Para não perder algumas milhas que estavam por expirar, resolvi passar quatro dias em Praga, num momento em que eu devia estar mais concentrado nas minhas dissertações do fim do meu mestrado. Achei que nem conseguiria, porque conseguir o visto para a República Checa em Londres foi extremamente complicado: recebi o meu passaporte na manhã do dia em que havia marcado minha viagem, quando eu já estava quase desistindo. O stress compensou. Praga é uma cidade maravilhosa, a despeito das insuportáveis hordas de turistas, ainda maiores no verão. A cidade tem um importante papel em vários episódios históricos, em particular a primeira e a segunda guerras mundiais, com uma riqueza cultural que se manifesta numa arquitetura belíssima, em alguns grandes nomes da literatura e em um espetáculo de artes que explode por todos os cantos da cidade: música, teatro, ópera, marionetes.
Há teatros belíssimos, como o Estates Theatre, onde Mozart encenou pela primeira vez sua ópera Don Giovanni em 1787. Eu não podia perder a chance de assistir a mesma ópera mais de 200 anos depois, mas desta vez, para minha surpresa, o artista principal, o barítono que fazia o papel de Don Giovanni, era nada mais nada menos que um autêntico pernambucano, cujo nome provavelmente jamais foi ouvido no Brasil. Além dos teatros, todas as igrejas oferecem belíssimos concertos de música sacra e assistir a um deles é uma experiência inesquecível, até mesmo porque tanto o órgão quanto a soprano que o acompanha ficam escondidos em algum lugar no alto da igreja e você apenas sente a música invadindo aquele ambiente que parece ter sido desenhado para isso.
Praga tem, naturalmente, os pontos turísticos que acabam sendo necessariamente visitados. Contudo, o grande barato da cidade é andar pelas ruas, meio sem rumo, se perdendo, de preferência nas ruas menos movimentadas, longe do fluxo turístico. Cada esquina revela um prédio ou uma casa diferente, um teatro, uma praça, um jardim. O cuidado com que a cidade é mantida, o estado de conservação dos prédios, a beleza dos inúmeros jardins da cidade, a paz do rio que corta a cidade, a chance de parar num banquinho da praça e ficar esperando a banda passar, tudo isso é garantia de prazeres e curtições não descritos nos guias de viagem.
Naturalmente, toda essa beleza tem um preço. Praga é hoje uma das cidades mais turísticas do mundo. No início, cheguei a compará-la com cidades altamente exploradas pelo turismo como Paris, Roma, ou até mesmo Londres. Depois, percebi que há uma diferença fundamental. Enquanto essas cidades possuem vida própria, independente dos turistas, Praga, por ser muito menor, dá a impressão de que está existindo apenas em função do turismo. Embora a infra-estrutura turística seja invejável, o fluxo de turistas chega a ser irritante em alguns momentos. Ao contrário de Paris, Roma ou Londres, em Praga os concertos e shows não foram feitos para a população local, mas para as hordas de turistas que a invadem. A chance de encontrar um morador de Praga em um desses eventos é próxima de zero.
Nas ruas, o comércio é quase todo de lojinhas de souvenirs, espalhadas uma ao lado da outra, vendendo bonecas, marionetes, canecas de chopp, cristais checos, tudo a preços exorbitantes. No centro principal da cidade, todos os lugares são muito barulhentos, difícil andar nas ruas estreitas repletas de turistas se esbarrando. Nas mesmas ruas, para vender os ingressos dos concertos, dezenas de palhaços vestidos de Mozart esforçam-se para desovar os seus estoques e posam para fotografias ao lado dos deslumbrados japoneses. A maior parte dos turistas viaja em grupos enormes, sempre seguindo sofregamente algum guia que balançava intrepidamente a sua sombrinha amarela ou vermelha. Os restaurantes e bares, sempre caríssimos, exploravam o fato de que ali era o lugar onde Mozart encontrava inspiração ou onde Kafka começou a escrever “O Processo” ou o local que Kundera descreveu em “A Insustentável Leveza do Ser”. Não surpreende que a qualidade da comida, nesses lugares, sempre deixasse a desejar.
