16 de março de 2018

10 Coisinhas sobre o Vietnam

Não tenho a pretensão de, em apenas 20 dias de viagem a um país, afirmar qualquer coisa sobre o país, seu povo, seus hábitos, sua cultura. É muito pouco tempo para tanta coisa a aprender, sentir, descobrir. Então, trago apenas fragmentos do pouquinho que percebi, vi, senti nesses dias, numa viagem há muito sonhada e esperada. Mas como em todas as viagens, cada um é cada um... esse é um pouquinho do "meu" Vietnam...

Gente, muita gente...
1) Os vietnamitas. Como é comum nos países da Ásia, o Vietnam tem muita gente. A densidade populacional do país é 10 vezes maior do que no Brasil. É muita gente, muita gente mesmo. E embora haja grandes variações de perfil nos vietnamitas de norte a sul, incluindo as minorias étnicas, o povo de maneira geral é encantador. São gentis, educados, atenciosos e carregam sempre um sorriso que parece absolutamente genuíno. Em alguns locais mais simples, hotéis ou restaurantes, o serviço deixa a desejar, por mera falta de treinamento, mas são todos tão agradáveis que é impossível se aborrecer. Lingua, costumes, hábitos, preferências, tudo é muito diferente, mas nada chega a ser obstáculo. Nas regiões de minorias étnicas que tive oportunidade de conhecer, as diferenças são maiores mas a gentileza não é menor. Ali, percebe-se, ainda que sem entender muito, um conjunto de práticas, costumes, relações familiares e sociais bastante próprias. Em alguns desses lugares, menos frequentados por turistas, ocidentais ainda são curiosidade. Especialmente para as lindas e encantadoras crianças vietnamitas. Não foi por acaso que Angelina Jolie visitou o país e decidiu adotar uma criança. São cativantes, risonhas, desarmadas e absolutamente não contaminadas por essa perversa faceta do turismo de massa nos países pobres que transforma cada criança em pedinte profissional. Delícia interagir com elas. 

Sempre crianças...














Pedir o que?
2) A língua. Como fácil imaginar, o vietnamita e o grego são muito semelhantes em seu alfabeto ilegível, suas palavras incompreensíveis e sua pronúncia irrepetível. Desisti de tentar ir além do trivial. O inglês, por sua vez, é pouco falado na maior parte dos lugares, exceto em alguns hotéis, lojas e restaurantes um pouquinho acima da média. A comunicação não é sempre fácil. Me aborreci um pouquinho com isso apenas até o momento em que me dei conta de que é mais fácil um turista se comunicar em inglês no Vietnam do que no Brasil.  Continuamos sendo o país do futuro no turismo. As dificuldades no Vietnam eram facilmente vencidas com um misto de boa vontade, gestos, sorrisos, cardápios traduzidos em inglês, alguns com fotos dos pratos, e o apoio inestimável da tecnologia que possibilita a qualquer celular se transformar num tradutor instantâneo ou buscar fotos e imagens do que se quer comunicar. A maior - e mais divertida - dificuldade foi num restaurante em que o cardápio não existia em inglês, não havia fotos e os atendentes falavam inglês pra lá de precário. Mas não deu pra passar fome. 


3) O trânsito. O trânsito no Vietnam é um capítulo à parte da viagem. A impressão que se tem é que simplesmente não existem regras. 80% do trânsito é de motociclistas, para os quais não existem sinais de trânsito, mão ou contra-mão, idade (qualquer adolescente tem uma moto) e para os quais as calçadas são extensão das ruas. Uma moto carrega frequentemente uma família de quatro pessoas, dois adultos e duas crianças. Também carregam cargas, nos volumes e pesos mais inimagináveis que se poderia conceber para uma moto. Ao contrário do que se vê em outros países da Ásia, não há os famigerados tuk-tuks, mas motos e bicicletas (daquelas com um assento na frente) fazem também o papel de “táxis”. Atravessar uma rua é sempre um momento de stress, porque há que se olhar para as calçadas e para os dois lados, mesmo em vias de mão única. Sinais de trânsito são raros e valem para apenas um lado nas ruas de mão dupla. Mas nem adianta muito, porque as motos não param nos sinais de qualquer maneira. Depois de algum tempo, você começa a perceber que  existem “regras não escritas” que, de alguma forma, funcionam, a ver pela pequena quantidade de acidentes comparada com o que eu esperaria desse caos. E no fim você até começa a aprender algumas dessas regras não escritas como estratégia de sobrevivência para atravessar as ruas. 





Saúde pública? o que é isso?
4) Comida. Embora bastante diferente da brasileira, a comida não chega a assustar (exceto por um pratinho de grilos fritos que me ofereceram num ponto da viagem ;-). Muito arroz, macarrão, sopas, legumes e verduras. As frituras predominam. Ao contrário de países como Índia e Tailândia, o “picante” chili vietnamita é bem aceitável pro gosto brasileiro. Duas coisas que adoro, gengibre e capim limão, estão presentes em muitos dos pratos do Vietnam. Há também muitas frutas, conhecidas e exóticas. Mas o que chama mesmo atenção nesse capítulo é a comida de rua. Nas ruas, calçadas, mercados, todos os tipos de comida são possíveis de serem apreciadas, cheiradas, experimentadas. Elas podem parecer cheirosas ou convidativas de acordo com o olhar, fome, gula ou padrão de higiene do freguês. Houve momentos em que fiquei seriamente tentado a experimentar alguma dessas iguarias mas minha mãezinha, lá de cima, me beliscava e acabei resistindo, algumas vezes com água na boca. Vendo o que acontece na rua, o melhor é não pensar no que acontece dentro das cozinhas fora do alcance da vista. As calçadas, quando não ocupadas por motocicletas estacionadas ou em trânsito, servem como extensão de algumas biroscas bem estabelecidas, seja para funcionar como cozinha, para lavar as louças ou, principalmente, para os fregueses se sentarem em banquinhos e mesas de tamanho infantil. No Vietnam, calçadas são lugares raramente ocupados por pedestres.

A melhor parte do grilo frito é o molho ;-)





5) Bebidas. Para quem não sabe, o Vietnam é o 2o maior produtor mundial de café. Isso significa que o café é tomado abundantemente, de diversas formas, em qualquer lugar, na calçada, na rua, em charmosos cafés, em grandes cadeias locais, ou até mesmo no famigerado Starbucks. O chamado “café vietnamita” é preparado na mesa, com um dispositivo de alumínio que faz o papel de filtro colocado sobre um copo com leite condensado no fundo. Frequentemente é tomado gelado o que, na maior parte das vezes, significa apenas despejar umas pedras de gelo no café depois de pronto. Um tipo especial de café, considerado um dos mais raros e caros do mundo é produzido fazendo os grãos de café passarem pelo sistema digestivo de um animal parecido com a nossa doninha (weasel), saindo no fim do processo como se bosta fosse, e com um sabor dito “especial”. Nesse processo, há denúncias de muitos maus tratos a esses animais. Como café não é minha praia, eu recorria sempre aos bons chás verdes ou de gengibre. No mundo do álcool, as cervejas locais imperam, geralmente com denominação da cidade ou região onde são produzidas. Os vinhos importados são de alto custo e pouco benefício. Por curiosidade antropológica, experimentei o vinho local, que se mostrou previsivelmente muito ruim.




6) Massagens. As massagens asiáticas e orientais são uma tradição cultural na qual o Vietnam não fica atrás. Embora essas massagens sejam vistas com certa desconfiança no Brasil, especialmente devido à fama das massagens com “final feliz” em alguns estabelecimentos da Tailândia (a famosa “massagem tailandesa”), tive ótimas experiências com massagens no Vietnam. Movido pelo meu gosto pela massagem e pelos apelos da minha coluna bichada, tive uma massagem em quase todas cidades que visitei, em algumas mais de uma vez. Procurei sempre me informar sobre a qualidade dos locais em que ia e a única oferta de “final feliz” - não aceita - que recebi foi no spa do próprio hotel em que estava, depois de encontrar fechado o local recomendado que eu procurava. Recebi massagens altamente profissionais e eficientes, em ambientes limpos, agradáveis, precedidas e sucedidas por um delicioso chá, pela bagatela média de U$ 20, algumas bem menos do que isso. Me senti inseguro com algumas manobras que me viravam do avesso ou quando sentia aqueles delicados pezinhos caminhando sobre as minhas costas, mas felizmente sem consequências que não a absoluta sensação de leveza depois das massagens. Os “spas” (ou o que eles assim chamam) abundam em todas as cidades, a cada esquina, com preços ainda mais baratos (U$ 10 era comum) mas evitei entrar em frias. Mas com uma massagem a U$ 10, não surpreende mesmo que, tanto para alguns ocidentais que recebem quanto para algumas vietnamitas que fazem a massagem, seja tentadora a opção de “serviços extras”. Para eles, esse dinheiro adicional vale muito pouco. Para elas, é muito mais do que a pequena margem do preço da massagem que lhes é oferecida pelo spa. 

