31 de março de 2005

Marrocos, março de 2005

Casablanca, Marrakesh. A gente cresce ouvindo coisas do tipo "prá lá de Marrakesh" sem saber exatamente o que quer dizer nem onde fica a tal da Marrakesh. Cresce vendo - ou ouvindo falar - de Casablanca, o filme, com Humphrey Bogart, ouvindo "As Time Goes By" e fazendo brincadeirinhas de "Play it Again Sam". Mas na hora que chega aqui nada disso parece fazer sentido. Primeiro porque Casablanca não tem nada que, ainda que remotamente, lembre o filme (descobri aqui que o filme Casablanca foi inteiramente rodado na Califórnia, que decepção!). Segundo porque "prá lá de Marrakesh" só faz sentido quando você tá muito longe e, agora, estando aqui do lado, o que é mesmo que quer dizer isso?

Mas a chegada em Casablanca traz todos os tipos de emoções que essas viagens exóticas trazem consigo: expectativa, curiosidade, ansiedade e, claro, também certa insegurança. Tem que aprender os códigos locais, saber como se vai de um lugar pro outro, saber o que pedir pra comer, aprender a sobreviver com outra língua, outra cultura, tudo outro.

Tenho, naturalmente, que me despir dos preconceitos contra os franceses e contra a língua francesa. Isso não é exatamente fácil neste exato momento, em que me engalfinho com um irritante teclado francês (por que é que os franceses têm que ser diferentes até nisso?). Já no embarque, num vôo da Air France, começou a irritação ao ver que uma menina carregava no colo uma jaulinha de cachorro, que latia sem parar. Não acreditei que ela ia viajar todo o vôo com aquele cachorro e pensei "só podia ser coisa de francês, num vôo da Air France". Paguei a língua. Os comissários, em bloco, impuseram que a menina deixasse a gaiolinha no porão do avião, mas ela não aceitou. Depois de muita negociação, minha surpresa: a menina preferiu sair do avião, e assim saiu cheia de dignidade, carregando sua jaulinha. E a maior surpresa: era uma brasileira. Ou seja, essa babaquice francesa com os cães se acha no Brasil também.

Bom, gostando ou não de francês, é com as poucas palavras que conheço que vou ter que me virar aqui (o que é mais fácil do que me virar com árabe ;-). Não tem muita gente falando inglês por aqui, o que é perdoável; afinal eles não têm culpa de terem sido colonizados pelos franceses. Com meu parco francês, já consegui até tomar um chá de menta, o que me lembrou do delicioso e açucarado chá de menta que eu tomava num boteco libanês quando eu morava em Londres. Com toda essa falta de habilidade lingüística, até agora não me perdi, não morri de fome, nem deixei de perguntar a ninguém 'onde é', 'quanto custa' e coisas do gênero. Com meu francês de primeiro grau e com a boa vontade dos marroquinos, eu vou chegando lá.

O melhor num começo de viagem é se perder. Chegar ao hotel, tomar banho, andar pela rua, tomar um chá de menta num café a beira da calçada. Esse primeiro dia, então, é apenas pra relaxar da longa jornada, sentir os primeiros sons, cheiros, cores, sabores do lugar. Amanhã começa a exploração pra valer.

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É bom não perder a capacidade de me deslumbrar, de me fascinar. Lembro-me de quando comecei uma longa viagem, que duraria seis meses, logo após o meu mestrado, e Sereen me disse que, depois de viajar um pouco, perde-se a capacidade de se deslumbrar, de se fascinar com as coisas, os lugares começam a ficar todos iguais. Fiquei com aquilo encucado, pensando se seria assim mesmo, até que, semanas depois, me encontrei mergulhando no Mar Vermelho e, ao ver aqueles recifes de corais, com vegetação e fauna multicolorida, uma visão deslumbrante, chorei no fundo do mar, emocionado com aquela beleza única, e percebi, fascinado e deslumbrado, que não tinha perdido a capacidade de me fascinar e de me deslumbrar.

E agora, no Marrocos, bom ver isso de novo. Depois de passar por alguns países árabes, outros muçulmanos, outros africanos, vejo que o Marrocos é tão árabe, tão muçulmano ou tão africano quanto os outros, mas é também tão único que me deslumbra em cada curva de estrada, em cada ruela de suas cidadezinhas imperiais (as medinas), e até mesmo em suas ruínas romanas (esses caras estão em todas, né?). É bom também descobrir que a novela brasileira que tornou o Marrocos tão próximo do imaginário coletivo brasileiro quanto Cancun e Aruba não é tão real assim. O Marrocos verdadeiro é bem diferente.

Dos franceses, os marroquinos herdaram muita coisa, entre o que há de melhor, destaca-se o prazer de comer, incluindo os charmosos cafés nas calçadas das ruas e os pães, deliciosos comparados com o que se encontra nessas viagens. Como nem tudo é perfeito, os marroquinos herdaram, também, dos franceses, aqueles insuportáveis chuveiros, compostos de uma mangueirinha pendurada na banheira, onde você tem que tomar banho, se ensaboar, se equilibrar e segurar a ducha com apenas duas mãos.

A comida, seja numa birosquinha bem simples ou num restaurante mais sofisticado, é sempre ótima. Bom, sou suspeito para falar isso, porque o carro-chefe aqui é o carneiro, e carneiro é comigo mesmo. Então, é tagine de carneiro, couscous de carneiro, kafta de carneiro... Para beber, arrisquei, com resultados abaixo da crítica, o vinho marroquino. A cerveja local não é, também, nada de excepcional. Acabo, então, ficando mesmo no delicioso chá de menta, refrescante mesmo quente.

Os cafés nas calçadas constituem uma verdadeira instituição nacional. Como na França, curto o delicioso prazer de simplesmente sentar-me, olhar o povo passar e tomar chá de menta. Peço um bule, abro um livro, meu caderno de anotações, e duas horas se passam sem que eu sequer perceba. Não há mulheres nesses cafés, apenas homens, ou, no máximo, alguma turista, mas sempre acompanhada por um homem. As mesas têm as cadeiras todas voltadas para frente, de forma que ninguém se senta de costas para a rua. Há dezenas desses cafés, e todos servem apenas chá e café, nada de comida; não consigo acreditar que sobrevivam apenas vendendo chá e café.

A recomendação aqui é não expor os joelhos e os ombros - ou seja, nada de bermudas ou de camiseta regata. Sofro mais pelas bermudas, mas nada que me incomode muito. Na verdade, estamos saindo do inverno aqui, está calor, mas um calor absolutamente suportável, em torno de 24 graus. O povo usa muita roupa aqui, os homens estão sempre vestindo uma camisa, um sweater e um casaco, faça a temperatura que fizer. Coisa de doido.

No grupo com que estou viajando, o destaque fica para uma babá inglesa e um marceneiro australiano, ambos bem jovens.. Fiquei imaginando quando que uma babá ou um marceneiro no Brasil poderiam fazer uma viagem dessas. São pessoas cultas, não ricas, moram decentemente no subúrbio, mas ganham dignamente para economizar e fazer uma viagem dessas. Fantástico.

Impressionante, quando viajo, minha capacidade de me desligar do mundo. Ao contrário do normal, tenho sonhado muito aqui. Quer dizer, sonhar eu sonho sempre, mas aqui tenho me lembrado muito dos meus sonhos. E são sempre sonhos legais, de gente querida, de coisas boas, algumas nostalgias, nada ruim. Bom dormir assim, dá prá relaxar pelo menos até as 5 horas da manhã, quando as mesquitas da cidade, com seus potentes alto-falantes, começam a chamar para as primeiras orações do dia. É assim cinco vezes por dia, como em qualquer país muçulmano. A prece das 5 da manhã é mais marcante por me tirar de um delicioso sono ao qual nem sempre consigo retornar.

Hoje passei o dia explorando a medina (cidade velha) de Fes, um lugar labiríntico, onde você parece voltar à idade média, um comércio onde o sujeito faz os produtos e vende ao mesmo tempo, onde a barganha é o segredo das compras. Ali, as ruelas têm apenas um metro de largura e freqüentemente você tem que se espremer na parede para deixar passar os jumentos que são o principal meio de carga. Há muitos turistas mas, mais do que eles, há um fluxo infernal de gente local que vai ali comprar de tudo. Uma experiência fascinante, com especial destaque para os tanques de tingimento de couros, onde se preparam as pecas de couro que são vendidas para os artesãos locais. Como se vê na foto anexa, do alto de um terraço vizinho, dá pra ver as dezenas de tanques de todas as cores, em que as peles de animais são mergulhadas para serem tingidas e depois transformadas nas belíssimas peças de couro que são vendidas nos mercados.

Por falar em mercados, o Marrocos é uma tentação para quem gosta de coisas diferentes. O problema é que tudo de que gosto é pesado e volumoso. E viajando por várias cidades, de trem ou de ônibus, com uma mochila nas costas, não dá para pensar em comprar nada. Meu prazer, então, é olhar (se é que alguém consegue ter muito prazer ao olhar alguma coisa num mercado sem ser imediatamente assediado pelos comerciantes). E passeio pelas ruas dos mercados, resistindo heroicamente à tentação de comprar um tampo de mesa em mosaico, uma luminária de ferro ou uma peça de porcelana.

Saio dessa onda de consumo e parto para alguma coisa menos urbana, um trekking de dois dias no deserto do Alto Delta. O lado mais legal dessa experiência foi simplesmente ter dado conta dela. Com a vida sedentária que ando levando, esse era o meu maior receio. Por isso, ter encerrado os três dias de caminhada sem fazer feio foi motivo de grande celebração. A caminhada era menor do que outras que já fiz, mas muito mais do que qualquer tipo de exercício que ando fazendo recentemente (cerca de três a cinco horas por dia de caminhada, subindo e descendo). Os visuais eram absolutamente fascinantes para que eu sequer pensasse em fraquejar.

Passei por vilarejos bem pequenos, desses onde não passa turista, e as pessoas te olham com um ar meio esquisito, como se você fosse um ET por conta das roupas, botas, sandálias, chapéu, seja lá o que você estiver usando. E a gente ainda acha que estranhos são eles com aquelas roupas compridas, algumas cobrindo até a cabeça, naquela calor de rachar. Nesses lugares, andei ficando em acomodações bastante precárias, algumas camas e colchões não exatamente confortáveis, alguns lençóis já sem condições de uso e, provavelmente, sem serem lavados já há alguns meses. Em outros lugares, a falta de conforto continuava, mas eram lugares simpáticos, limpos, charmosos, as vezes velhas construções reformadas.

No meio do caminho, parávamos em casas de nômades, de berbers (uma das raças locais), e sempre rolava aquele ritual de sentar num tapete empoeirado e ser servido de um chá de menta onde a cor da água só era disfarçada pela cor da própria menta. Quando dava para entornar disfarçadamente, tudo bem, mas de vez em quando tinha que engolir e rezar para o organismo digerir seja lá o que fosse que entrasse. O mesmo valia para o pão que distribuíam, que passava de mão em mão, e era depois pousado sobre o tapete empoeirado.

Com toda minha birra da língua francesa, senti falta dela para interagir mais com as pessoas que encontrei pelo caminho. As vezes me via em diálogos surreais com pessoas que não me entendiam e a quem eu não entendia. De alguma forma, nos fazíamos compreender. Isso valia para essas paradas esporádicas - embora nesses casos nem francês adiantasse muito -, para as compras, para pedir informações, para escolher a comida no restaurante ou simplesmente para bater papo com algum curioso - em geral crianças.

Por alguma razão que ainda não consegui plenamente compreender, o deserto realmente exerce um fascínio grande sobre mim (deve ser efeito das inúmeras releituras do Pequeno Príncipe na infância ;-). No deserto, tenho a deliciosa sensação de não ver nada, não ouvir nada, apenas ver e sentir o vazio. Um lugar que me faz sentir pleno, consciente da minha pequenez, em que me conecto comigo mesmo ou com uma entidade superior, e me desconecto do mundo, da vida, das pessoas, do resto. Tive várias dessas oportunidades durante a viagem, e cada uma era uma boa chance desse encontro.

Foram dias gostosos no deserto, caminhadas, trens, jumentos, passeando por desertos que foram surpreendentemente diferentes de outros desertos por onde já passei. São desertos montanhosos, repletos de vales férteis, picos cobertos de neve (não esperava ver neve no Marrocos), além de vilarejos pendurados nas montanhas, como se favelas do Rio fossem.

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De volta do deserto, um inglês comentou “de volta à civilização!”. Eu, que estava adorando estar no deserto, não gostei do comentário, mas adorei me encontrar em um lugar “civilizado”, onde eu tivesse acesso à internet. De qualquer maneira, foi bom, depois, ter uma conversa descontraída com o inglês sobre o que é ou não ser civilizado, especialmente quando se visita um pais tão rico em cultura, em arte, em conhecimentos tradicionais, e fazemos as inevitáveis comparações com os nossos próprios padrões culturais e de desenvolvimento.