O que mais me chamou a atenção foi a quantidade de turistas brasileiros, o que eu não vinha encontrando em alguns dos lugares recentes que andei visitando. Isso confirmou minha impressão de que os brasileiros, de maneira geral, não se dispõem a desbravar lugares novos, ainda pouco explorados pelo turismo. Em geral, visitam os lugares quando eles já são descobertos pelas massas. Há cerca de cinco anos atrás, eu podia contar nos dedos os meus conhecidos que já haviam visitado Praga. Praga é agora a cidade da moda e já faz parte dos planos da maior parte dos brasileiros que visitam a Europa.
Nada disso, porém, tira a beleza da cidade. Sempre há um jeito de fugir do circuitão turístico. Há sempre a chance de se perder em ruelas que revelam belezas tão admiráveis como as dos principais pontos turísticos. Há sempre a chance que tive de ficar num hotel fora do centrão e usar o eficiente sistema integrado de transportes públicos da cidade (metrô, ônibus e bondes elétricos), esse sim, destinado à população local e uma divertida aventura quando não se domina a língua tcheca. E dá ainda para passear pela Petrin Hill, um lugar presente na obra de Kundera, que reservei para uma deliciosa e saudosista releitura de “A Insustentável Leveza do Ser”, especialmente comprado para a ocasião. Petrin Hill é um charmoso monte perto da cidade que oferece a chance de admirar de cima e de longe a beleza de Praga, em especial os fantásticos telhados vermelhos que são uma espécie de marca registrada da cidade.
Finalmente, ao sair de Praga, se você tiver sorte, ainda pode ter o privilégio que tive de tomar um vôo que me exigia estar no aeroporto às 6 da manhã. Isso vai te dar a chance de passear de táxi no centro da cidade vazia e te encorajar a pedir ao motorista para ir devagarzinho, a fim de que você possa curtir e ver com calma o que a multidão de turistas te impediu nos dias anteriores.
30 de julho de 2000
25 de abril de 2000
Portugal, Abril de 2000
Ir a Portugal foi a oportunidade de perceber um pouco de tudo que nós brasileiros somos. De enxergar as raízes do que temos de bom e de ruim. De rir com muitas coisas que pareciam fazer parte apenas do nosso anedotário, mas que, descobri, fazem parte de uma lógica portuguesa muito particular. De perceber um processo de colonização às avessas, representado pela nossa música e nossas novelas altamente presentes na cultura portuguesa, o que faz com que muitas de nossas expressões já tenham sido absorvidas e sejam usadas normalmente pela população. De surpreender-me com o nível de desenvolvimento de um país que, apesar de ser o segundo mais pobre da Europa, encontra-se em fase de alto crescimento impulsionado pelos recursos da União Européia. De fazer inevitáveis comparações entre a eficiente infra-estrutura turística de Portugal, que contempla história, montanhas, praias com qualidade para turista nenhum colocar defeito, e a histórica incapacidade de o Brasil fazer valer sua vocação para o turismo. De comer os maravilhosos doces portugueses (invariavelmente de ovos), presentes em uma tentadora pastelaria a cada esquina. De perceber que, ao contrário do que pensava, o carinho dos portugueses com os brasileiros é grande, o que pude sentir em praticamente todos os contatos que fiz. E, finalmente, de surpreender-me com a pobreza do preconceito que alguns brasileiros nutrem em relação a Portugal e aos patrícios.
A viagem me colocou em contato com sensações que iam sendo esquecidas na minha estada em Londres. Depois de tanto tempo vivendo em 'inglês', foi bom viver um pouquinho em 'português'. Foi uma sensação nova estar num país estrangeiro e falar a minha própria língua. Tudo parece ficar tão mais fácil do que usar o inglês mundo afora, não importa o grau de fluência que se tenha. Tanto tempo em Londres me desacostumou não só da minha língua, mas de prazeres básicos, como andar de bermuda e camiseta e usar óculos escuros. O tempo estava maravilhoso em Portugal, muito sol, céu azul. Numa visita a um castelo, no meio de uma floresta, pude novamente andar no mato, sentir o cheiro de terra, de árvores, de chão molhado. Num restaurante de Lisboa, nas Docas de Santo Amaro, comi uma picanha maravilhosa, daquelas sangrentas que se come no Brasil. São esses prazeres básicos, simples, que, de tão simples e básicos, parecem fáceis de serem esquecidos, até o momento em que se tem a chance de vivê-los novamente, e aí a gente se pergunta ´como é que eu tava dando conta de viver sem isso?’.