7) Dinheiro e custos. É fácil se sentir um milionário no Vietnam. Pra começar não existem moedas, a nota mais baixa é de 1000 dongs (cerca de R$ 0,15) e a mais alta de 500.000 dongs (cerca de R$ 70,00). Bastava assim sacar algum dinheiro no caixa para eu estar milionário. No começo foi difícil me acostumar a esses números tão altos. Depois, fui pegando as manhas, tendo noção de preços e de valores das coisas. De maneira geral, tudo é muito barato no Vietnam. As vezes ridiculamente barato, tanto para serviços quanto para produtos, e você se pergunta como isso é possível. Uma boa refeição por R$ 20 era comum. Hotéis adequados - 3 estrelas - por R$ 100-150, alguns deles charmosos e excelentes em serviços e infraestrutura. Esses preços subiam em lugares mais turísticos ou nas duas cidades grandes, Ho Chi Minh (Saigon) e Hanoi, mas quando eu me via reclamando que o preço de uma latinha de cerveja que comprei por 20.000 dongs estava por 40.000, me dava conta de que ao invés de 3 reais, estavam me cobrando 6 reais, e isso num lugar considerado caro. Ou quando reclamei da massagem por U$ 25 num lugar mais chique até me dar conta de que estava pagando R$ 80 por uma excelente massagem num local top. Enfim, muito barato viajar no Vietnam. Paga facilmente o custo da passagem. 

Nike, North Face, Mizuno... todas as "boas marcas!
8) Compras. A ideia de propriedade de marca ou de direito autoral não chegou ainda ao Vietnam (como seria de se esperar em um país que faz fronteira com a China e que esteve por muitos anos sob domínio chinês). Em qualquer loja você pode comprar roupas, relógios, óculos e eletrônicos de marcas famosas por um décimo do preço que pagaria no Brasil. Em alguns casos, as imitações são assustadoramente semelhantes e de qualidade bem superior ao que você esperaria encontrar num produto desse. Algumas lojas chegam à ironia de chamar de “original” uma cópia feita com qualidade e de “similar” a cópia mal feita (a “genérica”, na nossa linguagem). O artesanato, nas ruas e mercados, como se tornou comum no mundo inteiro, parece sempre o mesmo. Aqui, não tem milagre: você leva o que paga em termos de qualidade, durabilidade e origem. Mas procurando e se informando bem, descobrem-se marcas locais vietnamitas que oferecem produtos, roupas e artesanato, de boa qualidade, geralmente associadas a organizações que promovem princípios de “comércio justo”, onde boa parte dos lucros vai para as comunidades ou para os próprios artesãos. Isso acontece particularmente com as minorias étnicas, que são muitas no Vietnam, ou com cooperativas de pessoas com algum tipo de deficiência (também muitas no Vietnam). Os preços são um pouquinho maiores do que você  encontra na rua ou nos mercados, mas vale a sensação de comprar uma peça diferenciada, com mais qualidade e cuja receita vai ser melhor dirigida do que se fosse para grandes falsificadores ou produtores de artesanato de massa. 

9) A guerra. Para a minha geração, e para as anteriores também, é difícil dissociar a imagem do Vietnam da imagem de guerra. Lembro de minha mãe me dizendo “meu filho, que ideia essa sua de querer viajar pra um lugar que só tem guerra”. A associação é natural. Não apenas porque foi, de fato, mais uma guerra sórdida e sem sentido, como também porque os filmes de Hollywood fizeram questão de até hoje nos mostrar e lembrar. Lembro-me, entre outros, de filmes das décadas de 70, 80, como Apocalypse Now, Platoon, Good Morning Vietnam. Usando um clichê, o Vietnam saiu da guerra, mas a guerra não saiu ainda do Vietnam. Não apenas as memórias estão bem vivas, e há museus e locais para lembrar disso, como os efeitos da guerra sobre o país, mesmo saindo dela vencedor, são visíveis de diversas formas. As crianças brincam nas ruas com réplicas de tanques de guerra americanos. Alem dos feridos de guerra e dos atingidos até hoje por explosões de minas terrestres, os efeitos da criminosa guerra química promovida pelos americanos são visíveis na enorme quantidade de pessoas com algum tipo de deficiência física. Apesar de alguma ajuda internacional e de organizações não-governamentais, o país está pouco preparado para lidar com essa grande massa de cidadãos. O meio ambiente também pagou sua taxa à guerra. Bombas e agentes químicos - napalm e agente laranja, em especial - não apenas mataram e feriram gente, mas também destruíram florestas e habitats, e extinguiram ou puseram à beira da extinção espécies de plantas ou animais, danos irreversíveis ou muito grandes para reverter em curto prazo. Como tudo na vida, a história tem varias verdades. No caso de uma guerra, prevalece a verdade dos vencedores. Há muito que se fazer para entender ou compreender uma guerra como essa, e foi muito interessante conviver e conversar, no mesmo grupo, com dois americanos em torno dos seus 70 anos. Um, veterano de guerra, esteve na guerra do Vietnam com 20 e poucos anos. Parecia triste e incomodado com tudo que via e ouvia e dele ouvi frases como “naquela época nós de fato acreditávamos que era a coisa certa a fazer” ou “o pior é que estávamos no Vietnam a pedido deles e somos agora referidos como ‘o inimigo’ “.  Ao mesmo tempo, o outro americano contava como, com seus mesmos 20 e poucos anos, durante a guerra participava, como jovens em todo o mundo, de manifestações nos EUA contra a guerra, com slogans e frases de efeito contra os americanos e a favor do Vietnam. Seja qual for a “verdade”, difícil enxergar algum sentido na ideia de guerra. Entrar em contato com essa parte da história do Vietnam foi uma parte necessária mas muito dolorosa e sofrida da minha viagem. 


10) TET, o Ano Novo Lunar. O início da viagem ao Vietnam coincidiu com o TET, a celebração do Ano Novo Lunar, a data mais importante do calendário do Vietnam. No Brasil, seria como celebrar ao mesmo tempo o Natal, o Ano Novo e todos os aniversários da familia, uma vez que é no TET que as pessoas ficam um ano mais velhas, e não no dia em que nasceram. Todas as famílias se reúnem na esperança de renovação e de bons tempos no ano que se inicia. É um momento de virar a página: pagar as dívidas, limpar e decorar a casa, usar uma roupa nova, cortar o cabelo. As crianças recebem um envelope vermelho com um “dinheiro da sorte”. O primeiro hotel em que me hospedei me deu um envelope desse. São três dias de feriados oficiais, mas os ritos e as celebrações acontecem vários dias antes e depois da data do Ano Novo. É um longo período essencialmente de festa para os vietnamitas, o que cria alguns probleminhas para o turista. Como todo mundo viaja para ver as famílias, transportes locais são difíceis. Muitas lojas fecham. Hotéis e restaurantes trabalham com staff reduzido e, mesmo assim, pagando salários bem mais altos para os poucos que ficaram. Por isso, quase todos hotéis e restaurantes cobram adicionais de até 20% a mais em suas contas. A parte divertida disso aconteceu num restaurante em que a garçonete, visivelmente nova e inexperiente no serviço, recomendou timidamente que eu comprasse água no mercadinho do outro lado da rua, porque seria muito mais barata do que o extorsivo preço cobrado pelo restaurante naquele dia. Apesar de tudo, foi ótimo estar no Vietnam nesse período. As grandes cidades são decoradas com ruas inteiras tomadas por flores e as crianças divertem-se sem preocupação, o que foi possível apreciar em Saigon já no primeiro dia de viagem.

























23 de janeiro de 2015

Detalhes tão pequenos da Chapada...

Parque Nacional Chapada dos Veadeiros
Na primeira vez em que fui à Chapada dos Veadeiros, voltei com uma casa alugada em São Jorge. Era o ano de 1997, eu recém-separado, e os recém-amigos Renata e João me convidaram. João já era frequentador e organizou a viagem para um grupo de amigos. Era o feriado de 7 de setembro, todas as pousadas cheias, e sobrou-nos a alternativa de nos hospedarmos num hotelzinho quase de caminhoneiro em Colinas, uma cidadezinha sem graça a 30 km de terra de São Jorge. No caminho para Colinas, uma parada no Vale da Lua, cartão postal mais famoso da região, e em seguida uma parada para um suco em São Jorge. Foi o suficiente para eu "sentir o clima". 

João queria ver uma casa que estava anunciada para alugar e fui vê-la com ele, apenas para passear. João olhou a casa, conversou com o proprietário, perguntou o preço e ficou de pensar. Voltamos para encontrar o grupo e, no caminho, ele comentou que estava interessado mas achou um pouco caro. Custava R$ 150,00, pouco mais que um salário-mínimo. Eu disse a ele, do nada, sem pensar no que falava , que topava dividir o aluguel com ele. João, que mal me conhecia, me perguntou se eu era maluco de alugar uma casa num lugar que eu havia acabado de conhecer, em sociedade com um sujeito que eu igualmente havia acabado de conhecer. Respondi a ele que não era nada difícil pra quem havia acabado de se separar. Na pior das hipóteses, não daria certo. Uma separação é bem pior...

Demos meia volta para fechar o negócio. Perguntei ao proprietário, Antenário, como faríamos o contrato e ele respondeu "moço, eu tinha um contrato com o inquilino antigo... Mas com vocês, tô olhando nos olhos e vejo que não precisa de contrato não... Só se vocês quiserem". Se eu tinha dúvidas sobre o negócio, elas terminaram ali.