Embora eu e o inglês comentássemos sobre as diferenças culturais entre o nosso ocidente e o Marrocos, não eram menores as diferenças entre mim e ele. Senti isso quando falei que tinha uma empregada em casa. Foi interessante observar a sua exaltada reação, que parecia tentar entender se eu era um rico oficial do governo, provavelmente vivendo à custa da corrupção típica dos países em desenvolvimento, se eu tinha trabalho escravo em casa ou se, afinal, o Brasil era um símbolo de civilização, com excelente qualidade de vida. Depois de muita conversa, ele começa a entender que ter uma empregada não é necessariamente um sinal de civilização; pelo contrário, é apenas um sinal de riqueza perversamente distribuída e que não é necessário ser rico para ter uma. Depois, conversando sobre o mesmo assunto num jantar com mais pessoas, confesso que não pude esconder um risinho de satisfação ao ver aqueles ingleses todos morrendo de inveja de mim, dos meu almoços em casa, do meu café da manha pronto quando acordo, da roupa lavada e passada, enquanto eles tem que encarar um terceiro expediente para ter tudo isso, sem a mesma qualidade.

O Marrocos surpreende na diversidade à medida que se anda de uma cidade para outra, e andei por muitas. Mudam as cores e o estilo das roupas, mudam as músicas, mudam os dialetos, mudam as cores das casas, mudam os cheiros. Um verdadeiro espetáculo para os sentidos. Não dá para ficar indiferente, não dá para não ficar virando os olhos de um lado para o outro à procura da próxima pessoa, do próximo traje, da próxima cor, do próximo cheiro, da próxima porta ou janela, da próxima ruela.

Só não mudou muito a comida que, apesar de saborosa, no fim se mostra absurdamente repetitiva: todos os cardápios, de norte a sul, são variações em torno dos mesmos temas: tagine, couscous, omelete. Sobremesa, que é bom, nem pensar. Ou melhor, existe, mas é igualmente repetitiva e composta de frutas da estação (quem foi que algum dia inventou que frutas da estação podem ser classificadas como sobremesa?) ou iogurte (Danone, sempre! E iogurte, é sobremesa?). Nos lugares mais sofisticados, a fruta da estação é substituída por uma salada de laranja fatiada polvilhada com canela, uma combinação interessante, ou por iogurte caseiro, em geral bem gostoso, mas que caberia melhor numa mesa de café da manhã.

O país é bastante explorado turisticamente, o que quer dizer que, mesmo em lugares remotos, acabo cruzando com um ou outro gringo, em geral franceses.. Há também espanhóis que cruzam, de carro, o Estreito de Gibraltar, e vêm passear por aqui. Não vi um brasileiro até agora, mas é interessante ver as reações dos marroquinos às minhas camisetas com cores ou bandeiras do Brasil. São reações simpáticas, naturalmente com referências a Ronaldo, Ronaldinho, Romário. Uma reação divertida foi a de um motorista de táxi que, passando em frente ao melhor hotel de Casablanca, e já sabendo que eu era brasileiro, apontou e disse "isso é para americanos e europeus". Só faltou dizer "isso não é pro seu bico!". Recebi aquele comentário como quem diz "você, brasileiro, é um dos nossos"... mais um gesto de carinho do que a minha automática exclusão do rol dos seres dignos de se hospedarem naquele hotel.

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Depois de muito andar pelo deserto, foi interessante chegar ao mar, em Essaouira, uma cidadezinha de origens portuguesas que não tem nada a haver com o resto do país que visitei. À beira mar, casas todas pintadas de branco, ruelas estreitas mas organizadas, sem circulação de carros, ótimos restaurantes - com inclusão, agora, de peixes nos cardápios - visuais interessantíssimos, povo ainda mais acolhedor. Hoje, fui ver o pôr do sol nas muralhas da cidade, um cenário lindíssimo que, embora distantes das minhas imagens do Marrocos, não posso deixar de registrar como uma das mais emocionantes surpresas da viagem. Por isso, ali fiquei, primeiro olhando, depois tirando fotos e mais fotos, depois só olhando de novo. Não eram exatamente fotos típicas do Marrocos, mas sem dúvida foi muito bom e gostoso estar ali.

Pensei, enquanto via o sol desaparecendo, em comprar uma garrafa de vinho e me sentar nas muralhas da cidade para acompanhar o fim do dia. Mas aqui, além de vinho não ser um produto particularmente agradável, são raríssimos os lugares que vendem álcool ou os restaurantes e bares que o servem. Nesse aspecto, o pais é extremamente conservador. Aliás, também nas roupas. As recomendações que li foram todas no sentido de não usar shorts ou bermudas e assim me comportei durante todos esses dias, foi só calça comprida o tempo todo. Para as mulheres, vale a mesma recomendação e a orientação de, no máximo, usar camisetas, mas preferencialmente usar mangas compridas. Desrespeitar essas orientações equivale a estar totalmente inadaptado à realidade local e, conseqüentemente, ser objeto de todos os tipos de olhares. No caso das mulheres, em particular, vestir-se de maneira diferente as expunha a olhares gulosos e palavras e atitudes que beiravam a agressividade, embora sem violência.

As compras constituem um capitulo à parte no Marrocos. Nisso, países árabes se parecem todos. São tantas horas e habilidades necessárias para a negociação e a barganha que eu desisto antes de entrar. O conceito de preço fixo, com uma etiquetinha pendurada, simplesmente não existe. Então, pra começar a conversa, você tem que ter, no mínimo, uma noção rudimentar de quanto vale o produto. Às vezes, você consegue isso por meio de conversas com outros viajantes, moradores locais ou em leituras. Mesmo assim, trata-se de produtos nos quais você não sabe a diferença entre um muito bom e um mal feito. Então, prá começar a conversa, você tem que pensar simplesmente se gosta ou não daquilo e quanto está disposto a pagar, no máximo. Se comprar, esqueça o preço:você só se sentirá enganado se comprar algo que não queria.

Como a minha mochila não comporta nada além do que já veio com ela, o consumismo tem passado longe de mim. Além disso, como sou mesmo muito ruim na arte da barganha, desisto de empreitadas que, antecipadamente, correm o risco de ser mal sucedidas. Mesmo assim, vez por outra dava uma esticada de olhos nos belos tapetes marroquinos. Como sei que esses são os piores artigos para comprar, sem que fossem necessárias algumas boas horas de negociação, eu desistia até de olhar pra dentro das lojas. Mas isso foi até o dia em que não resisti ao bater os olhos num tapete e, quando vi, já estava sentado no chão, tomando chá de menta, ouvindo do simpático dono da loja a estória de cada tapete, como é feito, de que região vem, as técnicas, etc. Pronto, fui fisgado. Sair dali de mãos vazias me parecia impossível. Como não sei pechinchar, e me sinto mal oferecendo preços que podem parecer insultantes ao vendedor (embora, na maioria das vezes, não seja), faço o jogo do indeciso, fico olhando, olhando, sem falar nada, e o cara vai baixando o preço. Quando senti que tava perto de algo razoável, inventei uma esposa que não ia gostar de me ver gastando tanto dinheiro num tapete e que, provavelmente, não ia gostar do tapete. Simulei uma saída para pensar e consultar a esposa, para depois voltar, mas esse golpe não pareceu convencer o vendedor que veio com uma oferta final, que me pareceu razoável e lá saí eu com um tapete em baixo do braço. O processo todo, quando feito com um cara gente boa como o que encontrei, é muito legal, e não quis saber se fui ou não enganado. Você sempre encontrará alguém com estórias do que comprou, do preço que conseguiu, depois de horas de barganha numa outra lojinha, embora os produtos nem sempre sejam comparáveis, então o melhor é curtir sua compra e esquecer-se do preço.

Em Essaouira, ao menos, há algumas lojas no centro com os preços afixados nos produtos, e não há barganha, o que já é um avanço considerável para quem está acostumado ao padrão ‘shopping center’. Infelizmente, não dá para carregar tudo que eu gostaria. Em Fes, me apaixonei pelas lindas mesas de mosaico de cerâmica, que vi sendo fabricadas, uma a uma, peça por peça, os pedacinhos de cerâmicas cortados a mão. Mas cada mesa custava uma fortuna e, naturalmente, não acreditei o suficiente no vendedor que prometia entregar a mesa na minha casa, sem que eu precisasse me preocupar com frete, alfândega ou qualquer outro aborrecimento burocrático.

Essaouira mereceria mais do que os dois dias em que fiquei. Além do surpreendente por do sol, a cidade tem muito charme, sem hordas de turistas, tranqüila, gostosa, boa comida, boa música, e o mar, sempre o mar. Ficaria aqui, facilmente, uns 3 ou 4 dias, relaxando, comendo bem, ouvindo boa musica africana, andando pelas ruas e sentando nos cafés na praça para tomar chá de menta. Mas a vida continua e há mais o que conhecer.

Finalmente, Marrakesh, a ultima parada da viagem. Por tudo que se lê, vê e ouve falar, é inevitável chegar a Marrakesh com altas expectativas, o que é sempre uma chance de desapontamento. Ao contrário de Casablanca, que cumpriu todas minhas expectativas – eu não tinha nenhuma - Marrakesh pode ser o contrário. Mas com o espírito aberto como estou, Marrakesh é tão síntese de tudo que o Marrocos pode oferecer que não creio que eu saia daqui desapontado, agora, já em direção ao Brasil, para retomar a minha vida normal, não exatamente civilizada.
Fotos em http://janelaseportas.shutterfly.com/action/pictures?a=67b0de21b3400509e451

31 de agosto de 2004

Mexico - Agosto de 2004

México, agosto de 2004

Por mais que eu evite, impossível fazer qualquer viagem sem que as idéias e imagens que sempre tive, ouvi ou li sobre aquele lugar me venham à cabeça. São idéias pré-concebidas, eu sei. Preconceitos, talvez. No caso do México, em particular, país tão conhecido e falado, que sempre esperei um dia conhecer, no momento em que me decidi pela viagem eu já tinha um conjunto grande de imagens na mente, as quais foram aumentando à medida que eu ia lendo e conversando com as pessoas. Foi assim que cheguei ao México. Cheio de idéias, expectativas, imagens e, ao chegar aqui, foi também inevitável comparar minhas idéias pré-concebidas com as que encontrei na realidade... só para constatar que nem toda idéia pré-concebida é, necessariamente, falsa ou verdadeira.

Minhas primeiras imagens do México vêm de alguns desenhos animados e filmes da infância. Esses desenhos e filmes sempre retrataram o povo mexicano com carinho, aqueles povoados no meio do nada, empoeirados, com umas dez casas, torrando sob o sol, com aqueles mexicanos sonolentos sentados sob um sombrero, vendo a vida passar. Esses povoados talvez existem, mas não os encontrei na minha viagem (devem estar próximos à fronteira norte, onde são filmadas a maior parte das produções americanas na região). Até encontrei cidadezinhas pequenas, charmosas, simpáticas, mas nada dos tais povoados desertos e empoeirados, objetos das minhas fantasias de infância.

Outra idéia pré-concebida, essa preconceituosa mesmo, é que o país era meio brega. Reforçada principalmente, agora, pelos filmes, novelas e programas infantis modernos. Trata-se, naturalmente, de uma avaliação nada politicamente correta, até mesmo porque o conceito de brega envolve uma avaliação subjetiva de culturas. No caso do México, uma cultura rica e diferenciada é vista - pelas suas roupas, músicas, decoração - como brega. Contudo, da mesma maneira que eventualmente gosto de visitar a cultura brega brasileira, adorei estar em contato com esse lado da cultura mexicana. Uma delícia sentar-me em um bar ou café, observar as pessoas, escutar estórias, ouvir as músicas em seus tons desesperadamente dramáticos, observar as roupas e combinações coloridas de homens e mulheres, assistir às famosas novelas mexicanas (algumas retransmitidas pelas emissoras brasileiras). Isso é o México.

À medida que escrevo, me dou conta de como o México é presente no imaginário dos brasileiros, bem mais do que outros países latinos vizinhos. Outra idéia pré-concebida é a de um país de machões. Parece um pouco mesmo, do que vejo, do que converso com motoristas de taxi, do que leio nos jornais. Há aqui um tipo de bar muito comum, as cantinas. Até poucos anos atrás, a maioria das cantinas proibia mulheres e crianças. Hoje mudou um pouco, mas muitas mantêm o hábito. Entrei numa delas outro dia. Só havia homens, todos com cara de mau, do tipo que vemos nos filmes, enchendo a cara e, pasme, jogando dominós. Não é fantástico? Pedi uma cerveja Corona e o garçom me olhou com uma cara meio estranha, mas trouxe. Depois vim a descobrir que Corona é cerveja pra turista, fraquinha. Não é coisa de macho. Acho que eu teria feito mais sucesso se tivesse pedido um mezcal, um tipo de tequila pra macho.

Ao mesmo tempo em que cultua uma imagem de paíse de machões, tem um outro lado da cultura mexicana, que conheci por leituras, relatos e conversas com amigos (mexicanos e brasileiros casados com mexicanos), que falam de uma sociedade altamente matriarcal, onde a “madrecita” tem um papel fundamental na estrutura familiar, conduzindo a ferro e fogo os destinos de cada membro da família. Essa parte, naturalmente, não é visível aos olhos do turista, mas me recordo bem de alguns relatos hilários e dramáticos, especialmente de amigas que se aventuraram em relações com homens mexicanos.