Meu companheiro de viagem, Nicola, foi uma boa companhia, embora sejamos diferentes em muitas coisas. Tem um bom gênio, é tranqüilo e nossas diferenças não chegaram a causar conflitos (sempre um risco em situações de convivência tão intensa). Eu gosto de conversar, falar, filosofar, ele já é mais fechado. Ele gosta de ver televisão, até mesmo as novelas brasileiras que passam em Portugal. Eu não sinto fome, ele adora comer. Um dia brincamos dizendo que se ele pudesse ficar em casa vendo televisão e apenas solicitar pelo telefone comidas de países diferentes, suas ânsias de viagem estariam satisfeitas. Ele é daqueles que têm fome ao meio-dia, quer sentar num restaurante, almoçar, entre quatro paredes, somente para satisfazer esse primitivo instinto, enquanto o sol brilha lá fora e ruelas, ruínas, museus e monumentos imploram para ser explorados. Tanto ele quanto eu acabamos cedendo em muitos momentos, condição básica de convivência numa viagem longa. Ele tem bom humor, é flexível e topava qualquer programa, embora seja de natureza mais urbana e eu um pouco mais bicho do mato. Iniciada a viagem, eu devorava as informações dos livros e guias de Portugal, enquanto ele deixava muita coisa na minha mão e ia no rastro. No geral, viajamos muito, conhecemos muitos lugares, tomamos muito vinho, comemos muitos doces e salgados, rimos muito. Um viagem a dois – ou em qualquer número maior do que um - exige concessões e o saldo final da viagem foi muito bom.
Nosso esquema estudantil incluía hospedagem em lugares mais simples, quartos sem banheiro, casas de família. Não importa quão simples fosse a hospedagem, porém, destacavam-se a limpeza imaculada, os lençóis e toalhas sempre novos, branquíssimos, trocados todos os dias, e um atendimento quase sempre familiar, agradabilíssimo. Para mim, essa opção foi bem mais prazerosa do que se pudéssemos – e quiséssemos – ir para hotéis mais caros, maiores e, conseqüentemente, mais impessoais.
Nossa viagem começou em Lisboa, onde ficamos hospedados numa deliciosa pensão no centro da cidade. Uma cidade charmosa, cheia de encantos e de opções. Animadíssima vida noturna, os bares ecoando a dor-de-cotovelo dos fados, os cafés e restaurantes. Um banho de história, as casas com lindos painéis de azulejos, os monumentos, o bairro de Belém com a famosa torre que cresci vendo nas latas de azeite, os magníficos pastéis de nata, o eficiente sistema de transportes, que mistura bondes antigos à modernidade do metrô e de ônibus com ar condicionado. Lisboa é, a um só tempo, uma cidade tradicional e moderna, pequena e grande, provinciana e metropolitana.
Em Lisboa, a situação mais surreal da viagem. Nicola passou mal na primeira noite, após empanturrar-se de lulas recheadas. Fomos parar num hospital público que muito nos surpreendeu pela rapidez e qualidade do atendimento, pelo bom humor e prestatividade de todos. Mas o melhor aconteceu na sala de espera, onde ficavam os pacientes que aguardavam para serem atendidos e os familiares dos que estavam sendo atendidos. Como Nicola ficou na enfermaria tomando soro por umas quatro horas, fiquei lendo meus guias de viagem na sala de espera. Por volta de meia noite, a sala estava quase vazia. Havia uma televisão na qual eu passava os olhos de vez em quando, mas como só havia coisas desinteressantes, voltava à minha leitura. Numa dessas passadas de olhos, espantei-me ao ver uma cena de sexo, mas pensei que apenas fosse um trecho mais picante de alguma novela brasileira. Mas não, era um filme, e imaginei que fosse apenas um filme com cenas eróticas. Não, não era um filme erótico. Era um verdadeiro filme pornô, daqueles X-rated, com cenas de fazer corar até os menos inocentes. Era inacreditável! Olhei em volta e vi duas velhinhas inocentes cochilando nas cadeiras. A maioria dos doentes cochilava. Um, com a cabeça ensangüentada, parecia estar bastante motivado com o filme, dada a cara de interesse com que o assistia. Um velhinho acordou e, ao levantar os olhos para a televisão, tomou um susto e mudou de lugar, com cara indignada. Eu observava e morria de rir ao presenciar essas antológicas cenas em plena sala de espera de um hospital público. Imagino que tenha sido algum canal de TV a cabo que acidentalmente foi ligado sem ninguém da administração perceber. Só mesmo em Portugal uma coisa dessas.