A casinha e o Valentino
As próximas semanas foram de montar a casa. Eu e João parecíamos um casal montando a primeira casa, de loja em loja buscando cama, lençóis, colchonetes para os hóspedes, louças e talheres, fogão, geladeira, prateleiras, tudo do mais simples e mais barato. E aos poucos íamos ocupando a casa. João era DJ, sempre trabalhava nos fins de semana, de forma que a casa era toda minha quando eu queria ir. 

Aos poucos fui conhecendo a vila, as pessoas, os nativos e os forasteiros, os personagens. Sim, São Jorge não tinha habitantes, tinha personagens. Antenário, sua esposa Zeza, Téia, dona Rosa, Waltinho, seu Wilson, seu Claro e tantos outros nativos, cada um com a riqueza de suas estórias e vidas. Havia muitos outros, anônimos, que compunham esse quadro de estórias e vidas com quem eu aprendia um pouco a cada dia. Seu Wilson, por exemplo, como tantos outros nativos, havia sido garimpeiro e agora era guia. Os passeios com ele eram verdadeiras aulas da região, da história, da vida. Muitos anos depois, em um desses passeios em que ele me guiava com meu irmão Ronald à deslumbrante Janela do Abismo, havíamos vencido uma passagem particularmente difícil quando seu Wilson voltou e começou a arrumar a passagem com pedras. Perguntamos a ele se voltaríamos pela mesma trilha e ele respondeu candidamente, como se não houvesse outra resposta: "não... é para os que virão depois de nós".

A Janela do Abismo
Ao mesmo tempo em que conhecia e aprendia com os personagens de São Jorge, eu ia descobrindo as cachoeiras e as paisagens da região. Cada uma mais linda do que a outra, todo dia uma nova descoberta, um cenário de belezas pouco tocadas e exploradas, algumas em estado bruto. Além disso, sempre as ricas conversas com os donos das propriedades. Como o simpático senhorzinho dono da minha favorita Morada do Sol, que explicava por que recusava as muitas ofertas para vender sua propriedade por muito dinheiro: "eu sempre morei aqui, este é meu lugar, o que vou fazer com essa dinheirama?". Parece elementar né?

Algumas pessoas falavam muito do São Jorge de antigamente, bem antes de eu chegar. Para mim, porém, o São Jorge de 1997 ainda era suficientemente isolado, puro, intocado. Eu me sentia adaptado e incluído, mas eu sabia que eu não pertencia ao lugar... Ainda que eu quisesse. Lembro-me do dia em que eu não quis assinar um abaixo-assinado a favor do asfaltamento da estrada até a vila. Para mim, era apenas o desejo de "poupar" são Jorge do turismo de massa. Mas fui confrontado por um local que apontou o óbvio egoísmo dessa postura. São Jorge não tinha - até hoje não tem - escolas, hospitais, bancos e outros serviços básicos, e por isso era assustadora a quantidade de acidentes nos 30 km da perigosa estrada de terra até Alto Paraíso. Minha ótica supostamente bem intencionada era furada. Ouvi então relatos de que, há muitos anos, outros forasteiros como eu também resistiram à chegada da luz elétrica à vila, em defesa dos charmosos e românticos lampiões na rua. A luz veio, como queriam os nativos, e possibilitou-lhes ter acesso às novelas, aos eletro-eletrônicos e às lâmpadas que lhes permitiam ler, estudar ou costurar à noite. É preciso sempre nos desprendermos de nós mesmos antes de opinar sobre o que é bom para alguém.

Minha casa era no epicentro da vila, em frente ao popular bar do Pelé, ao lado da pracinha, o que, naquele tempo, não era grave, a não ser nos grandes feriados. Mesmo assim, o máximo de desconforto que eu enfrentava, além da cachoeira cheia, era aguentar os malucos-beleza cantando e tocando Raul Seixas a noite toda. Passei a evitar os feriados e ir a São Jorge com frequência cada vez maior. Sozinho, com a namorada, com as filhas da namorada, com amigos. Monica e suas filhas, Priscila e Vanessa, fizeram parte e embelezaram esse período de deslumbramento com a simplicidade e a beleza da Chapada.  Vanessa batizou de Valentino o carro que comprei à época e que simbolizava essa possibilidade de navegar mares por mim ainda não navegados. (A despedida de Valentino).

Foi um período que me marcou muito, que mudou minha forma de ver e sentir a natureza e transformou para sempre a minha forma de viajar e conhecer o mundo. Mas como todos os ciclos da vida, esse se transformou. Fui fazer o mestrado, entreguei a casa, vendi o carro... Mas não me desfiz da Chapada. Ela continua fazendo parte da minha vida, embora com frequência muito menor do que eu gostaria, precise ou mereça. 

Eu mudei, são Jorge mudou, mas, 18 anos depois, a vila ainda tem muito do que me encantou. O asfalto chegou e, com ele, os ônibus de turistas. Minha casa virou restaurante "serve serve". Os campings  proliferaram. Os problemas estruturais - água, luz, lixo, telefonia, segurança - se agravaram. O conceito de "capacidade de carga", que antes era desnecessário, é hoje ignorado quando mais se precisa dele. Não há limites, não há regras, não há padrões. Quem chegar é bem-vindo. Nos grandes feriados, as cachoeiras estão ainda mais cheias, as ruas sujas e barulhentas, há desproporção total entre o que as hordas demandam e o que a Vila oferece. 

Almécegas
Resisto à tentação de ficar dizendo que "naquele tempo é que era bom". É diferente, mas ainda é bom. Dezoito anos depois, estou hospedado na mesma Trilha Violeta, pousada onde tomava meu café da manhã quando tinha a minha casinha. É período de férias, mas não de feriadão. Vila calma, silenciosa, aconchegante. Visitei as velhas e conhecidas cachoeiras. Continuam encantadoras. Eu e a Vila de São Jorge não somos mais os mesmos, mas a relação de encantamento permanece. Pelo menos de mim para ela...

24 de novembro de 2010

(des) elegância em Helsinque

Até um certo ponto, o frio te deixa elegante. As roupas, o sobretudo, o cachecol, as luvas... puro charme! Mas chega um ponto em que a primeira coisa que vc perde com o frio é a elegância... já não precisa combinar, já não precisa ser bonito... o importante é apenas não passar frio... e pra isso, joga-se o que der por cima!

23 de novembro de 2010

Três Momentos em Helsinque

Momento 1
Primeira vez em Helsinque. Avião pousando às 16 horas de um dia de começo de inverno. Ainda é cedo, mas já começa a escurecer. Ainda é começo de inverno, mas a primeira neve já caiu. O avião pousa suavemente sobre a pista coberta de neve e a primeira impressão da cidade é de leveza, brancura, paz... deliciosa recepção na minha chegada!



Cemitério de Helsinki
Momento 2
Helsinque, 18 horas de sábado. É cedo, mas a noite já está bem escura. Só não mais escura porque a neve branca atenua a escuridão. As lojas já estão fechadas. Circulam poucas pessoas pela rua, todas escondidas por trás de suas roupas, muitas roupas. A cidade não é amistosa. Parece pesada, densa, escura, armada... Parece fazer sentido a chamada "depressão de inverno" (winter blues), que acomete cada vez mais pessoas, nesse período, nos países conhecidos por seus rigorosos invernos. Viver pra que?


Momento 3
Helsinque, 3a feira, 18 horas. Ao fim de um dia extenuante de trabalho, a informação de que sobrara um convite para o jogo de hockey sobre gelo. Cansado, mas a oportunidade de uma experiência tipicamente finlandesa é irresistivelmente atraente. O trajeto de carro sobre a neve, a caminhada do carro até o estádio caminhando sobre a neve, o estádio coberto e aquecido, o esporte com regras incompreensíveis, a pancadaria comendo solta como se nada estivesse acontecendo, a delicadeza de brutamontes que se equilibram no gelo e conduzem um pequeno disco com habilidade ao mesmo tempo em que enchem de porrada os adversários... tudo é novo, tudo é desconhecido, tudo é encantamento...