Sobre a comida, vim imaginando encontrar apenas coisas muito apimentadas. Sem dúvida, há muito disso, e o tal do chili abunda em qualquer restaurante ou cantina. Mas basta perguntar, buscar, e se encontram opções bem interessantes sem precisar sair cuspindo fogo. As opções também coincidem com um pouco do imaginário construído nos restaurantes e bares mexicanos visitados pelo mundo: tortillas, quesadillas, tacos, guacamole, etc. O tal do mole é um molho que pode ser feito de varias maneiras, o mais famoso em Oaxaca é o mole negro, que inclui, entre 32 especiarias, o chocolate. E jogam isso tudo por cima de um peito de frango com resultado acima da expectativa (não, nem tem gosto acentuado de chocolate). Em Oaxaca, o prato mais delicioso foi a botana oaxaquena, uma mistura de tudo que se faz na região: tem tortilla, taco, carne de boi, de porco e de galinha, mole, quesillo (um queijo parecido com queijo coalho, comum na região), guacamole, frijoles (tutu de feijão). Fantástico... e ninguém vai poder dizer que comer aquilo tudo não é coisa pra macho!

Mas diferente mesmo, foram os Caracoles al Mole, pedido feito pela minha amiga Dora e pelo seu filho José Ricardo, na Cidade do México. No meu espírito aventureiro, que só veta, em princípio, crustáceos (pela alergia) e berinjelas (pelo odioso gosto), nem perguntei o que era, ela pediu, deixei vir. Os tais caracoles são lesmas, amigáveis lesmas, banhadas num indecifrável molho escuro. Lesmas dentro de suas casquinhas duras. Você pega as lesmas, uma a uma, nas suas conchinhas e, com um palito, retira o bichinho lá de dentro e come. Eu sei, a descrição não ajuda e a aparência ajuda menos ainda. Mas é gostoso. O ruim é que cada vez que eu enfiava o palito lá dentro e puxava o bicho ficava com medo de que o bicho viesse se mexendo. Mas é gostoso. No fim, não devem ser muito diferentes dos chiquérrimos escargots da culinária francesa.

Um dos aspectos mais fascinantes da cultura mexicana é a forma como as civilizações Maya e Azteca ainda se fazem presentes. Contrariamente ao que eu acreditava, a civilização Maya, com uma rica história de quase 3000 anos, nunca "desapareceu", pois ainda há remanescentes que vivem na região (não só no México) e muitos deles ainda falam dialetos da língua original. De maneira geral, porém, essas duas civilizações antigas foram praticamente dizimadas em pouco mais de dois anos por um pequeno grupo de invasores espanhóis. Eles destruíram o império Azteca, trouxeram uma nova religião sob as bênçãos do Papa e reduziram os povos nativos a cidadãos de segunda classe e escravos. Não muito diferente do que tivemos no Brasil em nosso processo de colonização.

Hà muitos turistas no México, a maioria europeus –em geral mochileiros – e americanos - geralmente famílias de meia idade. Sem surpresa, soube que a grande maioria dos brasileiros que visitam o México se concentra em Cancun, cidade da qual passei longe. O turismo é uma grande fonte de renda do México e, com exceção do desapontador aeroporto da cidade do México, a estrutura turística é bem decente e o México está muito mais preparado para receber os turistas do que o Brasil.

Fiz algumas viagens de ônibus, inclusive algumas bem longas (12 horas). Os ônibus executivos são super confortáveis, reclinam a cadeira quase que totalmente, têm serviço de bordo e praticamente não param. Compram-se as passagens pela internet, por telefone ou na agência, sempre com a visualização de um mapa na tela, que mostra os assentos ocupados e a posição em relação aos banheiros (um para homens, outro para mulheres, sempre limpos) e em relação aos 4 ou 5 aparelhos de televisão que ficam distribuídos pelo ônibus, em alto volume, passando filems de terceira categoria, em alto volume. Ainda bem que, já sabendo disso com antecedência, tinha comigo meus providenciais tampões de ouvido.

A surpresa em um desses ônibus foi acordar com uma voz que me parecia português e constatar, emocionado, que passava o belíssimo filme brasileiro Abril Despedaçado (retiro o comentário acima sobre os filmes de 'terceira categoria'. Quase me levantei para acordar os passageiros e alertá-los sobre o fantástico filme que estavam perdendo, mas me contive e voltei a dormir, assistindo entre um cochilo e outro alguns trechos das belíssimas cenas do filme.

Viajar nos confortáveis ônibus mexicanos, embora mais lento, é sempre mais interessante do que de avião, dá para ver o cenário, conversar com as pessoas, ver como as coisas funcionam. Afinal, de que outra forma eu poderia ver, no meio da estrada, uma 'peregrinação ciclística', centenas de ciclistas, a maioria homens, carregando crucifixos nas costas, seguindo carros com imagem de uma santa, numa rodovia principal entre a Cidade do México e Oaxaca?

Para me locomover para alguns povoados menores, como os que visitei perto de Oaxaca, simplesmente arranjei um motorista de taxi para ficar comigo durante o dia. Essa opção, embora mais cara, me permitiu não só visitar os povoados como ter a chance de bater um bom papo com o motorista, um jovem de 27 anos que se queixava de que a namorada insiste em se casar após 4 anos de namoro. Desconsolado, ele me dizia: 'mira, há tantas mulheres por aí, o que vou fazer casado?'.

Para me hospedar, procurei ficar em hotéis e pousadas menores, de poucos quartos, onde é mais fácil encontrar e conhecer gente. Para muitos mochileiros radicais, eu devo ser visto como o mochileiro "mauricinho", por estar sempre em hotéis com banheiro privativo, viajar de ônibus executivo e eventualmente alugar um táxi para passear. O principal problema desse tipo de hotéis em que procuro me hospedar é que, sempre, preciso confirmar se tem banheiro privativo ou não - a maioria não tem - e se tem água quente. Você sabe em que tipo de hotel está quando a recepcionista anuncia, orgulhosa, que há água quente 24 horas por dia. Apesar disso, escolho sempre hotéis charmosos, limpos e bem localizados, embora pessoas de senso estético apurado possam não se sentir muito felizes dentro dos quartos, alguns pintados a mão com alegorias de gosto duvidoso.

Viajar sem planos e resolvendo e decidindo tudo em cima da hora é ótimo, mas de vez em quando surgem uns contratempos. Quando cheguei em San Cristobal de las Casas, eu tinha uma recomendação de um hotel super maneiro, baratinho, mas que, descobri, só tinha vaga para o dia da minha chegada. Arrisquei ficar na esperança de que, no dia seguinte, rolasse uma desistência. Não rolou. Tive que sair às pressas, pelas ruas da cidade, procurando um hotel, visto que às 9 da manhã eu saí para um passeio de dia inteiro. Poucas opções, os melhores todos ocupados, acabei achando um que me pareceu legal, a mulher me mostrou rapidamente o quarto, que estava uma zorra porque hóspedes tinham acabado de sair, mas ela me assegurou que até a hora em que eu voltasse, no fim do dia, estaria "una beleza". Deixei minha bagagem na recepção e saí, só voltando quase 8 da noite, louco por um banho, uma comidinha e minha caminha.

Foi então que conheci, verdadeiramente, o quarto que tinha alugado. Ele estava arrumado, como prometido, mas o problema não era esse. O quarto era feio, muito feio. Os lençóis e fronhas deviam ser de três gerações anteriores, feios, encardidos, puídos. O colchão era um pedaço de espuma amassada, a cama rangia o tempo todo. O quarto tinha cheiro de mofo. O banheiro, era feio e mal cuidado. Do chuveiro, caíam 5 filetes de água, um para cada lado, encharcando todo o banheiro, e até parte do quarto, já que não havia cortina no que supostamente seria o boxe do chuveiro. Minha primeira vontade foi sair dali para um outro hotel, mas àquela hora da noite, depois de um dia inteiro exaustivo, e já sabendo que não havia fartura de acomodações na cidade, fiquei com preguiça. Deitei-me, dormi imediatamente, e felizmente a noite passou rápido, até mesmo porque às 5 da manhã eu já estava de pé pra ver se acabava logo com essa tortura. Como recompensa, no dia seguinte dei um significativo upgrade e me mudei, sem me preocupar com o preço, para um dos mais charmosos e diferenciados hotéis da região, uma lindíssima e confortável casa histórica restaurada.

O roteiro da viagem foi sendo feito a cada dia. Minha idéia inicial era me concentrar só em Oaxaca, e explorar a região. Mas aos poucos fui sentindo que teria muito tempo para isso, então comecei a pensar, a ler e a conversar sobre outras opções. Além do mais, Oaxaca vivia um clima de forte tensão pós-eleitoral. Cenas conhecidas. Um partido dominante há muitos anos, uma coligação formada para derrubá-lo. Durante todo o período pré-eleitoral, o governador em exercício foi acusado de usar a máquina administrativa a favor de seu candidato. Campanha eleitoral agitada, cheia de acusações, brigas, protestos. Os resultados mostraram uma diferença de menos de 0,5% a favor do candidato governista. Acusações de fraude, mais protestos. Brigas nas ruas, protestos nada amistosos, manifestações em frente ao palácio do governo, ao tribunal eleitoral. Ninguém se conforma, parece que vem mais agito por aí. Dizem que pode rolar um toque de recolher. Então, melhor mesmo que eu fosse vazando dali. Foi assim que me vi na fila para comprar uma passagem de Ônibus para San Cristobal de las Casas, já na região dos Chiapas, quase na selva onde o movimento zapatista se esconde, que sequer fazia parte dos meus planos originais de viagem.

Nessa região, dos Chiapas, surgiu e está localizado o Movimento Zapatista, um interessante movimento popular, que conta com simpatia da população e certa 'boa vontade' do poder público, que defende uma gestão democrática do território, a participação direta da população, a partilha da terra e da colheita. O movimento, embora ilegal, é "tolerado" pelas autoridades, especialmente por se localizarem numa região montanhosa e de selvas nas quais ninguém se arrisca muito. A região, por sinal, é belíssima, e a viagem culminou com uma visita a Palenque, umas impressionantes ruínas Mayas localizada no meio da selva).

Não importa quantas imagens e idéias pré-concebidas eu tivesse anteriormente do México - e todas elas, verdadeiras ou falsas, contribuem para o encantamento com esse país - a visita aqui, se realizada fora do circuito essencialmente turístico, revela muitas surpresas. Surpresas gastronônomicas, artísticas, culturais, pessoais... sem falar nas belíssimas riquezas naturais do país. É, definitivamente, um país que merece ser explorado e observado... com tempo, sem pressa... de preferência, sentado sob um sombrero, observando o mundo passar.

5 de abril de 2004

Coréia, Abril de 2004 - O Banheiro


No meu primeiro dia em Jeju, Coréia, não pude deixar de lembrar-me do meu primeiro contato com a tecnologia sanitária desses países orientais avançados, ocorrido no Japão, em 1996. Repeti na Coréia o mesmo sentimento de idiotice e atraso que tive no Japão, ao me deparar com a ignorância do ser que não sabe usar um assento sanitário. Estava frio, muito frio, e sentar num vaso frio, quando já está muito frio, é sempre um sacrifício. Mas não, o assento é quentinho, deliciosamente quentinho, o suficiente para você querer ficar ali mais tempo. E assim fiquei, até que, encerradas as atividades que ali me levaram, fui dar descarga no vaso. E onde estava o botão da descarga? Procurei, procurei, até que meus olhos se depararam com um painel ao lado do vaso, cheio de botões e suas respectivas instruções, na língua local, é claro. De pé, com o espírito curioso que move o ser humano, apertei o primeiro botão. Um jato de água veio na minha cara e eu fiquei pensando onde ele iriar parar caso eu estivesse sentado. Apertei o segundo botão e o esguicho de água moveu-se para uma outra posição, de onde jorrou um novo jato. Resolvi apertar o terceiro botão, achando que não havia mais surpresas e, le voilà, de onde saíram os jatos de água saía agora um ventinho quente que, imaginei, fosse destinado a secar os jatos de água. Com medo de continuar me aventurando (ainda havia mais 15 botões, como pode-se ver na foto), resolvi ligar pra uma colega no quarto ao lado e perguntar, constrangido, se ela sabia onde dar descarga. Como mulher é muito mais esperta em coisas de banheiro do que os homens, ela simplesmente respondeu "na válvula atrás do vaso", que de fato existia, de maneira tão simples e tão independente daquele painel de alta tecnologia. Não sei até hoje se um dos 15 botões restantes não faria o mesmo serviço, mas resolvi deixar a exploração de lado, com medo de acidentes ainda mais constrangedores.


Algum tempo mais tarde, recebi pela internet uma piadinha que transcrevo aqui, por refletir bem esse ar de bestificação com que nós, brasileiros, podemos nos deparar nesses ambientes hi-tech:


"Uma senhora faz sua primeira viagem ao Japão! Tudo era novidade! Hospedou-se num luxuoso hotel 5 estrelas. Ao chegar em sua suite, sentou-se naquele luxuoso banheiro e, ao terminar, notou que faltava papel higiênico.

Revoltada, indignada, de dentro do banheiro mesmo interfonou para a recepcionista:

- Minha filha, isso é um absurdo, um hotel dessa categoria sem papel higiênico?!

- Desculpe-me senhora, não usamos mais esse tipo de material em nossos hotéis. Veja o painel ao seu lado. Aperte o primeiro botão à esquerda.

Ela, curiosa e sem graça, seguiu as instruções e, imediatamente, um delicioso jatinho de água morna foi esguichado em sua perereca.