Nosso próximo destino foi a Serra da Estrela, um parque nacional famoso pelos esportes de inverno. Até então, eu não estava familiarizado com a diversidade de climas e de cenários de Portugal, e por isso foi delicioso sair do nosso roteiro quente e ensolarado para dirigir por cerca de três horas num cenário de neve por todos os lados. Paramos, brincamos com a neve, apreciamos aquela imensidão branca à nossa volta, os olhos doíam de tanta claridade e se deslumbravam com o fascinante contraste de cenários a que éramos expostos. A fascinação continuou quando, ao sairmos da Serra da Estrela, fomos parar em Aveiro, uma cidade com um toque ´holandês´, com seus canais e barcos no centro da cidade, algumas ruelas antigas com casas lindas pintadas em tons pastéis de várias cores e um restaurante maravilhoso onde tivemos a melhor refeição da viagem, um pargo assado do qual só sobraram as espinhas.
Chegamos por fim à cidade do Porto, onde nos hospedamos na casa dos tios de Aneesa, uma amiga indiana, colega de curso na universidade em Londres. Porto, apesar de maior do que as vilas que andamos visitando, conserva o charme de um vilarejo. Numa visita a um palácio da cidade, conheci um senhor do norte de Portugal, um pequeno produtor de vinho do porto. Conversamos muito e ele me deu uma aula de vinho do porto que só acrescentou ao meu prazer de ficar entrando em botequinhos a cada esquina e tomar doses desse vinho maravilhoso, agora sabendo a diferença entre um ruby, um tawny, um vintage, um branco.
Do Porto, Aneesa se juntou a nós e fomos a Coimbra, que se revelou uma decepção, a despeito da quantidade de relatos que frequentemente ouço sobre a cidade, o que só prova que cada experiência de viagem é única. Exceto pela universidade antiga, muito bonita, a cidade não tem charme nenhum (foi a nossa impressão comum). Então, nós que pensávamos em dormir na cidade, resolvemos continuar a viagem e eu aproveitei a chance para incluir algumas cidadezinhas que eu queria visitar mas que o tempo parecia não permitir. Visitamos duas cidades vizinhas, Batalha e Alcobaça, cada uma com um monastério excepcionalmente grande e bonito, ambos resultados de promessas feitas por conquistadores portugueses em tempos passados, em que se ofereciam templos em troca de favores do céu. Embora os templos tenham sido usados para todos os tipos de abuso por ordens religiosas nos séculos XII e XIV respectivamente, o resultado arquitetônico é impressionante e monumental.
Nossa última noite em Portugal foi em Óbidos, e a viagem não poderia terminar de maneira mais brilhante: uma cidade medieval totalmente cercada por muralhas em perfeito estado de conservação. Pode-se caminhar por cima das muralhas, contornando toda a pequena cidade. De cada trecho da muralha, uma vista diferente da cidade, com seus terraços, seus balcões floridos, seus gatos preguiçosos, suas ruelas estreitas, suas árvores frutíferas. Dormimos num quarto de uma casa que tem uma vista linda para a cidade e para a igreja principal. A estada só não foi perfeita porque eu, na ânsia de fazer de meu último jantar uma refeição especial, pedi um peixe recomendado pela casa, uma espécie de carro chefe do restaurante. Apenas me esqueci de perguntar se o escaldante molho que o acompanhava incluía o proibido camarão, ao qual sou alérgico. Resultado: comi peixe puro pagando pelo camarão. Para compensar, na sobremesa, escolhi um doce que me parecia maravilhoso, mas descobri, desolado, que o intragável café, que detesto, com sabor e cheiro acentuados, era o ingrediente principal da sobremesa. Ainda bem que eu tinha chocolate no quarto do hotel.