"Sei ter o pasmo essencial
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do Mundo..." Fernando Pessoa, O Guardador de Rebanhos

6 de setembro de 2010

Um momento de prazer em Oslo, Noruega - Setembro de 2010


Não é onde eu queria estar agora. É uma viagem de puro trabalho e pouco prazer. Mas no meio de agenda de milhões de compromissos, consegui encaixar visita à pré-estréia da exposição de artista brasileiro aqui em Oslo. Seu nome é Ernesto Neto, famoso em vários países, e seu trabalho é intrigante, repleto de estímulos sensoriais de todas as formas: você pode tocar, cheirar, sentir. A exposição dele está hoje na maior galeria de arte contemporânea da Noruega. Pena ter que vir à Noruega para conhecer o trabalho de um artista brasileiro que é conhecido mais fora do que dentro do Brasil. Na foto, eu me delicio com uma de suas obras interativas. Para quem quiser saber mais sobre ele, veja o que diz a Wikipedia: Ernesto Neto

4 de julho de 2010

O Perigo de Uma História Única

Uma amiga querida, Dora, me enviou hoje o link para um vídeo da escritora nigeriana Chimamanda Adichi (da qual eu nunca tinha ouvido falar até hoje), em que ela fala sobre o "o perigo de uma história única". São na verdade dois vídeos, de cerca de 10 min cada, e que trazem uma belíssima reflexão sobre como os estereótipos e as imagens que temos das pessoas, dos lugares, das culturas vão se formando. Senti-me feliz pelo comentário de Dora de que o que a escritora fala tem a haver com meu blog, e por isso achei interessante partilhar aqui. A relação que Dora viu foi, provavelmente, a minha constante tentativa - nem sempre bem sucedida - de ver todas as histórias que existem por trás do mundo, das pessoas, dos lugares. Os dois vídeos estão aqui:

Chimamanda Adichi - O Perigo de Uma História Única - Primeira Parte

Chimamanda Adichi - O Perigo de Uma História Única - Segunda Parte

Ao ver os dois vídeos, lembrei-me de uma viagem que fiz ao Equador em 2002. Em um passeio à cidadezinha de Otavalo, onde se localiza um dos mais tradicionais mercados indígenas do Equador (foto à direita), conheci no trajeto um americano de uns 40-50 anos que viajava com sua filha de uns 15 anos. Começamos a conversar sobre viagens e, ao falar que era brasileiro, ele imediatamente começou a discorrer sobre futebol, Pelé, carnaval e meninos de rua ("uma história única"). Contive o meu desconforto até o momento em que, ao falar dos países por onde já viajáramos, ele elogiou o Equador, como um país exótico, e me perguntou qual o lugar mais exótico que eu já havia visitado. Respondi quase imediatamente, não foi pensado, não foi sacanagem, e disse a ele "os Estados Unidos". Ele me olhou com ar pasmo e eu expliquei a ele que o conceito de exótico, no sentido de "esquisito, excêntrico, extravagante" se aplicava, no caso de um brasileiro, mais aos Estados Unidos do que ao Equador e que, portanto, a pergunta era inadequada. Ele pareceu entender e se desculpou pela pergunta. Ficou evidente ali o "perigo de uma história única".
PS. A tempo: não estou aqui reproduzindo a 'história única' de que todos os americanos são tão alienados quanto o meu interlocutor! Conheço vários americanos decentes que sabem enxergar outras histórias além da que lhes ensinaram na televisão e na escola.

31 de janeiro de 2010

"All Inclusive" na Bahia

Por uma opção da família, passei, junto com pais, irmãos e sobrinhos, nove dias em um desses hotéis all inclusive, na Bahia, para celebrar os 80 anos de meu pai e os 55 anos de casados dos velhos. Fazia muito tempo que a família toda não se reunia para algo do tipo e o saldo final foi extremamente generoso para todos: uma dose enorme de carinho, de afeto, de risadas e de trocas.


Para quem não sabe, um hotel all inclusive é aquele que inclui, em seus preços, todas as refeições e bebidas, inclusive alcoólicas, durante 24 horas, oferecendo ainda uma ampla variedade de atividades, esportes e diversões, também incluídas no preço. A primeira vez que ouvi falar nesse tipo de acomodação foi nos resorts do Caribe, mas a moda parece que pegou forte nos grandes hotéis do Nordeste do Brasil. E era uma dessas coisas que eu dizia que “nunca experimentei e nunca gostei”.

Por uma opção pessoal, fui o único da família que optou pela acomodação não inclusive, o que implicou eu pagar pelas despesas de alimentação e bebidas durante minha estadia. No entanto, meus bons propósitos não resistiram à lógica de um hotel all inclusive, porque a única forma de eu escapar dos grandes buffets de comida servidos durante as refeições era pedir à la carte no quarto, longe do resto da turma, o que não fazia muito sentido. Assim, me sobrava a opção de pagar o elevado preço do buffet para comer apenas alguma coisinha mais leve, como era a minha vontade, ou cair na tentação de experimentar um pouquinho da grande variedade de comidas e bebidas apresentadas, sem falar na variada mesa de doces, meu ponto fraco. Ou seja, todo o conceito de all inclusive é formulado para você comer, comer muito. O tempo todo… a toda hora…

Esses hotéis são normalmente construídos distantes dos grandes centros, geralmente em praias remotas. Mas isso não faz muita diferença, pois a maior parte das pessoas não sai de dentro do hotel, nem mesmo para ir à praia (seja por que na praia as comidas e bebidas não estão incluídas ou, se incluídas, demoram mais pra chegar). Mas para que ir a algum lugar? Afinal, comer e beber por 24 horas seguidas te tira o peso de ter que fazer planos para algum outro tipo de atividade. Deve ser por isso que os resorts recomendam que você descanse bem antes da viagem. Eu acreditava que era para aproveitar tudo o que o resort tem a oferecer, mas na verdade é para que o tempo de comer e de encher a cara não seja desnecessariamente reduzido pela necessidade de sono.

Os hóspedes são ‘marcados’ com uma pulseirinha colorida não-removível, que o qualifica a pedir de tudo a qualquer hora. Não é difícil perceber um certo orgulho nos seres que a exibem, como que dotados de um poder maior que os dos pobres mortais que têm que pagar pelo que comem e bebem, como eu, igualmente marcado por uma pulseirinha de outra cor que denota a minha inferioridade. Essa pulseirinha poderosa habilita os seres que a vestem a comer e beber bastante entre as refeições e, depois, nas refeições, comer e beber ainda mais. Não é muito provável que estejam fazendo isso por fome ou por necessidade e confesso não conseguir enxergar muito o sentido de toda essa comilança.

Imagino que, ao contrário de acomodações mais tradicionais, um resort all inclusive não ajuda muito a economia local, a não ser os donos do próprio hotel. Afinal, além de todos os estímulos para ficar dentro do hotel, não há muitos estímulos para sair dele. Esses hotéis estão normalmente muito distantes de tudo e de todos, fazendo com que sair do hotel para conhecer alguma outra coisa seja uma empreitada tão onerosa ou complexa que a opção é mesmo continuar comendo e bebendo em local conhecido, sem precisar pagar adicionalmente por serviços que já foram pagos e incluídos na sua hospedagem, nem se deslocar para nenhum outro lugar mais distante do que a piscina do hotel. Era exatamente isso que acontecia no nosso hotel, onde a maior parte dos hóspedes sequer se dirigia à praia em frente (50 metros), concentrando-se na área ao redor da piscina do hotel.

Ao longo dessa semana, consegui fugir do presídio, digo, do resort, por pelo menos três vezes, para conhecer um pouco da cidade e de outras praias, bem como para experimentar um pouco da gastronomia local (sim, porque se a comida do resort não pode ser descrita como ruim, certamente preza mais a quantidade do que a qualidade, numa terra onde as opções gastronômicas são absolutamente maravilhosas). Nem sempre tive sucesso em convencer companheiros de fuga; afinal a fuga implica despesas que a mera permanência no presídio já elimina.

Resumindo, foi bom porque o objetivo era esse: juntarmos a família toda para uma celebração. Muito provavelmente, a convivência intensa não teria acontecido num cenário onde as opções de passeios e de refeições fossem suficientemente amplas para cada um fazer, comer e beber o que gosta na hora que gosta. Pode até ser que alguma situação bastante particular, seja pelas circunstâncias, seja pelo local, me leve novamente a um hotel all inclusive. Mas definitivamente essa não é a minha praia. Além do que, é forçoso reconhecer que, exceto por algumas pequenas variações, um hotel igualzinho a esse, localizado a 30 km de Brasília, não faria muita diferença. Ok, aqui tem o clima, tem a fantástica vista do mar da varanda onde agora escrevo, mas a considerar o que fiz por aqui, vir ou não vir à Bahia não teria feito muita diferença.

19 de dezembro de 2009

Fim de Festa


Já não restam muitos convidados para a festa. Os mais interessantes já foram embora. Do lado de fora, os não convidados e os que foram convidados e não conseguiram entrar também já foram embora. Sobraram poucos: os que não podem ir por consideração aos donos da casa, os chatos, os bêbados e os alegres. Chatos, bêbados e alegres adoram qualquer festa, encontram-se, conversam entre si, sequer percebem o que não funcionou ou o que aconteceu na festa, e não desconfiam que esteja na hora de ir embora e que os donos da casa já querem dormir. Mas a festa não deu certo, o som falhou, a música ao vivo desafinou, as luzes queimaram, a comida tava ruim, alguns convidados não puderam entrar, os convidados mais esperados vieram mas se comportaram mal e o gran finale tão esperado não aconteceu. Depois de preparada por dois anos, a festa sequer teve o programado registro fotográfico dos convidados ao seu final. Os espertos saíram antes da hora, quando viram a festa afundar, quando viram que não ia rolar. Ficaram os amigos dos donos, os que acreditaram até o fim que a festa podia melhorar, que a foto ia rolar e que, exaustos, tentavam, como um exército de brancaleones, ao mesmo tempo cantar, consertar a iluminação, preparar e servir a comida, comprar mais bebidas no bar da esquina, alegrar e animar os convidados restantes, como se com isso conseguissem minimizar o mal comportamento dos convidados principais que estragaram a festa.