- Senhora, agora aperte o segundo botão, ao lado.

Ela seguiu as instruções e, imediatamente, um ventinho quente rapidamente secou suas partes baixas, e exclamou:

- Que maravilha! Muito obrigado.

Mas a recepcionista lhe disse:

- Não acabou ainda, senhora. Aperte agora o terceiro botão.

Ela apertou e, maravilhada, viu uma borrifada de um delicioso perfume ser lançado entre suas pernas. Deslumbrada com toda aquela tecnologia, ela não se conteve e gritou em voz alta:

- C a r a a a a a a a l h o!

E ouviu como resposta da recepcionista:

- É só apertar o botão vermelho, senhora!"

4 de abril de 2004

Coréia, abril de 2004

Depois de passar uma longa temporada de viagens a trabalho sem chance de conhecer mais do que o hotel ou o centro de convenções, a inesperada esticada em Seul, Coréia, foi o ponto alto de uma reunião de trabalho em Jeju. Jeju é uma ilha famosa na Coréia e no exterior (bom, isso eu descobri depois) pelas suas belezas naturais, mas não me atraiu nem um pouco. Um turismo baseado em grandes resorts, de custos elevadíssimos, orientado a turistas de países ricos (a maioria japoneses), que não se incomodam de hospedar-se em uma ilha longe da vida e da população local do país. Até existe uma vila na ilha mas o visitante raramente precisará ou terá a chance de vê-la. Eu mesmo, durante três dias, apenas vi o meu hotel e os hotéis no caminho do belíssimo e eficiente centro de convenções de Jeju. Restaurantes, apenas os de hotel. Assim, quando vi que teria a chance de dar uma esticadinha de três dias, para o que escolhi Seul, a capital, deleitei-me ao ver uma cidade de verdade, com gente, ruas, comércio, restaurantes, e tive a sensação de que sair da Coréia sem essa chance teria sido uma grande injustiça na minha avaliação do país.

Infelizmente, não pude me preparar como gostaria para esses três dias em Seul. Visitar a Coréia requer conhecer, ainda que por alto, o que é o país, sua história, sua cultura, seu povo, sua religião, sua língua, sua arte. Eu sabia pouco, insuficiente para viver com mais intensidade esse outro lado do mundo que, como outros países asiáticos, mistura a modernidade com a tradição em cada esquina. Castelos, cenários de histórias de reis e dinastias, templos budistas e confucionistas, rituais milenares, restaurantes e casas de chá tradicionais, misturam-se com edifícios e automóveis modernos, sistemas de comunicação sofisticados, cadeias americanas de fast food e intrigantes vasos sanitários eletrônicos. Com tudo isso, mesmo sem conhecer previamente tudo que eu gostaria, essa parada não deixou de ser fascinante.

Em meio a tantas diferenças culturais, o maior obstáculo para um viajante na Coréia é, sem dúvida, a língua. Poucas pessoas falam um inglês minimamente compreensível, o que tornou em acessório quase inútil essa suposta ferramenta universal. A linguagem corporal, alternativa a que se apela nessas condições, nem sempre trazia bons resultados, conseqüência de significativas diferenças nos códigos culturais dos dois países. Me via algumas vezes, com gestos patéticos, e me deprimia ao olhar para o meu interlocutor e perceber que ele não entendia nada. Para piorar, o alfabeto coreano não facilita a tarefa de leitura, de localização de ruas ou de busca num dicionário. Tive que ter muito bom humor – não havia outro jeito – para lidar com cada situação do dia-a-dia.

Nos restaurantes, os cardápios raramente são escritos em inglês. Os garçons, apesar de sempre solícitos, não conseguem ajudar. Felizmente, encontrei um americano, trabalhando na Coréia, que escreveu em coreano, num pedaço de papel, que sou alérgico a frutos do mar, uma presença constante na comida local. Com todos esses cuidados, minha primeira noite num restaurante, acompanhado de amigos do trabalho, foi divertidíssima. Muito compenetrado, comecei a fazer perguntas sobre os pratos do cardápio. Depois, comecei a perguntar sobre os pratos que via nas mesas ao lado. Quando senti que estava pronto para fazer os pedidos o garçom saiu da mesa. Esperei para que ele voltasse e, quando ele começou a despejar pratos sobre a mesa, constatei que minhas perguntas tinham sido entendidas como pedidos. Um deles, inclusive, uma maravilhosa panqueca de frutos do mar com a qual se deleitaram meus companheiros. Passei, a partir daí, a tomar mais cuidado com as minhas perguntas.

As dificuldades de comunicação em inglês eram tão grandes que, a um ponto, comecei a falar sempre em português, às vezes com melhores resultados do que em inglês. Da mesma maneira, fingia que entendia quando os coreanos se dirigiam a mim em sua língua, sorrindo para eles e dizendo ‘yes’ a tudo, como eles fazem normalmente. O ponto alto dessa comunicação esdrúxula foi num desses restaurantes em que o garçom prepara a comida na sua frente. Ele vem, fica mexendo na panela, explica tudo em coreano, eu só falo ‘yes’, ele vai lá dentro, volta, mexe de novo, fala alguma coisa, eu falo ‘yes’, ele vai embora de novo, e você fica com aquela comida na sua frente sem saber se ele falou que já pode comer ou se você deve esperar alguns minutos para terminar de cozinhar.

No quarto do hotel, uma televisão de alta tecnologia apresentava mais de 40 canais, sendo 39 em coreano ou em japonês, o que para mim dava no mesmo. O canal em inglês era dedicado a negócios. Nos táxis, a aventura era ainda mais complexa, porque o sistema de endereçamento coreano é famoso por ser incompreensível até para eles. Por isso, a qualquer lugar que se vá, que não seja um ponto de referência conhecido, a apresentação de um mapa ao motorista é condição essencial, não só porque você não fala a língua dele, mas porque, mesmo que falasse, não ia conseguir fazê-lo chegar onde você quer. O melhor exemplo era o nosso hotel que, apesar do mapa fornecido pela recepção, jamais foi encontrado por nenhum motorista de táxi – todos me deixavam no ponto mais próximo a que conseguiam chegar, com base nas referências do mapa, e a partir daí eu ia a pé. Nas lojas, desisti de tentar fazer perguntas do tipo ‘de que é feito’, ‘de onde vem’e curiosidades do gênero e limitava-me ao universal ‘quanto custa?’ (esse eles entendiam!).

A região em que fiquei hospedado é, de longe, a mais atraente de Seoul: no centro da cidade, próximo à rua Insadong. Insadong é um verdadeiro museu ao ar livre. Uma rua com várias ruelas secundárias, onde se misturam restaurantes tradicionais, charmosíssimas casas de chá, galerias de arte e lojas de artesanato – desde as sofisticadas às quinquilharias. Difícil não ficar tentado a fazer extravagâncias com as belíssimas peças de porcelana, cerâmica, barro, papel, mármore. Em Insadong há raríssimos ocidentais, ainda menos que em outras partes de Seul mais ‘ocidentalizadas’. Os turistas, se existem, são japoneses, que não consigo diferenciar dos coreanos, seja na aparência física ou na língua. Essa rara ausência de ocidentais me tornou, contra o meu desejo, em uma figura facilmente reconhecível onde quer que eu voltasse, especialmente nas lojas.

Saindo de Insadong para visitar castelos, museus, templos, mercados de rua, percebe-se um país organizado, limpo, seguro. Os índices de criminalidade são baixíssimos, o que permite o luxo de ficar andando de noite mesmo em áreas que, em outra cidade, me dariam medo. Creio que o visível policiamento ostensivo em toda a cidade é mais para repelir as esporádicas manifestações políticas do que para reprimir a violência, mas não deixa de ajudar. A segurança e a limpeza estendem-se a um mercado de rua aberto 24 horas, Namdaemun, onde mais de 3000 lojinhas vendem de tudo um pouco - inclusive as inevitáveis grifes falsificadas - sem a insuportável necessidade de ficar pechinchando por coisas das quais você não tem a menor referência de valor. Não há menção, ali, à existência de trombadinhas ou de pedintes nas ruas.

O metrô da cidade é outro símbolo da limpeza, da ordem, da segurança e da eficiência coreanas, super abrangente, cobrindo toda a cidade – dá inveja em brasileiros! E, ainda no trânsito, não posso deixar de mencionar os motoristas de táxi sempre honestos e educados e, símbolo máximo de civilidade, a sensação de me ver dentro de um táxi na hora do rush, cercado por milhões de outros carros impedidos de se locomoverem pelas condições do transito, e simplesmente não ouvir buzinas. Inevitável me perguntar se toda essa ordem vem de uma recente ditadura militar ou se provém de hábitos de uma população historicamente disciplinada, educada, dotada de outros valores, padrões e códigos de conduta.

Aos poucos, fui lendo, conversando e conhecendo um pouco mais sobre o País que, no seu formato atual, foi criado há pouco tempo, logo após o fim da II Guerra Mundial. Logo após sua criação, passou por uma devastadora guerra com a Coréia do Norte, cujas marcas são até hoje visíveis em tudo que se faz e se vê e que cria uma tensão permanente entre os dois países. Sem qualquer juízo de valor, impossível não me perguntar o que faz um país como a Coréia ter um desenvolvimento econômico e social tão intenso e rápido enquanto nos resignamos no Brasil à já irritante noção de ‘país do futuro’. Há cerca de vinte e poucos anos, o governo coreano propôs um modelo de desenvolvimento para o país: investir pesadamente em educação – o que resultou num nível de analfabetismo próximo de zero – e priorizar duas áreas industriais – informática e comunicações e química fina. O modelo parece ter funcionado, a se julgar pelo que se vê, se lê e se ouve no país. Isso não quer dizer que seja tudo perfeito, e a política local nos é bastante familiar, dominada pelos pouquíssimos grupos econômicos que controlam o país, por freqüentes acusações de corrupção e, atualmente, marcada por um processo de impeachment do presidente do país.

Um capítulo à parte para o Memorial de Guerra da Coréia, uma criação impressionante e inacreditável em todos os sentidos, enorme e sofisticada, concebida para armazenar um museu que relembra a história das guerras de que participou a Coréia. Do lado de fora, aviões, helicópteros, submarinos e tanques originais. Por dentro, um assombroso show de recursos visuais, auditivos e tecnológicos que asseguram intensidade e realismo às reconstituições que ali se fazem. Há até mesmo uma simulação de um campo de batalha, em que você se vê, sente, ouve e cheira como se na guerra estivesse. As contradições desse ambiente são flagrantes. A música que ecoa pelos jardins repletos de máquinas de guerra é uma apaziguadora música clássica. Num museu de temática tão ‘adulta’, a maior parte do público eram crianças, fotografadas por seus pais enquanto posavam alegres ao lado de canhões e bombardeiros. Lá dentro, uma ala do museu é voltada especificamente às crianças.

É difícil para um brasileiro fazer qualquer juízo de valor sobre as atitudes e valores de um povo que foi atingido por guerras tão fortes em diversos estágios de sua existência. Difícil, também, enxergar, nos simpáticos e tranqüilos coreanos com que me encontro no dia-a-dia, os bravos soldados retratados na história das guerras. Por isso, não posso concluir se esse memorial, que me causou ao mesmo tempo admiração e repulsa, ao assegurar a memória das guerras coreanas, é a banalização da guerra – transformando-a num tema objeto de brincadeiras infantis – ou a sua sacralização, com a correspondente atribuição de importância que merece na história e na formação do país.

Entrando em temas mais leves, a ida a um restaurante ou a uma casa de chá coreanos é um estímulo a todos os sentidos. Começa pela visão de um ambiente simples, despojado, sóbrio, mas aconchegante e de extremo bom gosto. O aquecimento dos lugares – sim, esqueci de dizer que a Coréia é muito fria - utiliza o tradicional sistema ondol, em que os pisos são aquecidos por baixo, o que torna ainda mais agradável a sensação de comer sentado no chão ouvindo uma relaxante música coreana. E, na hora de comer, começam a vir aqueles pequenos pratinhos de comida, sopa, grelhados, legumes, vegetais, saladas, todos servidos numa combinação visual bastante interessante, a maioria saborosos e não identificáveis, mas sempre incluindo o identificável e inicialmente intragável kimchi (acelga apimentada, uma espécie de prato nacional).

A melhor dessas experiências foi no Sanchon, um restaurante vegetariano budista, cujo proprietário é um antigo monge - uma verdadeira orgia gastronômica e visual. Mas nem mesmo ali consegui comer alguma sobremesa, simplesmente ausente das refeições coreanas. Por isso, meus jantares terminavam numa das inúmeras casas de chá da rua Insadong, qualquer uma delas – todas são charmosas, acolhedoras, com decoração suave e boa música. Todas têm o mesmo cardápio, chás, apenas chás, e nelas as pessoas se reúnem apenas para isso, tomar chá. Algumas poucas ainda oferecem um docinho, mas preferível seria ter escapado à tentação de experimentar o intragável e sem graça bolinho de arroz (só comparável em mal gosto ao doce de feijão japonês).