Um episódio interessante em Óbidos foi a conversa com a única funcionária do hotel em que nos hospedamos, uma espécie de faz-tudo . Ao referir-se às diversas nacionalidades de turistas que visitam a cidade, disse-nos que os brasileiros são os mais difíceis de se lidar. Satisfez a nossa curiosidade ao explicar que, em geral, os brasileiros têm mania de comportar-se com ela com uma familiaridade e uma intimidade que não existem – meses mais tarde eu ouviria semelhante reclamação em um restaurante português em Paris. Disse ela, ainda, que os brasileiros optam por um hotel simples como aquele para não pagar os preços de um hotel mais caro, mas exigem um serviço que não é o daquele tipo de hotel, como alguém para carregar as pesadíssimas malas que as madames brasileiras costumam carregar quando viajam. Concluiu dizendo que esse tipo de postura deveria ser reflexo da mania que os brasileiros têm de contratar empregados domésticos para ajudá-los no serviço de casa, uma prática virtualmente inexistente na classe média da Europa moderna. Incapaz de negar qualquer de suas afirmações, limitei-me a rir por dentro imaginando as madames brasileiras – ou seus dedicados maridos – a carregar escada acima suas malas repletas de inutilidades.
Fim de viagem. Dez bem vividos dias em Portugal, com uma razoável e intensiva exploração do norte do país. A opção de não visitar o sul foi fácil: predominam, naquelas paragens, badaladíssimos balneários e sofisticados resorts à beira-mar, um programa que não seduzia nem a mim nem ao Nicola. Assim, devolvemos o carro em Lisboa e tomamos o avião de volta para Londres. A porta se abriu e nos trouxe, de volta, o frio e o céu nublado de Londres. Vontade de voltar para Portugal e andar de bermuda e camiseta.
Finalmente, como não podia faltar numa viagem a Portugal, uma seleção dos momentos mais engraçados vividos naquelas terras:
- Num restaurante em Lisboa, havia uma misteriosa e intrigante “sopa de grelos”, que, por via das dúvidas, resolvi não arriscar. Mais tarde, depois da viagem, vim a descobrir que se tratava de uma inocente sopa de brotos.
- No metrô de Lisboa, acompanhei uma deliciosa conversa entre duas adolescentes: "imagine que eu estava trabalhando de baby sitter e, quando os pais do menino voltaram, me perguntaram se ele havia acordado. Eu disse que não, que ele havia dormido a noite toda. Na hora de me pagar, me pagaram menos pois, se o menino dormiu, eu não havia trabalhado nada". Difícil foi, sentado em frente às duas, conter a gargalhada.
- No famoso Café à Brasileira, aquele que tem a estátua de Fernando Pessoa, o Nicola pediu algo para comer e eu não comi nada; sem problemas. No dia seguinte, porém, novamente o Nicola pediu uma refeição, e eu resolvi pedir apenas pão com uma pasta de fígado, que estava na lista das entradas; o garçom, então, disse que não podia servir apenas a entrada. Resolvi então tomar apenas um vinho e o garçom me informou que, se eu ia tomar vinho, ele podia servir a pasta. Ou seja, você pode não pedir nada, se não quiser, mas pedir apenas a pasta de fígado é proibido. Vá entender...
- Outdoor com propaganda de fraldas: "para seu bebê ficar com os rabinhos sempre frescos".
- Outdoor com propaganda de desodorante masculino: "para você exalar toda sua frescura".
- Finalmente, no rádio do carro, ouço uma piada de portugueses, contada por um locutor português (eu juro, eu ouvi). Nos tempos da guerra fria, o governo português recebe um curto e grosso telegrama do serviço secreto americano: "movimento sismológico detectado no centro de Lisboa, favor tomar providências". Os portugueses não respondem nada e os americanos escrevem novamente "movimento sismológico de grande amplitude detectado no centro de Lisboa, favor tomar providências". Nada novamente. Os americanos, preocupados, mandam uma terceira mensagem. Os portugueses respondem, enfim: "podem ficar tranqüilos; o líder do movimento já se encontra preso e sob interrogatório; as investigações, porém, estão prejudicadas por causa de um maldito terremoto que arrasou a cidade de Lisboa". E depois eles ainda reclamam que os brasileiros contam piadas de portugueses.