Copenhagen, Dinamarca, 20 de dezembro de 2009, 2h00 da manhã, 15ª Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas sobre Mudança do Clima. Fim de festa. Sobraram frustração, desapontamento e decepção. O mundo inteiro estava de olho no que acontecia aqui. Nunca antes na história da humanidade um tema científico despertou tanta atenção de governantes, de políticos, da mídia internacional e de cidadãos comuns. Nunca antes uma Conferência desse tipo mobilizou tantos participantes, foi assunto de tantas conversas, preocupando igualmente os que dele entendiam e os que não entendiam. Foram mais de 115 Chefes de Estado/Governo, 40000 participantes registrados, governamentais e não-governamentais, 5000 jornalistas. Uma logística sem precedentes. Uma expectativa à altura da quantidade de participantes, da estatura dos líderes mundiais presentes e, principalmente, da importância do tema para o futuro da humanidade. O resultado final, contudo, foi muito pior do que as minhas baixíssimas expectativas poderiam imaginar: uma grande demonstração coletiva de desprezo pelas atuais e futuras gerações da humanidade. Mas o show deve continuar... enquanto houver show... enquanto houver artistas, palhaços e macacos... e enquanto houver platéia.

13 de dezembro de 2009

As Prostitutas de Copenhagen


Na Dinamarca eles têm um sindicato das prostitutas. Não, eu não estou brincando, as prostitutas aqui são sindicalizadas. E a Dinamarca tem também, como em qualquer outro país, políticos que gostam de se auto-promover às custas de grupos como as prostitutas, como forma de fazê-los parecerem melhores para o público.

Foi assim que a prefeita de Copenhagen decidiu aproveitar a Conferência do Clima para aparecer, alertando os quase 40000 visitantes que a cidade recebeu nesse período para não utilizarem as profissionais do sexo. Ela chegou ao ponto de imprimir cartões postais e enviá-los para cerca de 160 hotéis da cidade apelando aos delegados da Conferência “seja sustentável – não compre sexo”. Não entendi exatamente o que faz com que pagar por sexo seja pouco ecológico… talvez sejam as camisinhas usadas no ato ou a quantidade extra de CO2 emitida durante o ato? Essa parte a prefeita não explicou bem…

Naturalmente, essa iniciativa não foi muito bem recebida pela indústria do sexo, de forma que elas decidiram retaliar. E a forma de retaliação não poderia ser mais original. Elas simplesmente anunciaram que todos os delegados da Conferência que apresentassem o cartão da prefeita junto com o crachá da Conferência teriam sexo grátis. Nessa, a prefeita ‘sifu’…

Como a prostituição é legal no país, o protesto do sindicato considerou a iniciativa da prefeita uma forma de preconceito, num país que zela muito pela imagem de “politicamente correto”. Além disso, o protesto toca também numa ferida local que escapou às discussões, que é a noção de que os visitantes estrangeiros é que fazem a alegria dos prostíbulos. Segundo a representante do sindicato da prostitutas, essa noção é errada: “a grande maioria do nosso público é local”.

Não há dados divulgados sobre o sucesso ou não do protesto. E, finalmente, só pra deixar claro, eu não cheguei a usar a promoção ;-)

30 de junho de 2009

Sicília, Itália - Abril de 2009

Numa rara combinação de fatores, uma viagem de trabalho à Sicília italiana me permitiu, antes e depois da reunião, desfrutar um pouco dessa região que freqüenta minha mente desde que me entendo por gente, associada a crimes, máfia, terror, mistério, guerras, comida, vinhos, cenários. A falta de tempo fez com que eu entrasse no avião sem noção sequer de onde dormiria a primeira noite. Algumas páginas do meu guia devoradas durante o vôo me fizeram optar por dormir em Catânia, ponto de chegada do vôo, e dali fazer uma base para explorar a região.


Escolhi pela internet o que parecia ser um simpático Bed&Breakfast, Gianni & Lucia, cujo dono, Gianni, sem pressa e minuciosamente, me apresentou a região e a cidade, me deu mapas, recomendações de passeio, sugestões de restaurantes. Nada como o atendimento prive que um grande hotel não te oferece.

Catânia é considerada uma cidade grande na Sicília (300.000 habitantes) e com poucos atrativos para o viajante, mas acabou se revelando uma interessante cidade, com boas opções culturais, históricas e, também, de gastronomia. Iniciei minha estada num simpático restaurante, Il Borgo de Federico, desses bem típicos, com televisão transmitindo futebol, famílias, jovens casais, crianças, no qual exerci o delicioso prazer de observar gente enquanto experimentava o honesto ‘vinho da casa’ e uma novidade gastronômica, a carne de cavalo, prato típico da cidade, e surpreendentemente suculenta, macia e saborosa. Voltei caminhando para o hotel, não sem antes parar numa das muitas e esteticamente atraentes confeitarias da cidade para experimentar outra especialidade local, o delicioso canolli de ricota, uma espécie de biscoito recheado de uma pasta de ricota com pistache.

Para mim, a principal razão de ficar em Catânia era explorar a região em volta, mas principalmente, fazer uma expedição ao vulcão Etna, o maior vulcão em atividade do planeta (3400m) e, em constante erupção, cenário de tantos eventos trágicos e visualmente impactantes nas muitas cidades construídas no seu entorno. No entanto, descobri, frustrado, que eu não havia combinado meus dias de folga com a natureza, de forma que por dois dias fiquei em Catânia esperando o sol abrir para que eu pudesse ver o Etna.

Por conta das nuvens, dediquei meu domingo a explorar Catânia. Catânia é uma cidade comum, e se torna interessante exatamente por isso. Gente ordinária, poucos turistas, o que torna mais agradável visitar seus restaurantes, mercados, ruas, lojas, brincando com uma língua da qual meus conhecimentos são rudimentares e, como em outras ocasiões, com outras línguas, descobrindo que consigo comer, sobreviver, locomover-me, hospedar-me. É fascinante, ainda que às vezes estressante, estar num lugar sem falar nada da língua local, ainda que o italiano pareça muito semelhante, e às vezes dependendo da generosa ajuda de algum anjo da guarda que chega num momento de apuro, e que arranha o inglês ou outra língua qualquer mais conhecida. Mesmo com anjos da guarda, porém, freqüentemente se perde uma informação, uma sugestão, uma direção, uma piada, uma dica.

Catânia no domingo é uma cidade morta. Ruas vazias, comércio fechado, pouca gente circulando, o que torna a cidade propícia para explorar com calma suas muitas praças e construções históricas. Vez por outra me sentava num banco de praça e, enquanto observava o povo, lia e aprendia mais sobre o relevante papel que a Sicília teve em diversos momentos da história universal, inclusive na II Guerra Mundial. Aprendi, também, um pouco da fascinante e assustadora história da máfia na região, uma presença forte que, embora sofrendo baques recentes, continua se fazendo presente, ainda que não notada pelo viajante comum. Mas a parte mais interessante do dia foi mesmo passear pela feira de produtores orgânicos locais, onde fui tentado pela profusão de queijos, geléias, frios, vinhos, grãos e nozes ali expostos, numa degustação que acabou sendo o meu almoço.

No B&B, encontrei um simpático casal de velhinhos ingleses aposentados, que dedicam seu tempo livre a viajar pelo mundo. Estavam agora explorando a Sicília e trocamos sugestões e recomendações do que já tínhamos lido e visto. Nessas importantes trocas que acontecem numa viagem, o interessante é ouvir e captar todas as recomendações e sugestões, mas nunca deixar de fazer sua própria viagem, com seu próprio olhar e sentimento. Porque o que torna cada lugar interessante, ou não, é exatamente o olhar, o momento, a emoção que se vive naquela hora, e isso é sempre único para cada pessoa, razão por que não faz sentido querer repetir “aquela maravilhosa” viagem que alguém nos descreveu.

Mesmo com as pesadas nuvens, não resisti a fazer uma viagem ao Etna, optando pela CIRCUMETNEA, uma ferrovia que, ao longo de 110 km, vai contornando o Etna e parando em diversas cidadezinhas locais. Supostamente, o Etna seria vislumbrado e apreciado em cada um desses 110 km, mas o que vi mesmo em todo o trajeto foram nuvens, muitas nuvens. Embora o trem seja supostamente turístico, havia poucos turistas nele, que era mesmo ocupado pelos moradores locais que se deslocavam entre essas cidadezinhas, não cobertas pela rede ferroviária do estado. Numa delas, Randazzo, saltei do trem para descobrir resquícios bem vivos do período medieval, castelos, construções, pontes, igrejas. Na volta ao trem, uma parada numa lojinha de produtos típicos, onde, com muita mímica e boa vontade, consegui um delicioso sanduíche de mortadela e um copo descartável cheio do vinho local, e fui caminhando pelas ruas sob a chuva até chegar à estação de trem. Um banquete memorável.

O dia seguinte, à tarde, era o início de minha “vida oficial” na Sicília. Fui de ônibus de Catania a Siracusa, onde consegui chegar a tempo de deixar as coisas no hotel, resolver algumas pendências de trabalho e sair para passear na belíssima ilha de Ortigia, sem dúvida a parte mais interessante de Siracusa. Como costuma acontecer, lembro pouco dos detalhes que li e ouvi sobre Siracusa, mas me lembro que, pela sua localização, é uma cidade com decisivo papel em vários dos grandes momentos da história universal. Além disso, muitos filósofos dos tempos helênicos passaram por aqui.