E por falar em prazeres, não poderia deixar de mencionar minha última noite em Seul. A fim de ficar mais próximo do transporte para o aeroporto no dia seguinte, que seria muito cedo, me mudei de hotel. Na recepção, não notei nada, mas quando encontrei uma cama redonda no meu quarto, percebi que não era exatamente um hotel convencional. Depois, fui percebendo os espelhos, o forro de plástico na cama, a recepção sempre cheia de casais recebendo e devolvendo chaves, e concluí que estava num motel em pleno centro da cidade. A recepção é disfarçada (no máximo, me dei conta depois, ficava próximo a alguns inferninhos locais), mas o quarto tem até uma luzinha vermelha (aliás, minto, SÓ tinha uma luzinha vermelha). E, à noite, finalmente, nos quartos vizinhos, consegui ouvir dos coreanos ruídos mais compreensíveis do que os emitidos por eles quando tentavam conversar comigo. O único inconveniente foi passar a noite com frio, uma vez que a única coberta disponível era um cobertor que, provavelmente, não era lavado desde a inauguração do m(h)otel. A parte boa foi descobrir que, nesse quesito, estamos mais perto dos asiáticos do que dos norte-americanos, que simplesmente ainda não descobriram esse conceito de motel.


Enfim, fantástico estar em Seul, a despeito de minha relutância e preconceito com relação às cidades grandes. Seul tem seu encanto, que resiste aos padrões forçados da globalização. É um país onde pude ver, conhecer, comer, sentir, ouvir, apreciar artes, culturas, comidas, músicas – coisas diferentes de tudo que já havia encontrado em outros lugares. Enquanto for assim, não perco a capacidade de me deslumbrar com o novo. Ainda não entrei na assustadora fase de acreditar que não tenho mais o que conhecer ou de achar que tudo se parece. Por isso, renovo-me nessa viagem. E com a renovada capacidade de me deslumbrar.

27 de julho de 2001

Jalapão, 15 a 20 de julho de 2001

Por sugestão da Maristela, minha primeira viagem pelo Brasil, logo após minha temporada de um ano e meio fora do País, foi no Jalapão, um nome que, até então, eu jamais havia ouvido falar. Mesmo para quem conhece bastante o Brasil, o Jalapão não se parece com nada que eu já tivesse visto anteriormente. Localiza-se ao leste do Estado de Tocantins, na transição entre o cerrado e a caatinga, uma região formada por rios de águas translúcidas, cachoeiras, oásis, veredas e dunas de areia (as únicas no Brasil fora do litoral), e que tem atraído crescente número de amantes da natureza e de esportes radicais. Também conhecida como deserto do Jalapão, pelo seu solo predominantemente arenoso, tem uma densidade populacional de apenas 0,8 hab/km² (contra uma média nacional de mais de 20), sérias deficiências de infra-estrutura – energia, telecomunicações, saúde, educação e se aproxima bastante do Brasil de verdade, esse que a maior parte de nós desconhece.

Roda-se muito até chegar no Jalapão – 650 km de Brasília até Ponte Alta, a porta de entrada da região – mas roda-se mais ainda na região, onde tudo é muito distante, numa extensa área ainda pouco tocada pelo homem. Tivemos durante todos os dias a região inteira praticamente a nossa disposição. Nos poucos dias que ali ficamos, rodamos quase 1000 km de areia, terra e mato, só percorríveis a bordo de um carro apropriado, o que terminou sendo um ótimo teste de estréia para o meu recém-comprado jipinho.

Andamos por lugares tão remotos e isolados que desejei, várias vezes, estar fazendo a viagem acompanhado de pelo menos mais um carro. Qualquer pane ali no meio do nada seria fatal, isolados que estávamos de qualquer traço humano e, naturalmente, sem rastro de sinal no celular. O consolo é que ficaríamos perdidos rindo muito, uma vez que bom humor foi a tônica da viagem. Maristela é uma grande companheira de viagem, eficiente navegadora, apesar de, como mulher que se preze, ter viajado com a nécessaire, cheia de cremes Lancôme para cada parte do corpo, com o seu inseparável travesseirinho de macela, e ter-se esquecido do sabonete, dos óculos de leitura, do carregador do celular, ter-me feito desviar por uns 40 km depois de confundir no mapa Dianópolis com outra ´pólis´ qualquer e, na hora do pneu furado, ter atribuído a um erro de tradução no manual do japonês para o português sua incapacidade de distinguir entre uma saliência e uma reentrância. Seu bom humor, sua presença de espírito, sua disponibilidade e flexibilidade para uma viagem pouco confortável e previsível, sua língua afiada, nossas conversas, tudo tornou a viagem ainda mais agradável. Definitivamente, o Jalapão não é uma viagem para carregar ´malas sem alça´.

Nossa base de entrada no Jalapão foi a cidade de Ponte Alta, à qual se chega depois de uns 120 km de estrada de terra em precárias condições (vimos depois que a cidade de Mateiros, um pouco adiante, poderia constituir-se numa base mais adequada para explorar a região). A estada no Hotel Planalto, da dona Lázara, porém, torna a estada em Ponte Alta extremamente prazerosa. D. Lázara e seu marido saíram de São Paulo por causa da violência urbana, manifestada numa série de eventos contra seus familiares e seus negócios. Ela, uma goiana do interior, que impressiona pela simpatia, pelo dinamismo com que gerencia o hotel, pela liderança que exerce sobre a população local, pelo conhecimento e pela consciência sócio-ambiental, pela lúcida visão dos negócios, do turismo na região, da política local e, é claro, pela deliciosa comida que faz (incluído, aí, o inesquecível ‘pingo’, doce de leite com açúcar queimado).

D. Lázara não foi, porém, a única figura interessante que encontramos pelo caminho nesses dias. Tatiana, a simpática e sedutora garçonete, dona e hostess do quiosque à beira-rio onde tivemos nossa primeira refeição no Jalapão – vestida num minúsculo biquíni escondido (escondido ?!) por um vestido de rede de pescador, serviu-nos lauto jantar – arroz, feijão, macarrão, frango, bife acebolado, batata frita, salada –, precedido de fatias de caju e laranja da terra. Seu Bonifácio, o guia que se perdia porque, segundo ele, ´andam construindo muitas estradas por aí´ e a quem eu, num momento de distração, pedi que tirasse uma foto nossa, logo ele que não tinha nenhuma das mãos.

Nossos dias começavam bem cedo, o que não era problema para quem dormia sempre tão cedo, dada a absoluta inexistência de opções que nos mantivessem acordados até mais tarde. Apenas no primeiro dia, foram 250 km de estradas que incluíram passeios à Lagoa Azul, linda com os buritis à sua volta, mas imprópria para banho; a praia do Rio Novo, com extensão de areia que fazia lembrar o mar, suas águas límpidas e tranqüilas, ótimas para banho; a impressionante Cachoeira da Velha, na verdade duas cachoeiras em forma de ferradura, oferecendo um espetáculo e um volume de água inacreditáveis para uma época de estiagem; o Brejo da Cama, outra bonita cachoeira; uma tentativa frustrada de alcançar a Cachoeira do Lajeado – seu Bonifácio se perdeu; e, por último, Sussuapara, um magnífico cânion de 60 metros de comprimento, 15 m de altura, por onde corre um fio d´água, e sobre cujas paredes forma-se um impressionante mosaico de samambaias. Belezas demais para descrever em algumas linhas ou para conseguir retratar numa fotografia.

O fim do primeiro dia acabou marcado pelo divertido episódio do pneu furado, em que ficamos por algum tempo no meio daquela estrada empoeirada tentando achar a tal da saliência onde encaixar o macaco (que Maristela julgava ser uma reentrância), buscando respostas no manual do carro. Apesar de nossas óbvias dificuldades, recusamos com muita dignidade, para não pagar mico, as ofertas de ajuda dos jipeiros que paravam – afinal de contas, se não déssemos conta de trocar um pneu, o que estávamos fazendo ali? Mas depois de tudo resolvido, já no hotel, o mico maior acabou sendo quando um outro jipeiro veio me perguntar se eu tinha rádio no carro e eu, muito animadinho, respondi que sim, que tinha um rádio AM/FM com CD, enquanto o companheiro, muito desconsolado, me lembrava que o que ele queria era um rádio de comunicações.

Se o Jalapão é remoto é inexplorado, nosso segundo dia contemplou lugares ainda mais remotos e inexplorados dentro do próprio Jalapão, fora do circuito convencional – a região entre Pindorama e Ponte Alta. Para isso, utilizamos como guia o Aldo, um rapaz que conhece muito bem toda aquela região mas que, por conta de sua timidez, quase perde a função de nosso guia para um outro que, no início do dia, alardeava seu próprio saber e conhecimento da região. Fiquei tão impressionado com a habilidade e o potencial de Aldo para atuar como guia que, lembrando-me do episódio da manhã, disse-lhe “Aldo, você tem que ser mais ousado para trabalhar como guia, tem que dar o seu currículo”. Eu, que normalmente sou cuidadoso no uso da linguagem com pessoas mais simples, dessa vez extrapolei e o coitado do rapaz ficou bastante acabrunhado com minha sugestão, como quem diz ´sou pobre, mas se tiver que dar o currículo eu deixo de ser guia´.

Esse segundo dia incluiu a Lagoa do Caldeirão – enorme, cercada de florestas e buritis, águas de absoluta transparência, que nos propiciou um longo e revigorante banho; a belíssima Cachoeira do Rio Soninho; um ponto do Rio Soninho ótimo para banhos e hidromassagem; o Brejo do Boi, um estupendo e imponente cânion, que se abre para receber as águas de uma queda d´água e abrigar uma floresta fechada, um local onde chegamos por meio de uma trilha que, de tão antiga e sem movimento, praticamente não existe mais, apenas mato, galhos, árvores; finalmente, o Morro da Pedra Furada, com suas belas formas e janelas desenhadas pela ação do vento e da chuva.

Ao fim do dia, no hotel, cansados e sem pressa, nos deliciávamos com as estórias e as conversas de Dona Lázara, enquanto ela cozinhava, sem desconfiar que ela não estava à toa na vida como nós. Sem muita sutileza, ela nos sugeriu que fôssemos passear no rio, ver a cidade, comprar artesanato, qualquer coisa que a deixasse livre para preparar o jantar que iríamos comer mais tarde. Parecia mãe mandando filho brincar para não atrapalhar o serviço de casa. Valeu a pena sermos enxotados – a comida de D. Lázara é deliciosa, uma mistura do tempero mineiro e do goiano, um ensopadinho de carne com batata, macarrão, feijão, arroz, salada, frango ensopado, e uma cerveja geladinha para acompanhar. Não faltou, ainda, por uma sutil sugestão minha, um delicioso docinho caseiro. Depois de tudo isso, só nos restava purgar nossas culpas andando à noite pela cidade para digerir os excessos.

Ponte Alta é a típica cidade do interior, com seus 6000 habitantes, infra-estrutura mínima, dois hotéis simples, poucos restaurantes, nenhum banco, ausência de médicos, poucos meios de transporte coletivo para ligação às cidades maiores. Nesta época do ano, o rio é o ´point´ da cidade, um jeito simples e barato de viver a vida – músicas, barraquinhas de comidas e bebidas, karaokê (terrível!), moleques pulando no rio do alto da ponte.

A despeito das maravilhas que encontramos no primeiro e segundo dias de nossa viagem, foi no terceiro dia que viemos encontrar as atrações que deram fama ao Jalapão. Já mais confiantes, dessa vez saímos sem guia em direção à cidade de Mateiros. As estradas pareciam só piorar, não havia qualquer tipo de sinalização, o tráfego de veículos era quase nulo, não havia viva alma a quem pedir informações, nada de casas ou fazendas no meio do caminho. Não consegui evitar alguns pensamentos do tipo ‘e se o carro quebra aqui?’, mas essas idéias não resistem muito, tamanha a beleza do cenário durante todo o trajeto. Dirigimos ao longo dos chapadões da Serra Geral – uma grandeza de tirar o fôlego – até alcançarmos a entrada da estradinha que nos levaria às dunas. A partir dali, foram 5 quilômetros de areia fofa, o que requereu uso de tração reduzida (força plena no carro), e o jipinho resistiu bem ao desafio. Difícil concentrar-me na dificuldade da estrada se o que vai aos poucos se revelando é cada vez mais deslumbrante: as dunas vão-se aproximando, passamos por mais uma linda vereda – uma lagoa azul orlada de buritis e finalmente, com algum esforço do carro, chegamos ao pé das dunas.

Impossível não nos emocionarmos aqui. Saímos do carro, em silêncio quase sagrado. A nossa direita, um grande chapadão; um charmoso fio de água contorna toda a extensão das dunas; diversas veredas de buritis por perto; e, bem a nossa frente, as impressionantes dunas, as únicas dunas brasileiras fora do litoral, nos convidam a subi-las. Ainda em silêncio, caminhamos por algum tempo ao longo do fio d´água, desfrutando a sensação única de sermos seletos e privilegiados espectadores daquele espetáculo. Não há outros turistas, não há moradores locais, não há casas, não há alma viva num raio de muitos quilômetros.

Subimos as dunas e por lá ficamos muito tempo, andando sem rumo, nos fascinando com as vistas lá de cima, usufruindo a sensação de pisar um chão tão pouco pisado, de contemplar paisagens tão imponentes, grandiosas, misteriosas, uma sensação que nos faz pequenos e, ao mesmo tempo, nos torna únicos, diferentes, especiais. Em alguns pontos da duna, nos sentamos para apreciar, para escutar, para falar, para, sem pressa, deixar aquela paisagem, naquele momento, passar a fazer parte de nós.

