictures?a=67b0de21b3400509e451
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