Tudo isso era visível e perceptível nos charmosos monumentos e ruas da cidade, algumas delas felizmente fechadas por conta da nossa reunião, nas quais pude passear praticamente sozinho (que egoísta!). Pra melhorar, nosso trabalho se realizava no antigo e belíssimo Castelo de Maniace, totalmente adaptado para a reunião. Em Ortigia, as horas vagas do trabalho me proporcionaram excelentes e charmosos restaurantes, igualmente excelentes vinhos e uma vida noturna interessante, centrada na Praça do Duomo onde duas atrações se destacavam: uma “instalação” provisória, uma mega escultura que ocupava boa parte da praça e simbolizava um homem afundando (fazia parte da mensagem ecológica presente em várias manifestações de arte previstas para o período de nossa reunião) e a igreja onde, até tarde da noite, uma romaria de admiradores tinha a chance de visitar uma bela obra de Caravaggio.
Encerrada a reunião, o roteiro escolhido foi ir de carro em direção à cidade de Taormina, famosa por sua espetacular localização no alto de uma encosta, com deslumbrantes vistas para o mar. Um lugar como esse merecia uma escolha de hospedagem à altura, e ali não faltam hotéis de charme. A escolha foi sobre o fantástico Hotel Villa Ducale (http://www.villaducale.com/), altamente charmoso, elegante, acolhedor, sofisticado, mas sem afetação nem esnobismo. Todos os poucos quartos são brindados com magníficas varandas e o café da manha é servido num terraço com as mais belas vistas que se poderia ter da cidade. Lugar para ficar uma semana e esquecer do mundo. Não é um hotel que eu descreveria como “baratinho”mas definitivamente vale cada Euro pago. Como vantagem adicional, o hotel fica a meio caminho entre Taormina e Castemola, um pequeno e menos conhecido vilarejo incrustado deliciosamente acima de Taormina, com vistas ainda mais fabulosas da própria Taormina e do mar abaixo.

Taormina seria apenas uma cidadezinha italiana qualquer não tivesse sido construída onde foi. Teatros gregos são comuns em todas as cidades por onde andaram esses povos (e não são poucos), mas duvido que algum tenha sido construído num penhasco com vistas tão espetaculares para o mar. Fiquei a imaginar o que deve ser um show num lugar desse, onde o palco disputa a atenção com as vistas do mar e do vulcão Etna ao fundo.

E por falar em Etna, saio da Sicília com a frustração de não vê-lo, quase com a certeza de que esse vulcão não existe. Depois de andar 110 km de trem para ver o Etna e de me hospedar em Taormina num dos mais privilegiados pontos de visualização do vulcão, não tive sequer esboço do grande vulcão.

Isso me faz lembrar das estórias que ouço e das viagens que já fiz, para as quais existe antecipadamente a expectativa de uma vista, de uma fotografia, de um monumento, de um cenário… A frustração é inevitável quando se depende da indomável e imprevisível natureza, ou dos dias de abertura de um museu, de uma doença no dia exato da visita. Qualquer dessas coisas pode ser a diferença entre ver ou não ver o Etna, deslumbrar-se ou não com a visão de Macchu Picchu a partir da Porta do Sol, enxergar ou não o por do sol nas dunas de areia da Índia, admirar ou não a arquitetura de Québec, só pra citar algumas frustrações já vividas. Isso tudo para não falar de como uma diarréia pôde me impedir de admirar o Taj Mahal com a grandeza que ele merece.

Como não ver o Etna não foi a primeira expectativa frustrada numa viagem, isso não me estragou o prazer de estar por ali, até mesmo porque descobri, depois, que a Sicília é muito mais do que o Etna. Numa viagem, nem sempre se encontra o que se foi buscar, e estar aberto e receptivo a isso é um dos grandes segredos de bem viajar. Até mesmo porque, com frequência, o que se encontra é mais fascinante do que aquilo que fomos buscar.

24 de junho de 2009

Uma Nova Janela para Paris


Surpreendi-me ao me dar conta de que esta já é a sétima vez que venho a Paris... em três delas, vim apaixonado... em uma vim a trabalho, na outra vim com meus pais, na sexta com amigos e nesta última vim sozinho. Cada uma única e deliciosa em seus encantos. A grande vantagem de vir mais vezes a uma cidade como Paris é não precisar mais fazer o inevitável check list das atrações turísticas... Torre Eiffel, Rio Sena, Catedral de Notre Dame, Museu do Louvre, são atrações fantásticas mas que terminam quase que se impondo como obrigações do visitante.
Agora não... não tenho mais nenhuma obrigação em Paris. Não preciso acordar cedo e pegar o metrô para cumprir aquela agenda cuidadosamente desenhada na noite anterior. Estou livre, totalmente livre, para andar onde eu quiser, ir onde quiser, sentir o que quiser. E isso significa simplesmente sentir Paris, do jeito que se apresenta. Mais do que ir a Paris, significa deixar Paris vir a mim, se é que isso não é muita pretensão.

Pra começar, o maravilhoso metrô de Paris, que se orgulha de nunca te deixar a mais de 500 metros de qualquer ponto da cidade, é bom para te levar rapidamente a lugares distantes mas,como todo metrô, não te permite ver a cidade, o sol, as ruas, as pessoas (exceto aquelas que, sonolentas e mal humoradas, se encaminham ou voltam do trabalho ou da escola). Então, o bom agora é andar a pé e de ônibus (a moda agora em Paris é andar no super bem bolado esquema de bicicletas, mas essa fica pra uma outra vez ainda ;-). É claro que, somente no metrô, você consegue ver a faceta da cidade que vai bem além do turismo, ali está o cidadão comum, o imigrante, o legal e o clandestino, o branco, o negro, o metrô, literalmente, encerra a cidade.

Eu, que adoro um mapa, saio a pé pela cidade, sem mapa. Me perco, o que é fascinante. Também me fascino quando já não me perco e me localizo. Ao me deslocar, privilegio o ônibus. Não é tão simples quanto o metrô, tem que estudar mais, tem que perguntar, tem que olhar em volta, tem que tentar entender, mas não é isso que faz a cidade ficar mais interessante? E não é isso que te faz ir de um lugar a outro olhando a cidade, o sol, os rostos, as peles, de forma mais interessante do que enterrado no buraco do metrô?
Me lembro que, da primeira vez que vim a Paris, todos me falavam para me preparar para o mal humor do francês. Todas as piores expectativas que eu tinha foram cumpridas, mas ao menos, viajando mais tarde pelo interior, descobri que não é o francês que é mal humorado, é o parisiense. E não foram poucas as oportunidades que eles tiveram para me mostrar um pouco de seu mal humor e má vontade. Na segunda vez, vim com a mesma má vontade e percebi o mesmo mal humor. E a partir da segunda, terceira, enfim, os parisienses já não me pareciam mais tão mal humorados. Mudaram os parisienses ou mudei eu?

Bom, as mulheres parisienses não mudaram. Continuam lindas, elegantes, charmosas. As que não são lindas, não escapam de ser charmosas. Não valorizam os seios, como nos EUA, nem a bunda, como no Brasil, mas sabem como ninguém, com saltos e saias, especialmente no verão, valorizar suas pernas. E que pernas... Mas elas são como Paris. Não olham pra mim. Elas não olham pra ninguém. Andam, certas de que são lindas, elegantes e charmosas. E a nós, homens, nos cabe apenas admirá-las. Como fazemos com Paris. A única coisa que não entendo é como, sem olhos nos olhos (sim, elas nunca olham nos seus olhos), acontecem os grandes encontros daqueles filmes franceses que tanto povoaram minhas fantasias.
Paris tem séculos de vida, de história, de cultura... Acho que é mais fácil eu mudar e compreender Paris do que ela se ajustar a mim. E Paris vale a pena. Eles são mal humorados, são pouco higiênicos, muitas coisas não funcionam bem, mas Paris é Paris, e não é à toa que estou aqui pela sétima vez. A cidade é linda, cada esquina exala história, cultura, sabores, cheiros, sentimentos. Paris é uma cidade completa na estimulação de cada sentido.

Já pouco olho o guia ou o mapa para saber onde ir, o que comer, o que fazer. Não estou em busca daquele “lugarzinho” recomendado pelos amigos e pelos guias. Sigo o fluxo, olho para as carinhas de felizes (ou infelizes) comensais, antes de escolher onde vou comer. Entro no que parece ser bom, ainda que possa não ser (é raro, mas acontece!). Arrisco mais e mais meu francês de segundo grau. Passeio por lugares menos turísticos e mais parisienses. Eu, que adoro fotos, já não tiro fotos, apenas olho, guardo na memória. Não preciso mais provar a mim mesmo que estive aqui.

E tudo isso me faz sentir Paris de uma forma diferente, nova, mas sempre igualmente fascinante, arrebatadora, apaixonante. É, de fato, uma cidade para se vir quantas vezes se puder. Ela continuará te esnobando, sem olhar pra você, mas, mesmo assim (ou por causa disso mesmo), não tenho como não continuar apaixonado por ela.