Olhei de cima das dunas o meu carrinho, minúsculo lá embaixo, e me senti feliz porque, apesar das outras prioridades, me decidi a comprar um carro que, mais que um simples meio de locomoção, significava para mim a liberdade e a possibilidade de estar ali em cima daquelas dunas, e que me convidava a explorar o novo, o desconhecido, o distante.

Saímos em direção a Mateiros em transe. Transe tal que Maristela incorporou sua criança perdida em alguma curva da história e começou a imaginar, no alto das montanhas que margeavam a estrada, ao invés de pedras e árvores, índios em posição de ataque, fortalezas medievais, torres, soldados. No estado em que estávamos, não era preciso nenhuma droga nem muita imaginação ver soldadinhos escondidos atrás das pedras.

Mateiros é um minúsculo município com 1000 habitantes, mas provido de uma opção razoável de hospedagem, o Hotel da Cristina. Mal nos instalamos e começamos a explorar a região ao redor de Mateiros, novamente sem guia, mas forçados a parar com freqüência para solicitar informações, dada a absoluta ausência de placas de sinalização nas pequenas estradas que levam às principais atrações.

O Fervedouro é um verdadeiro oásis, bastante semelhante aos oásis que visitei no deserto do Egito. Um poço de cerca de 15 metros quadrados, apenas um olho d´água, bastante profundo. A água sai do fundo misturada com a areia com pressão tal que te impede de afundar, por mais que se tente, uma sensação deliciosa, infantil, num lugar calmo, cercado por bananeiras, água translúcida, areia fina e pura, um verdadeiro spa natural no cerrado.

Do Fervedouro fomos a Mumbuca, um povoado de menos de 100 pessoas, de estrutura matriarcal, habitado há anos por remanescentes de quilombos da Bahia, e agora famoso por um refinado trabalho de artesanato em capim-dourado. Fomos recebidos por D. Noemi, a matriarca maior, que nos narrou a saga das mulheres de Mumbuca e falou-nos de sua opção por não se casar, muito complicado segundo ela.

Já era fim de tarde e, por mim, já podíamos voltar para o hotel, pulando a última etapa da agenda do dia, a Cachoeira da Formiga, que, no meu julgamento, seria apenas uma cachoeira, sem nada mais de especial além das outras que já havíamos conhecido. Por sutil insistência de Maristela, acabamos indo lá e me dei conta, então, de como é fácil cair na tentação de minimizar as possibilidade da natureza após um dia inteiro de tanta fascinação. Acostumado com rios e cachoeiras em vários lugares do Brasil e do mundo, jamais havia visto águas tão transparentes como as que vi na Cachoeira da Formiga. Apesar do adiantado da hora, a beleza e a temperatura do lugar fez-nos ali ficar por bastante tempo fechando um dia que foi perfeito do início ao fim.

Não creio que o Jalapão permaneça esse deserto por muito tempo. Já há sinais aqui e ali de grandes empreendimentos turísticos em construção. A grande indústria do turismo não deixará passar a oportunidade de explorar uma região tão única e fascinante, encantadora mesmo para quem, como eu, já viajou por diversas regiões que, igualmente,continham dunas, cachoeiras, rios, chapadas. Apenas espero não ser surpreendido, num dia de transe, no alto das dunas, por gritos de “olha o mate gelado” ou “olhaê o picolé!”.

31 de janeiro de 2001

O Terremoto de Bhuj, India - Janeiro de 2001


Quando cheguei a Mumbai, na Índia, para encontrar o meu amigo Steve e iniciarmos nossa viagem de quase 30 dias pela Índia, ele já estava lá e me disse que havia comprado passagens de trem para irmos a Bhuj. Eu, que havia acabado de chegar do Egito, e mal tinha tido tempo de me informar sobre o que me aguardava na Índia, perguntei a ele "e o que tem em Bhuj de interessante?". A resposta dele foi fantástica: "nada, nenhuma atração turística, apenas uma cidade comum da Índia". E para lá fomos. A cidade era tão comum que sair dela não era muito trivial. Nem todos os dias havia trem para o nosso próximos destino. E foi assim que ficamos em Bhuj por longos 5 dias, ao invés de 2 dias como inicialmente planejado. Foi uma experiencia interessante andar tanto tempo sem destino por uma cidadezinha sem maiores atrações, conhecer os lugares, conversar com as pessoas, brincar com as crianças, experimentar a comida, perceber os cheiros, respeitar as vacas, sentir a Índia. Foi um belo estágio para a viagem que se iniciava. Depois da Índia, ainda passei pela Jordânia, pelo Nepal, pela Tailândia, por Bali, por Paris e, em janeiro de 2001, viajava sozinho pela Itália. Ali fui surpreendido, no dia 26 de janeiro, data nacional da Índia, pela notícia de um grande terremoto que teve como epicentro exatamente a remota e desconhecida Bhuj. A cidade foi completamente devastada. Sua população quase totalmente destruída. O filme da estada em Bhuj começou a rodar na minha cabeça e devastado fiquei eu ao lembrar de cada pessoa, criança, vaca, rickshaw, restaurante, templo, rua, esquina de Bhuj, que tão bem me receberam na minha introdução à Índia e que, agora, já não existiam mais. Mais do que o fatalismo de pensar "puxa, eu podia estar lá agora!", o que me pegou foi lembrar das criancinhas, filhos dos donos da pousada em que nos hospedávamos, que todos os dias nos brindavam com um delicioso questionário, tão típico das crianças que lidam com o novo, o desconhecido, o estrangeiro. Elas também não existem mais...

30 de outubro de 2000

Índia, Outubro de 2000


“O gênero humano não pode suportar tanta realidade”. Com essa frase, de T.S.Eliot, citada por Octavio Paz no livro “Vislumbres da Índia”, consigo resumir a maioria dos sentimentos que me tomaram durante os quase 30 dias que passei naquele País. Ao término da viagem, me vi tomado por sentimentos muito variados que, infelizmente, não pude processar como gostaria, tendo apenas para mim alguns dias de digestão de tudo que vi, ouvi, senti. Sim, porque não há leitura alguma que seja capaz de me transmitir o que foi essa viagem fascinante. Foram momentos de deslumbramento, admiração, mas também de cansaço, confrontamento, desafio. Houve horas em que senti um desânimo profundo, tão difíceis eram as coisas mais simples, mas sempre dava tudo certo e eu continuava sendo seduzido pelo país. Ao fim, foi uma viagem sem quaisquer problemas mais sérios, exceto uma boa diarréia em Agra. Mas, o que é uma viagem à Índia sem uma boa diarréia? A Índia, definitivamente, não é para qualquer um.

Comecei minha viagem por aquela que viria a ser a parte mais pesada de toda a temporada: a cidade de Mumbai (ou, como ainda é conhecida, Bombaim) e algumas cidades no estado de Gujarat. Mumbai é sem dúvida alguma a cidade mais pobre que já visitei (e já visitei alguns lugares muito pobres no Brasil e em outros países). Uma grande aglomeração urbana, quase 20 milhões de habitantes, favelas em volta de toda a cidade. O trajeto de táxi do aeroporto até o hotel, no centro da cidade, durou quase duas horas, mas não por causa da distância. Não só o carro estava caindo aos pedaços (como, de resto, grande parte da frota indiana) mas, também, a velocidade máxima era prejudicada por um circuito que passava por dentro de algumas das inúmeras favelas da cidade. Um espetáculo degradante de ser assistido da janela do carro. Os olhares das crianças e adultos, pedintes nos sinais de trânsito, ultrapassam, em desespero, dor, fome e miséria todos os muitos olhares com os quais já cruzei. Algumas fotos no livro Êxodos, do Sebastião Salgado, ilustram algumas dessas de Mumbai cenas que não tive a coragem de fotografar.

Saímos de Mumbai e fomos, numa viagem que incluiu trem e ônibus, para a cidade de Bhuj, no estado de Gujarat. Um local tão sem interesse para o turista comum que nos vimos, divertidos, obrigados a tentar explicar a alguns companheiros de viagem por que mesmo é que estávamos visitando aquele estado. Não há infra-estrutura turística nenhuma e imaginamos que, exatamente por isso, poderíamos ter uma noção melhor do país, do povo, das cidades. Já deu para sentir um pouco disso na dupla jornada de trem e ônibus.

O estado de Gujarat é dominado pelo jainismo, uma religião indiana fundada no século VI aC, semelhante ao budismo e que surgiu como uma dissidência do hinduismo. Entre outras características, os jainistas são vegetarianos radicais (não comem nem ovos – a experiência de um omelete sem ovos é inesquecível, acredite sem tentar) . Não é proibido, mas encontrar um lugar que sirva qualquer tipo de carne ou um singelo ovo frito é quase impossível. De vez em quando, descobrimos um bar ou restaurante muçulmano que nos servia alguma dessas sonhadas iguarias, mas a alimentação foi prá lá de precária.

Em uma das incursões que fizemos pelo Gujarat, contratamos um motorista de táxi para nos levar a algumas vilas em torno de Bhuj. No caminho, o motorista, que mal falav inglês, insistiu em nos levar para conhecer um hospital do câncer. Não conseguíamos nos entender para saber a razão dessa insólita visita, até descobrirmos que, na verdade, estávamos visitando um hospital de animais. Moderno, novo, bem equipado, e lá dentro, ao invés de gente, vacas e camelos sendo muito bem tratados, mais bem tratados do que 95% dos indianos imaginaria ser um dia. Uma loucura. Tudo bancado com grana dos jainistas, que têm na proteção aos animais um dos fundamentos de sua religião. O hospital tem ainda um museu que, na verdade, é uma sequência de painéis com uma verdadeira lavagem cerebral em defesa do vegetarianismo, com argumentos sobre por que comer carne é uma violência contra a vida animal, contra a saúde humana e contra a economia do planeta.

No mesmo passeio, pousamos na cidade de Khuj. Em busca de alguma experiência exótica, resolvemos nos hospedar no palácio de um antigo marajá. Fizemos a reserva, sem olhar, e para lá nos dirigimos, para uma propriedade um pouco afastada da cidade. Fui, confesso, imaginando uma hospedagem no estilo dos famosos paradores portugueses e espanhóis. Imaginei cenários principescos, empregados em roupas tradicionais, coisas do gênero. Acabou sendo, de fato, uma estadia fantástica, mas pelo pitoresco da situação. Um marajá decadente, sem dinheiro para bancar as despesas da vida moderna, resolveu alugar uns quartos de seu palácio igualmente decadente, empoeirado, caindo aos pedaços. O jantar foi servido por um empregado descalço, vestido em roupas prá lá de simples, numa mesa velha que mal se equilibrava, coberta, acredite ou não, com uma folha de jornal. A comida foi devidamente servida em uma marmita que, segundo apuramos, é preparada pela esposa do empregado – o único do palácio. Foi hilário, morremos de rir com a nossa expectativa de que, finalmente, íamos ter uma refeição decente em Gujarat.

Sair de Bhuj foi uma outra aventura. As conexões de ônibus e de trens são bastante limitadas, o que nos obrigou a uma estada adicional de dois dias na cidade, simplesmente porque não tínhamos como sair de lá. Chegamos com uma sensação de alívio ao estado de Rajastão, o mais explorado turisticamente na Índia. Apesar dessa sensação, as peculiaridades dessa simpática região nos marcaram ao longo de toda a viagem e, apenas alguns meses após nossa viagem, fomos tomados de profunda tristeza ao ver a cidade de cerca de 100.000 habitantes ser completamente destruída pelo terremoto de janeiro de 2001, que teve em Bhuj seu epicentro. Impossível me conter comparando as fotos que tirei com aquelas que encontrei nos jornais apenas seis meses depois.

Udaipur, nossa primeira escala no Rajastão, é uma cidade bastante charmosa. Com um certo exagero, chamam-na de a Veneza Indiana, talvez em função do belo lago que pode ser avistado dos terraços de diversos hotéis e restaurantes da cidade (um belíssimo pôr-do-sol). Udaipur orgulha-se, ainda, de ter sido o cenário para as filmagens do filme Octopussy, com James Bond, o qual é exibido diariamente, em alto volume, em todos os bares da cidade. Nossa primeira refeição, logo à chegada, foi no nosso hotel, com vista, naturalmente, para o lago que domina a cidade. Ah, a indescritível sensação de comer bem depois dos dias passados em Gujarat. A cidade ostenta ainda suntuosos palácios, remanescentes dos tempos dos grandes marajás.

Alguns desses palácios foram convertidos em hotéis luxuosíssimos, para fazer frente aos gastos de famílias bastante acostumadas ao luxo e pouco afeitas à labuta. Jantei num desses. Esse sim, um verdadeiro palácio, bonito, bem mantido, enorme, lindos jardins, o interior finamente decorado com móveis e quadros da época. Um ambiente tirado das 1001 noites. Mesas espalhadas ao longo da pérgula da piscina, que fica em um pátio do palácio, garçons vestidos em trajes tradicionais, música clássica indiana ao vivo, uma iluminação do tipo ‘volta ao passado’, um serviço de primeira, sem formalidade, e uma comida divina, maravilhosa (ou será que eu é que ainda estava sob o efeito da gastronomia de Gujarat?). O preço do banquete foi um absurdo para os padrões indianos, cerca de 20 dólares por cabeça, o que é mais ou menos 10 vezes superior ao custo médio das minhas refeições na Índia. Mas se voltar só um pouquinho no tempo e lembrar do custo das refeições que eu fazia em Londres, quando estudante, o palácio indiano fica bem baratinho.

O mais engraçado da noite é que passamos no hotel/restaurante apenas para dar uma olhada, recém-saídos de um lindo pôr-do-sol a que fomos assistir no terraço de um castelo que fica no alto de uma montanha próxima a Udaipur. Não imaginávamos ficar para jantar e, por isso, lá fomos vestidos de sandália, camiseta e bermudas, bem mais arrumados que um mochileiro típico, mas certamente distante de todos os outros clientes do restaurante, especialmente os turistas do mundo civilizado vestidos com pompa e circunstância. Resolvemos encarar o jantar e uma mulher na mesa ao lado nos olhava com cara de desdém, quase implorando à gerência para nos expulsarem do restaurante. Rimos muito com a cena. O mais impressionante é que o serviço foi tão bom, descontraído, atencioso e agradável, que duvido que tenha sido melhor para a perua ao lado do que foi para nós.

O estado do Rajastão é, de maneira geral, muito melhor preparado para receber turistas. Não por acaso, encontramos turistas de todo o mundo viajando pelas cidades que visitamos. Apesar de não enfrentarmos as restrições gastronômicas impostas pelo regime religioso de Gujarat, também no Rajastão, além de uma temperatura muito quente e seca, tivemos que lidar com uma dieta completamente diferente. Fomos bastante cautelosos nessa área, no início porque achamos que os padrões de higiene da Índia não eram exatamente similares aos nossos e, depois, porque começamos a ver que, mesmo nos melhores lugares, a comida indiana nem sempre nos batia bem, com o uso excessivo de sua profusão de chilli e curry. Optamos por não economizar com comida, e fomos sempre a restaurantes razoáveis, o que significou mais higiene e mais opções (menos condimentadas). Também no Rajastão era bastante numerosa a quantidade de restaurantes vegetarianos, embora haja uns poucos lugares onde se come galinha ou carneiro (a sagrada vaca, nem pensar). Embora eu tenha me adaptado surpreendentemente bem à dieta vegetariana, havia horas em que eu olhava para aquelas vaquinhas soltas na rua, elas olhavam para mim, eu olhava para elas de novo, e pensava na suculenta picanha que elas escondiam.

As comidas de rua são extremamente tentadoras, bonitas, coloridas, cheirosas, e, por razões óbvias, fiz esforços enormes para me controlar. Um dia, porém, vi num quiosque de rua uma sobremesa maravilhosa que havia experimentado no dia anterior num restaurante. Não resisti, encarei, e o resultado não podia ser outro: o doce da rua era muito melhor que o do restaurante. Também na rua tomei, por diversas vezes, o delicioso lassi, um refresco à base de iogurte, bem gelado, apropriado para o calor indiano. Não era exatamente a mais segura opção de bebida, mas o delicioso sabor suplantava todos os meus medos.

Uma das coisas mais difíceis para a adaptação à Índia foram os preços de tudo que consumíamos. A comida era sempre baratíssima. Mesmo optando por melhores restaurantes, nas cidades mais caras, uma boa refeição nunca saía por mais de 5 dólares. Quaisquer serviços que usássemos – táxi, costureira, correios – sempre nos surpreendiam pelos baixos custos. Em Jaipur, uma cidade grande, fui cortar o cabelo. Um lugar antigo, pequeno, mas limpinho, recomendado pelo dono do hotel em que nos hospedávamos. Havia toalhas limpas, lâminas novas, tudo no maior estilo. Um corte de cabelo legal, não muito diferente do que eu teria em Brasília ou em Londres. Ao fim, uma massagem facial completa, que incluiu couro cabeludo, cabelo, face, pescoço, ombros, braços e início da coluna. O preço? Tudo isso pela bagatela de 60 centavos de dólar. Impressionante.

Optamos também por ficar em hotéis razoáveis, menores, acolhedores, longe do barulhento centro das cidades indianas. Um mínimo de conforto era importante, pois as viagens eram sempre muito cansativas. Mas, em termos de preços, isso não quer dizer muito. As diárias dos hotéis em que nos hospedamos, todos com banheiro privativo, eram sempre em torno de 10 dólares, às vezes bem menos, às vezes um pouco mais.

Em muitos momentos, perdemos totalmente a noção de preço, e é nessas horas que fica difícil o processo de comprar qualquer produto ou serviço que não tenha preço fixo, dada a expectativa de que turistas e indianos participem de um irritante e permanente jogo de barganha. O melhor exemplo é o uso dos rickshaws, aquelas lambretinhas de três rodas que são o meio de transporte típico nas estreitas ruelas das cidades indianas e em oturas cidades asiáticas (também conhecidos como tuc tuc). Para nós, estrangeiros, o preço era sempre mais alto e, a cada cidade, antes de se ter uma noção do custo das corridas, tínhamos que passar por um processo altamente cansativo. Toda vez que pegávamos um (e eram vários no dia), tínhamos que discutir o preço, barganhar, argumentar. Naturalmente, os valores em discussão eram irrisórios, sempre em torno de 50-60 centavos de dólar, mas se deixarmos, seremos sempre explorados pelos motoristas. Ao final, já estávamos acostumados com alguns preços e ficava mais fácil negociar e discutir, mas isso não tirava o aborrecimento e a irritação de cada negociação. O problema disso era quando nos pegávamos, às vezes, barganhando por valores ridículos. Numa dessas vezes, fui tomar um rickshaw que me pediu 30 rupias por uma corrida que eu sabia valer 20. Como estava de noite, resolvi oferecer 25, e aí iniciou-se a barganha. Então me dei conta de que eu estava discutindo por cinco rupias, o que significavam cerca de 10 centavos de dólar. É nessas horas que batia a tal da consciência social, sem que eu soubesse o que fazer com ela. Para essas pessoas, essas cinco rupias tinham profundo significado no faturamento do dia, era parte da luta diária pela sobrevivência, enquanto para mim não só esse valor não significava nada como, também, me era difícil apreender o significado desse valor na vida daquelas pessoas.

Por muitas vezes, nem queríamos discutir os valores, embora soubéssemos estar pagando duas ou três vezes o valor que um indiano pagaria pelo mesmo serviço. A situação de extrema pobreza da Índia afetava muito do que fazíamos e a maneira como nos comportávamos. Por isso, acabávamos por nos envolver com aqueles indianos que diariamente se engalfinhavam para conseguir uns trocados, e ficávamos cada vez mais generosos com gorjetas e menos exigentes nas negociações. Para essas pessoas, conseguir uma corrida de rickshaw, vender uma calça ou até mesmo uma simples garrafa de água mineral pode significar a diferença do dia. É impossível ficar indiferente ao que se vê na Índia, assim como eram inevitáveis as crises de consciência ao vermos tanta miséria e não podermos fazer nada. Mas, para mim, isso não era privilégio da minha estada naquele País. De maneira diferente, frequentemente sinto o mesmo no Brasil, um constante incômodo com o absoluto disparate das desigualdades sociais que não são jamais aplacadas e para as quais não vejo qualquer perspectiva de solução.

A comparação com o Brasil não chega a ser justa. A pobreza aqui impressiona mesmo a um brasileiro, tão acostumado com isso no dia-a-dia. A Índia é um país que tem alguns dos grandes cérebros do mundo, mas tem uma taxa de alfabetização em torno de 50%. Tem grandes fortunas individuais, mas 3/4 das crianças sao subnutridas. A pobreza é tanta e tão aparente que a riqueza fica diluída, escondida, nao se vê. Diferente do Brasil, onde a pobreza e a riqueza se vêem com mais facilidade. A pobreza na Índia é tanta que se criou um sui generis sistema para geração de empregos, que se manifesta numa burocracia enorme para tudo: tudo que se faz no setor público – correios, estações de trem – envolve mais pessoas do que o necessário. Se for para analisar pelo lado da eficiência, ter que preencher um formulário com seu nome, endereço no Brasil, número do passaporte, etc, apenas para comprar um bilhete de trem, a coisa parece absurda. Mas quando se pensa que aquele formulário vai passar por umas 5 ou 6 pessoas até você ter o bilhete na mão, são 5 ou 6 empregos a mais, então faz sentido.

Enquanto estava na Índia, e vítima desses sentimentos de estupefação, não resisti a fazer algumas comparações entre Índia e Brasil. Com dados colhidos em alguns sites na Internet (dados de 2000), observei que, em termos absolutos, a Índia é tão rica quanto o Brasil. A diferença é uma população quase seis vezes maior, de cerca de 1 bilhão de pessoas. O Brasil não seria muito diferente da Índia com essa população. Na Índia, a miséria está presente o tempo todo, em todos os lugares. E não existem, como no Brasil, os shopping centers, que são os lugares escolhidos pelos brasileiros para se esconder da pobreza. Na Índia, simplesmente não dá para se esconder da pobreza.

A Índia tem menos da metade do tamanho do Brasil mas quase seis vezes a nossa população. A expectativa de vida nos dois países é a mesma. Na taxa de alfabetização, estamos melhores, 83% no Brasil contra 52% na Índia. A diferença é que no Brasil a taxa é a mesma para homens e mulheres, enquanto na Índia é de 65% para os homens e de 37% para as mulheres. Um emblemático retrato das desigualdades entre homens e mulheres no país. Minha maior surpresa foi verificar que a Índia tem um Produto Nacional Bruto (PNB) 80% maior do que o brasileiro. Além disso, enquanto a economia brasileira cresce a cerca de 1% ao ano, a indiana cresce a cerca de 5,5% ao ano. Por causa da diferença no tamanho da população, contudo, o PNB per capita do Brasil é mais de três vezes superior ao da Índia.

Embora a Índia tem muito mais pobres do que o Brasil – 35% dos habitantes vivem abaixo da linha de pobreza, contra 17% no Brasil –, quando se fala de distribuição de renda, somos então mundialmente imbatíveis: nossos 10% mais ricos concentram absurdos 48% das riquezas nacionais, enquanto na Índia os 10% mais ricos concentram apenas 25%. Nossos 10% mais pobres concentram míseros 0,8% das riquezas, enquanto os 10% mais pobres da Índia concentram 4,1%. São dados para se pensar quando se fala em pobreza. Embora chocado com a pobreza na Índia, dá para ver que é um país quase todo pobre. Já o Brasil, é um país rico mas com um povo miserável.

O principal efeito da pobreza disseminada na Índia é uma economia informal, na qual todos lutam desesperadamente por qualquer centavo de dólar que algum turista possa deixar. Em especial nas cidades mais turísticas, a competição é selvagem. E aí vale tudo, pedir mais pelo preço das mercadorias e serviços, levar turistas para hotéis e lojas em troca de comissões, pequenos golpes. Toda hora, na rua, sempre há os 'amigos', que te saúdam, perguntam seu nome, seu país de origem, e te acompanham por horas tentando te convencer a entrar numa loja ou a ir para um determinado hotel.

A saudação às vezes faz parte do assédio, mas às vezes é apenas um gesto natural, de hospitalidade e de carinho. O país de origem é uma das primeiras perguntas que nos fazem. Quando respondo Brasil, a primeira associação é sempre o futebol. Dependendo da idade do interlocutor, as referências são Pelé, Romário ou Ronaldo. Alguns desavisados fizeram associações, para meu desgosto, com Maradona e Batistuta. Outras associações recorrentes sao as queimadas na Amazônia, as mulheres nuas no Carnaval e as crianças de rua. Nada muito diferente da imagem do Brasil que se tem no ‘primeiro mundo’.

Os pequenos golpes na Índia sao fantásticos, hilários. Para quem estava bem informado, como nós, que havíamos lido com antecipação como funcionavam as coisas, dava para escapar. Mas os desinformados são presas fáceis. Os mais divertidos são os dos motoristas de rickshaw. Quando se pede para ir a um hotel, eles sempre te sugerem um outro. As argumentações sao das mais interessantes: o dono do hotel morreu semana passada numa acidente terrível, o hotel foi fechado pela polícia, o hotel (para o qual você já fez reserva) está lotado, o hotel é muito caro e está decadente. Conseguir que eles te levem ao hotel desejado requer às vezes um tom de voz mais elevado e, em um caso extremo, tivemos que contratar um outro motorista. Um momento fantástico foi a nossa chegada em Nova Déli, na estação de trem, quando os motoristas de táxi e de rickshaws queriam nos cobrar, quase em cartel, a absurda quantia de 250 rupias para nos levar até o nosso hotel. Não sabíamos onde ficava o hotel, mas nossa noção de preço na Índia nos dizia que o preço era absurdo. Depois de muito trabalho para conseguir alguma informação confiável, descobrimos que o hotel ficava a não mais do que três minutos, a pé, de onde nos encontrávamos.

Lidar com a pobreza indiana é um processo diário e permanente, às vezes bem irritante. Há o assédio dos comerciantes, há os golpes, mas há ainda as crianças que pedem dinheiro, comida ou até canetas na rua. E há também as mulheres com crianças nos braços, que te seguem na rua por horas até conseguir alguma coisa. O assédio diário é constante, aborrece, mas depois de me desvencilhar dessas pessoas, eu acabava carregando comigo o profundo olhar de desespero, de tristeza, de fome ou de desesperança que cada uma trazia consigo. É um olhar profundo como jamais vi, um olhar que não se vê nos pobres no Brasil ou em outros lugares por onde andei. Um olhar que fica, que incomoda, que dói. Que vai com você.