De Aiuruoca para Paris


É interessante sair de Minas Gerais, visitando a Serra do Cipó e o Vale do Matutu, em Aiuruoca, e 24 horas depois estar em Paris. Lembro-me de uma amiga que me dizia que eu era igualmente feliz tanto na Chapada dos Veadeiros quanto em Londres. E foi assim que me senti nessa transição de férias tão insólita quanto instigante, com todas as possíveis divergências e convergências entre os dois destinos.

Saí do Brasil poucos dias depois do trágico acidente com o vôo da Air France, que ia do Rio para Paris. Embora as lembranças nesses casos sejam inevitáveis, não tive nenhum tipo de insegurança ao embarcar no avião. Meu medo de viajar existe, sim, mas não está no avião, está nas estradas brasileiras, essas sim, fontes de estresse, de perigo, de risco. Essas me provocam tensões, dores musculares, dores de cabeça. No avião, é o tempo de entrar e sair dele, e uma turbulência no máximo incomoda a leitura durante o vôo. Ponto para Paris.

Já nos respectivos destinos, na Serra do Cipó ou em Aiuruoca é o carro, é o 4x4 que me move, me leva por terras, matos, fronteiras, lugares pouco navegados. Eu faço a rota. Em Paris, é o ônibus, o metrô, que me conduz por ruas e avenidas ao mesmo tempo lindas e congestionadas. As rotas já existem, eu não as faço. Ponto para Aiuruoca. Mas, no fim, em ambos os destinos, são os pés que me guiam, que me levam, que me fazem achar o caminho mais bonito, mais deserto, mais original. Andei muito, as pernas cansam muito, tanto em Aiuruoca quanto em Paris.

E a comida? Serra do Cipó e Aiuruoca são Minas, Paris é França. A comida é diferente em Minas e em Paris, mas em ambas é parte inseparável da cultura e do modo de viver dos dois lugares, onde comer não é apenas para matar a fome. Numa, o feijão tropeiro, o arroz, o bife, a galinha ensopada, o queijo quente, a goiabada com queijo Minas, a batata frita. Na outra, o entrecôte, o gigot d’agneau, o patê de lapin, o panini com queijo Brie, o creme brulée, a batata frita (essa última é universal, mas boa mesmo é a do McDonald’s ;-). Numa, a casa da Dona Neuza, na outra, o Café de La Paix. Tudo diferente, mas tudo bom, comer é um grande prazer. E comida leva ao vinho. Em Minas, é inverno... o tempo convida ao vinho. Em Paris, bem... em Paris, tudo convida ao vinho, sempre... E o vinho é um grande prazer... para o corpo e para a alma.

Em Aiuruoca, o Vale do Matutu, tudo é remoto, deserto, vazio (de gente, quero dizer). Estradas de difícil acesso, comunidades pouco povoadas, baixa estação. Em Paris, nada mais urbano e metropolitano, o mundo inteiro está ali, o verão chega e convida a viver a cidade. A vida, em suas diferentes nuances, pulsa nas duas. Ambas são vastas, grandes, ambas convidam à descoberta.
Mas nem tudo é igual. Minas te acolhe, protege, é familiar; Paris te esnoba, te expõe, é estranha, é estrangeira. São duas lindas damas, mas Paris te é indiferente, ali você é apenas mais um a admirá-la, mas ela não te nota e nem você entende o que ela diz. Aiuruoca parece estar tão feliz quanto você pelo fato de você estar ali, e você entende isso, tanto na palavra quanto no olhar. São duas lindas damas, mas uma não te olha nos olhos. A outra te olha nos olhos e ainda diz “olha moço, você bem que dá um bom caldo, viu?” (deliciosa frase ouvida de uma atendente num posto de gasolina nas proximidades de Aiuruoca). 10 x 0 pra Aiuruoca!

16 de junho de 2009

Katy Perry em Paris


No primeiro dia de minhas férias em Paris, e estando hospedado em sua casa, só mesmo meu amigo Shazzan para me fazer ir a um show de Katy Perry em Paris. Se você não sabe quem é Katy Perry, não se preocupe, eu também só fiquei sabendo hoje, quando ele me disse que haveria um show dela no famoso teatro Olympia, palco, há mais de 100 anos, de grandes nomes da música mundial como Edith Piaf, Louis Armstrong, Elis Regina, Aretha Franklin, Beatles, Tina Turner, entre outros. Quando ele me convidou, eu bem que me lembrei, preocupado, de que, na hora em que saí hoje de manhã, havia uma fila de adolescentes em frente ao teatro e eu pensei que algo do tipo Menudos deveria estar se apresentando, embora aqueles adolescentes sequer tenham idéia do que venham a ter sido os Menudos (sorte deles!).


E lá fomos nós pro Olympia, comprar ingresso de cambista, e adentrar o imenso salão vermelho característico do lugar, com um copão de cerveja na mão, que ficamos tomando em pé enquanto aguardávamos o show por mais de uma hora (sim, os shows são assistidos em pé). Em volta, eu olhava e tinha a certeza de que não havia uma alma viva mais jovem do que nós. A grande maioria na mesma faixa de idade da cantora, vinte e poucos anos. Na entrada da cantora no palco, os indefectíveis gritinhos e pulinhos, a que assisti com a paciência de quem leva a filha adolescente a um show desse (bem, na verdade, duvido que alguma adolescente aceite a companhia do pai num show desse!).

Eu me divertia muito observando os gestos, coreografias e falas da moça, enquanto observava o cenário, composto por gansos e um enorme coração cor de rosa, músicos vestidos de terno cor de rosa. Assistia a tudo com os inevitáveis passinhos de quem segue o ritmo da música, e com tentativas nem sempre bem sucedidas de me desviar das criancinhas colocadas sobre o pescoço dos pais para poderem enxergar melhor o palco. Assistia a tudo com o olhar distante de quem não pertence àquele ambiente até o momento em que, após uma tosca coreografia em que um palhaço vestido de carteiro entra no palco para entregar uma carta à cantora e ela solta, então, a música, Mr. Postman, grande hit dos Carpenters na década de 70. Nessa hora, enquanto eu batia os pezinhos mais animadinho, pude prestar mais atenção e vi alguns marmanjos também se soltando e traindo a idade.


Outro que traiu a idade foi o sujeito que acendeu um isqueiro e o levantou durante o show. Lembrei-me dos shows a que eu ia quando jovem, e o grande momento de emoção era o acender de isqueiros ou fósforos por grande parte da platéia na escuridão, o que produzia um fantástico efeito luminoso. No show de Katy Perry, porém, o grande efeito luminoso era dos milhares de aparelhos celulares que eram levantados para tentar captar a melhor imagem da mocinha.


O show terminou com o grande hit I Kissed a Girl (“Eu Beijei uma Garota”), o que produziu frisson comparável ao que vi, no Brasil, com as meninas que assistiam, nas primeiras filas, aos shows de Zélia Duncan e Cássia Eller (http://www.youtube.com/watch?v=DLt5n0auPwM para quem quiser conhecer I Kissed a Girl).


Chegando em casa, fui investigar melhor o fenômeno e descobri que Katy Perry foi lançada ao estrelato há um ano atrás, depois dos elogios que Madonna fez à música que a cantora fez avacalhando um namorado que lhe deu um pé na bunda (“Ur so Gay”, ou “Você é tão Gay”). Nao há muito mais o que saber de uma carreira de apenas um ano, mas para quem quiser conhecer mais, tem até um site de Katy Perry no Brasil (http://www.katyperry.com.br/).


Enquanto isso, vou dormir pensando no que Edith Piaf, Aretha Franklin e Elis Regina devem estar sentindo ao serem colocadas, junto com Katy Perry, no rol das grandes damas que pisaram o palco do Olympia.

26 de julho de 2007

Sydney, Australia, Julho de 2007


Cartaz na entrada de uma joalheria no hotel em que me hospedei em Sydney. Difícil foi explicar para a moça da recepção do hotel o que havia de tão engraçado num cartaz que anunciava os horários de abertura da BUNDA.

15 de junho de 2007

Washington, DC e Ricksgransen, Suécia - Glamour de viajar?

Washington, DC, EUA, 7 a 8 de junho de 2007
Riksgransen, Suécia, 11 a 14 de junho de 2007

Escrevi, outro dia, de maneira genérica, sobre a imagem de glamour que as pessoas têm sobre essas viagens de trabalho. Eu seria hipócrita se dissesse que todas elas são insuportáveis, que em algumas eu não vejo coisas bonitas, conheço gente interessante ou experimento comidas diferentes. Mas, no geral, são mesmo viagens de pouco prazer e muito trabalho, sem que haja muitas oportunidades para conhecer seja lá o que ou quem for. E minha viagem à remota Ricksgransen é um exemplo típico de como as coisas acontecem.

Saí de Brasília às 13:30, em direção a São Paulo, Congonhas. Em condições normais, o deslocamento do aeroporto local para o aeroporto internacional, cheio de malas, já é desagradável, mas esse dia era um feriado e o trajeto que normalmente é feito em 40 minutos levou duras horas e meia, o que já foi suficiente para me fazer chegar cansado e mal humorado em Guarulhos, onde tomaria o avião para Washington. Tão cansado que nem jantei no avião, apenas tomei meu infalível Dramin e capotei.