Um aspecto interessante da pobreza na Índia é que, ao contrário do que aconteceu em países como o Brasil, ela nao descambou para os elevados índices de violência urbana que se vê na maioria das grandes metrópoles dos países em desenvolvimento. Uma das coisas que tem mais me assustado no Brasil é como o aumento da pobreza e das desigualdades de renda tem gerado uma violência assustadora. Aqui na Índia, com exceção de pequenos golpes contra turistas, que são usuais, a taxa de crimes, roubos, assassinatos e coisas do gênero é muito baixa, quase não se ouve falar. Há, naturalmente, inúmeras razões de ordem religiosa e da estrutura social na Índia para explicar isso, mas fica difícil explicar o que faz o Brasil tão violento em condições de pobreza mais amenas do que as encontradas na Índia.

O lado mais perverso do constante assédio que sofremos nas ruas da Índia é que passamos a olhar com suspeição todos os indianos que se mostram amigáveis e, com isso, cometemos lamentáveis enganos. Há milhares de crianças que vinham nos saudar apenas para treinar seu básico vocabulário de inglês, especialmente quando andávamos em áreas menos turísticas. Aliás, criança é uma coisa fantástica em qualquer lugar do mundo. Quando ainda não contaminadas pela maldade, as crianças provocam as mais absolutas sensações de prazer que se possa ter numa viagem. Indescritíveis as inúmeras cenas das crianças que vinham nos saudar, nos perguntar o nome, ou apenas falar um ‘oi’ para gastar o inglês. Genuína pureza infantil.

O problema é que ficamos tão na defensiva com os 'tipos' indianos que, quando uma criança vinha, já ficávamos armados esperando os pedidos de dinheiro, comida ou a sugestão para nos levar a alguma loja em particular. Em Bikaner, um jovem de 16 anos se apresentou e puxou papo conosco. Andou pelas ruas com a gente, ajudou na negociação de um táxi que contratamos para um passeio, foi no táxi conosco, passou todo o dia com a gente, conversou sobre tudo, futebol, cricket, política, religião, ajudou-nos na compra de bilhetes de trem, e eu, durante todo o dia, fiquei armado contra ele, esperando o golpe que viria, no final, ao nos cobrar pelos serviços prestados. Quando, ao fim do dia, ele apenas me deu o seu endereço me pediu para mandar um postal do Brasil para sua coleção, fiquei de coração partido. É triste, mas esse é o resultado das experiências que vivemos. Mas há na Índia pessoas genuinamente amigáveis, que apenas adoram conversar com estrangeiros, e que encontramos com frequência em trens e ônibus.

***

O misticismo e a religiosidade da população é algo que extrapola a capacidade de compreensão de um viajante em apenas um mês. Sao milhares de templos de várias religiões, predominantemente hindus, mas também muçulmanos, budistas, jainistas. São vários deuses, templos, religiões. Há algo de fascinante nesse caldeirão religioso que é a Índia, mas há também coisas que nos chocaram, como o caráter sagrado de alguns animais. Em Bikaner, fomos visitar um templo dedicado aos ratos. Entramos no templo, descalços, como faríamos em qualquer outro templo, e lá nos deparamos com centenas de ratos que não apenas circulam livremente, mas são também adorados e alimentados pelos visitantes. Ter um rato passando sobre o seu pé é sinônimo de benção, mas felizmente eu escapei da graça de ser abençoado pelos ratinhos. Saí do templo, após algum tempo, completamente enojado com os meus pés sujos daquela mistura de fezes, urina e comida de ratos no chão. A única coisa que eu queria era voltar ao hotel e lavar bem os pés, mas não pude deixar de carregar comigo as imagens marcantes daquele templo, como a do homem deitado de bruços no chão do templo, rezando, ou da mulher que passava a mão no chão e, com a mesma mão, abençoava a si mesma e à sua criança de colo.

Ainda na área religiosa, as vacas constituem um capítulo à parte. Animais sagrados por excelência, após um mês inteiro na Índia não consegui me acostumar com elas ou com o tratamento a elas dispensado pelos indianos. Elas estão em todos os lugares, nas ruas, até nas grandes cidades, nas lojas, nas praças, nas casas. Sempre buscando algo para comer e, como não há muito, o que elas mais comem é jornal, cartolina e plástico. Em uma das estações de trem em que estivemos, as vacas andavam placidamente pela plataforma. Quando um trem chegava, botavam as cabeças pelas janelas ou portas, na espera de um agrado de algum passageiro. Um boi entrou no local onde se vendiam os bilhetes e instalou-se no chão, completamente dono do pedaço. É, de fato, uma relação inacreditável de uma população de 1 bilhão de pessoas com um animal. A Índia tem o maior rebanho de gado do mundo, mas a população morre de fome, pois as vacas sao intocáveis.

Nesta viagem, acabei nao tendo a chance de visitar Varanasi, a sagrada cidade que os hindus escolhem para morrer a fim de se livrar de seus carmas. Os relatos que já ouvi sao de impressionar e ninguém sai de lá sem ficar profundamente marcado pela experiencia. São corpos agonizantes pelas ruas, fornos de cremação espalhados pela cidade e as cenas mais chocantes são as dos corpos dos defuntos, simplesmente jogados no sagrado rio. Os corpos flutuam no mesmo rio em que os adultos se banham para purificar-se ou onde as criancas brincam inocentemente.

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Viajar pela Índia exige paciência e disposição física. Utilizamos todos os meios de transporte disponíveis, com exceção do avião, que poderia ser uma solução em alguns trechos mais longos. Como nossos trechos foram, essencialmente, curtos, optamos por fazer uma mistura de trens, ônibus, táxis. A Índia tem uma fantástica rede de trens, que possibilita ao turista e aos indianos viajar por todo o país de trem (uma importante herança da colonização britânica). O sistema é totalmente computadorizado, organizado e, por isso, andar de trem acaba sendo a melhor opção na Índia, apesar da extrema lentidão das viagens nos obsoletos trens. Os custos são bem baixos, mas não é, também, o que eu chamaria de uma viagem confortável. Utilizamos, algumas vezes, a primeira classe, na maioria fomos na segunda e, às vezes, nas viagens curtas, fomos com o povão, na econômica (ou terceira). Nessa última, não há lugares marcados, é um salve-se quem puder, mas é exatamente aí que surgem as melhores oportunidades de encontrar e conversar com gente interessante.

Havia trechos, porém, em que não dava para viajar de trem. Aí o jeito era apelar para o ônibus. Há dois tipos de ônibus, os estatais e os privados. Os estatais sao umas latas velhas, antigas, caindo aos pedaços. Cinco assentos por fileira, mais um corredor estreito, que é invariavelmente ocupado pelos excedentes. Nos privados, que sao ironicamente chamados de 'luxo', a diferenca é um pouco mais de conforto, com apenas 4 assentos por fileira. Também no ‘luxo’, os assentos e os corredores são frequentemente tomados por famílias inteiras, com crianças e, não raro, galinhas soltas. Mas o melhor mesmo é a 'classe superior'. São os passageiros que, depois de assentos e corredor completamente tomados, viajam no teto do ônibus, no lugar em que deveriam ir as bagagens. Uma cena impressionante. Contudo, impressionante mesmo é a cena do cobrador que, com o ônibus em movimento, passa por cima de dois passageiros sentados, sai por uma das janelas e passa para o teto do ônibus a fim de cobrar o bilhete dos que estao em cima. Impagável.

Nao há paradas regulares para banheiro, apenas aquelas para pegar e deixar passageiros. É quando homens e mulheres saem correndo para, nesse curto intervalo, urinar na parede mais próxima. Para as mulheres é mais complicado, não consegui descobrir como elas resolviam esse problema. Nas viagens longas, de 5 a 6 horas, vivi esse suplício várias vezes, até porque, com o forte calor, eu tomava muita água. Numa dessas paradas, saí correndo, na frente de todo mundo e quando já havia achado uma parede para fazer o meu xixi, levei uma bronca danada de um indiano que me mostrava um mictório público perto da parede. Vexame! Uma outra viagem inesquecível, embora de apenas meia hora, foi a mais divertida. O embarque no ônibus consistiu de mais de 80 pessoas tentando entrar ao mesmo tempo por uma única porta: crianças, mulheres com bebês, velhos e velhas, galinhas. Acabamos não conseguindo sentar, pois ao entrar vimos que as poucas pessoas que entraram na nossa frente multiplicavam seus braços e pernas para ocupar vários assentos para os membros da família que ficaram para trás.

Em outras situações, optamos por alugar um táxi ou carro com motorista, uma opção que, muitas vezes, mostrou-se bem interessante e não tão cara. Uma ótima alternativa para fazer pequenos trechos entre duas cidades ou para visitar uma região em que queremos ter liberdade para parar onde quisermos no nosso próprio ritmo. Os preços acessíveis nos permitiriam fazer mais dessas ‘extravagâncias’ mas, com isso, perderíamos a maravilhosa chance de conhecer a Índia que se conhece num ônibus lotado ou na terceira classe de um trem. O maior problema dessa opção, que se aplicava também aos ônibus, era vencer o medo das terríveis estradas indianas e dos alucinados motoristas que as ocupam. E ainda tem gente que tem medo de avião.

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Ao fim de um mês de viagem, vimos de tudo um pouco, embora tenhamos percorrido apenas uma pequena fração do território indiano. Há tanto mais que se ver. Estivemos em áreas bem turísticas e visitamos locais nos quais duvido que algum turista tenha jamais pisado o pé. Em comum a quase todos os lugares que visitamos, a presença de uma história milenar. Como também é comum a quase todos os lugares o lamentável estado de conservação de monumentos como fortes, palácios, casas e edifícios, cheios de história mas abandonados pelo Governo. O preço dos ingressos é sempre ridículo, mal deve dar para pagar o salário do porteiro (e para os indianos o preço é, com razão, ainda mais baixo). As exceções são os palácios que continuam em domínio privado, com os herdeiros dos marajás (ou com os próprios). Alguns estão em perfeito estado de conservação, transformados em museus, hotéis ou restaurantes, e com preços à altura não só dos custos de manutenção mas, também, das necessidades dos decadentes marajás e suas famílias. Na área do governo, apenas o Taj Mahal é exemplarmente cuidado, mas às custas de uma exorbitante entrada de 20 dólares.

Vimos muitos monumentos maravilhosos, mas nao dá para falar da Índia sem falar no Taj Mahal, a atração turística principal do país. Minha visita ao Taj Mahal foi sob o peso de uma pesada diarréia, o que naturalmente tira o prazer de qualquer visão e te põe mais preocupado em localizar o banheiro mais próximo do que em admirar a beleza do monumento. Apesar disso, o Taj é de fato magnífico, perfeito em cada detalhe. A estória de sua construção é tão interessante quanto o prédio em si. Um marajá que perdeu a esposa durante o parto do filho quis construir o mais belo palácio para abrigar o corpo da mulher. O palácio levou 20 anos para ser construido, quase 20.000 pessoas trabalharam no projeto, os mais famosos artistas do mundo foram recrutados. Ao fim da construção, muitos operários tiveram os braços amputados para jamais poderem repetir obra tão magnífica. A cota de ironia fica por conta do golpe de estado aplicado pelo próprio filho do marajá que, ao depor o pai, encarcerou-o no Forte de Agra, de onde o marajá podia observar o Taj Mahal pela minúscula janela de sua cela. Quando ele morreu, foi tambem enterrado no palácio, ao lado de sua esposa.

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A India é uma viagem do tipo 'ame ou odeie', mas há opções para todos os gostos, para todos os estilos de viajantes (até para quem quiser ir apenas à praia). Dá para viajar só pelo circuito mais conhecido, com melhor infra-estrutura de hotéis e restaurantes, movendo-se de avião de uma cidade para outra, como também dá para viajar muito com orçamento bastante inferior ao nosso. Essa variedade de opções reflete-se na variedade de tipos que encontramos em nossas andançaas. Desde senhores e senhoras distintos, até bichos-grilos de todas as origens. Eu e meu amigo ficamos numa categoria intermediária, longe de sermos os típicos mochileiros, mas também longe de sermos viajantes tao distintos, dos quais os japoneses são os mais típicos e extremados representantes. Interessante é que cada um faz a sua própria viagem na Índia. Cada figura que encontramos pelo caminho dava, por si só, um livro. Gente viajando sozinha, em grupos, casais, duplas ou trios de mulheres, de homens, hippies, velhinhos aposentados, muita gente interessante. Cada um tem sua impressão bastante particular de tudo que viu. Há muito mais que eu poderia falar ou contar da Índia mas, como em tantas outras coisas da vida, nada se compara a viver tudo isso. Minhas impressões são somente as minhas, e cada um que passou pelos mesmos lugares e viu o que eu vi certamente teve uma impressão diferente. Conheci pessoas que passam, há muitos anos, todas as suas férias na Índia, cada vez explorando uma região diferente. Conheci outras que foram uma única vez e juraram nunca mais voltar. Então, só experimentando.