Viajar de classe econômica – carinhosamente conhecida como ‘cattle class’, ou ‘classe gado’ em português – não é exatamente confortável para quem tem altura ao menos mediana, de forma que cheguei ligeiramente quebrado por volta das 06h30min da manhã em Washington. Fui direto para o hotel, na esperança de que houvesse um quarto disponível para um bom e merecido banho, mas isso seria querer demais dos rígidos padrões de hotelaria americanos. Quarto, apenas depois do meio dia. Tomei um banho de gato e troquei de roupa no banheiro do hotel, larguei a mala na recepção e fui direto para a reunião.

A reunião durou o dia inteiro, inclusive com direito ao famoso ‘almoço de trabalho’ americano (um simples sanduíche) e, ao fim do dia, senti que uma poderosa gripe me derrubava. Foi uma boa oportunidade para fugir do já agendado jantar – novamente de trabalho – e voltei pro hotel, não sem antes passar numa daquelas fantásticas farmácias americanas, onde preparei o meu coquetel anti-gripe. Dormi bem cedo e bem. Tão bem que, entusiasmado com o remédio, tomei outra dose.

Descobri então que aqueles remédios antigripais que têm escrito ‘noite’ e ‘dia’, com fórmulas aparentemente idênticas, não eram puro marketing. Tomei, pela manhã, o tal do ‘noite’ e passei a manhã caindo de tanto sono, almocei caindo de sono e, ao fim do dia, ainda morrendo de sono, fui direto para o aeroporto, para regressar ao Brasil (isso mesmo, cheguei num dia e fui embora no outro). A motorista de táxi, uma indiana, quis me roubar na tarifa previamente acertada no hotel e isso rendeu uns bons e irritantes minutos de discussão na porta do aeroporto, até que se chegasse a um consenso. A essa altura, já irritado, a discussão tinha virado, para mim, uma questão de honra.

Na hora do check in, surpresa! Depois de a assistente muito procurar, sem sucesso, a minha reserva no sistema, sou informado que meu bilhete estava marcado para o dia seguinte. Depois de xingar até a 3ª geração de todas as pessoa que pudessem ter contribuído para o erro, comecei a infrutífera negociação com a moça da companhia que me informava que o único lugar disponível naquele vôo era na 1ª classe. Eu tinha um problema básico que fazia o meu embarque precisar ser feito naquele dia: outra viagem a trabalho que eu faria imediatamente em seguida. E foi assim que, revoltado, deixei no caixa da companhia a absurda quantia de U$ 1,200.00 (mil e duzentos dólares) para voltar numa 1ª classe das mais vagabundinhas, cujo custo não se justifica sob prisma algum.

Quando as coisas estão ruins, console-se... elas sempre podem ficar piores. Mesmo na primeira classe, não fiquei nem um pouco feliz com o atraso de quase duas horas na partida do vôo, atraso esse totalmente passado todo dentro do avião. Mas as coisas ainda podem ficar piores: quando cheguei em São Paulo, às 10:00 da manhã, já havia perdido o vôo das 9 para Brasília. E o próximo saía apenas, acredite, às 18 horas. Seriam oito horas no aeroporto que, naquela época, vivia o auge do apagão aéreo no Brasil, em que o caos imperava na aviação brasileira. Eu passaria essas intermináveis horas alternando entre o sono profundo e o trabalho, já de olho na viagem que faria no dia seguinte.

Mas podia ficar ainda pior. O vôo das 6 saiu apenas à meia noite, de forma que cheguei em casa apenas às duas da manhã. Foi o tempo de tomar um delicioso banho, cair na cama e, após uma noite mal dormida, me levantar e me preparar para a próxima viagem. Desfiz uma mala, fiz a outra e, poucas horas depois de chegar a Brasília, já estava novamente no aeroporto. Tinha uma longa jornada pela frente. Uma jornada que, incluídos todos os tempos de deslocamento e de espera em aeroportos, ia me tomar cerca de 30 horas até a remota cidadezinha de Riksgransen, no norte da Suécia, onde haveria a reunião chamada, sugestivamente, “Diálogo do Sol da Meia Noite”.

A trajetória incluiu 1h30m de Brasília a São Paulo, 4hs no aeroporto, 11hs de São Paulo a Munique, 2h30m de Munique a Estocolmo, 5hs no aeroporto, 2h30m de Estocolmo a Kiruna e, finalmente, 2 horas de ônibus de Kiruna a Riksgransen, onde chegamos por volta das duas horas da manhã, sob a forte luz do sol, que ainda brilhava nesse horário.

O sol da meia noite é um fenômeno que ocorre em altas latitudes norte, onde o sol continua visível por todo o dia, durante certo período do ano. A foto ao lado foi tirada às 22 horas. O número de dias por ano em que esse fenômeno se dá aumenta à medida que se viaje mais em direção ao pólo norte. Em Riksgransen, dura cerca de um mês. Muitos visitantes e turistas têm dificuldade em dormir durante a noite, quando o sol está brilhando. No meu caso, a longa jornada de viagem não me deu outra opção a não ser cair na cama e dormir. Mas quando, no meio da noite, me levantei para ir ao banheiro, com aquela natural sensação de “onde estou?” que me atinge na primeira noite em uma cidade, não pude conter o susto ao ver o sol lá fora e pensar que eu já estava atrasado para o trabalho. Nas próximas noites, prevenido, dormi sempre com uma máscara de olhos.

O sol da meia noite é realmente um fenômeno impressionante e, depois de uma jornada com tantos percalços, me senti feliz de estar ali, no meio do nada, observando, entre uma reunião e outra, o sol que nunca se punha (o hotel onde seria a reunião era totalmente isolado de qualquer civilização, apenas uma estação de esqui dominada por turistas durante o inverno).

Era verão, mas o frio era de 5 graus e as montanhas estavam cobertas de neve, apesar do sol permanente. Fiquei imaginando como seria o inverno nessa região onde, soube, a temperatura varia de -20 a -30 graus e há luz do dia apenas por cerca de uma hora, ao meio dia. A arquitetura do hotel era composta de diversos prédios entre os quais tínhamos que nos deslocar com freqüência, de forma que foram sucessivos choques térmicos ao longo dos dias, entre os 5 graus de fora e os muitos graus da calefação interna. Não foi por acaso que vários dos participantes logo estavam acometidos de gripe e dor de garganta.

Passado o deslumbramento, eu tive que lidar com o lado prático de um dia de 24 horas de sol. Em geral, logo após o jantar, quem tem vontade de ir pra cama com o sol brilhando? Nada melhor do que sair para uma boa caminhada pelas montanhas, à luz do sol, às 11 horas da noite. E foi na primeira dessas caminhadas, acompanhado por uma bela, doce e charmosa participante, já conhecida de outras reuniões, que senti uma gostosa sensação de encantamento. Uma boa conversa, um bom vinho, um cenário inebriante composto por lagos e montanhas, e o sol da meia noite brilhando de maneira insistente.

No dia seguinte, a reunião continua, apenas uma reunião como outra qualquer, diferente apenas no menu que, em todas as refeições, incluía as pobres renas, que minha mente costumou associar unicamente ao transporte do Papai Noel, nunca como prato principal. Não sei se foram elas, ou alguma outra das diferentes comidas que experimentei por lá, ou o cansaço de todos esses dias, mas me vi no dia seguinte sofrendo de uma dolorosa intoxicação alimentar. Eu acreditava que essas coisas só aconteciam na América Latina, na Ásia ou na África, não na Suécia. O ponto alto dessa intoxicação foi quando, depois do jantar, e em continuação à noite anterior, me vi no quarto da bela, doce e charmosa mulher e, antes que acontecesse qualquer coisa entre nós, tive que sair correndo para o meu quarto por medo de uma tragédia que seria traumatizante. Cômico, se não trágico!

No dia seguinte, teria início a longa jornada de regresso e, receoso que estava de encarar essas quase 30 horas de viagem no estado em que me encontrava, resolvi consultar o médico de plantão do hotel, que a recepcionista tão generosamente me ofereceu. O médico trocou umas quatro palavras comigo, me receitou um Imosec anti-diarréico e, prontamente, me apresentou uma conta de U$ 200.00. O susto quase me curou da intoxicação, mas o estrago estava feito. Quem mandou não perguntar nada e acreditar que aquele rapazinho com cara de recém saído da faculdade estava ali de graça esperando eu chegar?

O longo regresso, que já seria normalmente cansativo, foi agravado por dores, cólicas e mal estar. Quando finalmente cheguei em casa, depois de uma viagem que parecia não ter mais fim, olhei para trás e me perguntei o que exatamente havia acontecido de glamoroso em todos esses dias de viagem. Tá bom, eu tava num cenário maravilhoso, encantei-me com a moça bela, doce e charmosa, mas nem essas coisas pude aproveitar adequadamente. Foram quase dez dias de viagens seguidas, mais tempo em aviões, aeroportos e hotéis do que em qualquer outro lugar, e ainda tenho que convencer as pessoas que não há nada de glamour nisso tudo. Naquele dia, meu chuveiro, minha cama, meu travesseiro, minha casa, pareceram mais perfeitos do que em qualquer outro momento da minha vida. E acordei no dia seguinte sem sinais da intoxicação que havia me debelado na Suécia.