Fotos em http://janelaseportas.shutterfly.com/action/pictures?a=67b0de21b3400110657a&pg=0
10 de março de 2000
Março de 2000 - Bad Trip em Amsterdam
Quinta-feira, 2 de março de 2000. Eu e minha amiga Léa saímos de Londres para um fim de semana em Amsterdam, onde chegamos sob uma chuvinha fina. As primeiras impressões da cidade são superiores às minhas expectativas. Um sistema de informações turísticas eficiente, transportes públicos fáceis, rápidos, limpos. Da janela de nosso pequeno e modesto hotel, uma vista maravilhosa para um dos 160 canais de uma cidade formada por 90 ilhas. Uma espécie de Veneza, mas mais moderna, mais limpa e mais fácil de se orientar.Na sexta-feira, um passeio de barco pelos canais reforçou a primeira impressão. Uma cidade charmosíssima, uma arquitetura única, antiga, bem conservada. O Museu van Gogh, um banho de arte de primeira qualidade, onde vi de perto o meu van Gogh favorito, o Quarto do Artista. No Mercado das Flores, as famosas tulipas holandesas. As coffee shops, cujos cardápios contêm desde cafés, chás e chocolates, até cigarros com diversas variedades de maconha, que podem ser escolhidos pelo tipo de erva e consumidos sem quaisquer restrições no local (curiosamente, ali não são vendidas bebidas alcoólicas). A polêmica política holandesa de repressão às drogas baseia-se na concentração de esforços contra os traficantes e as drogas mais pesadas, e na maior tolerância às drogas leves. Não sei dizer até que que ponto essa política lida com um problema existente ou o reforça (apesar de o número de viciados na Holanda ser proporcionalmente menor do que em vários países da Europa, incluindo a vizinha França cuja política é mais ‘linha-dura’). Certo ou errado, lembro-me do episódio em que um humilde pintor do subúrbio, em Brasília, que comprou uma camiseta com uma estampa de folhas de maconha, sem saber do que se tratava, e foi preso em caráter inafiançável por ‘apologia ao uso de drogas’. Enquanto pessoas como ele vão presas, os traficantes estão soltos em número crescente na cidade, oferecendo aos jovens de todas as classes, nos melhores colégios da cidade, não só maconha, mas qualquer outra droga para a qual haja demanda.
À noite, uma visita ao igualmente polêmico Distrito das Luzes Vermelhas, a zona de Amsterdam, que fica mais ou menos no centro da cidade. As prostitutas saíram da rua, se sindicalizaram e agora oferecem seus serviços por detrás das vitrines de casas e mais casas, uma ao lado da outra, nesse Distrito. O fato de tudo ser concentrado numa única região facilita o trabalho da polícia e da saúde pública (a Holanda tem um baixíssimo percentual de aidéticos na sua população). Contudo essa vantagem não evita que haja grande número de prostitutas exploradas, em geral mulheres asiáticas, africanas ou do leste europeu, que vivem em condições semi-escravas. Além disso, é deprimente o espetáculo grotesco das mulheres feias e envelhecidas, expostas como animais nas vitrines. É verdade que não é muito diferente do show diário que se vê em algumas áreas residenciais de cidades brasileiras, o que não nos torna muito diferentes da Holanda a não ser pela hipocrisia com que o problema é tratado pelas autoridades de plantão.
O longo dia se encerra com o retorno ao nosso espartano hotel. Não há banheiro privado no quarto. O chuveiro fica numa ponta do corredor, o vaso fica na outra ponta, ambos compartilhados entre quatro quartos, e em cada quarto há uma pia. Esses detalhes são importantes para explicar porque, com tantas entradas e saídas no quarto, acabamos dormindo sem trancar a porta do quarto.
Por volta de 5 da manhã, Léa acordou com uma claridade no quarto e eu acordei apenas a tempo de ouvir um homem dizer ‘sorry, wrong room’, sair e fechar a porta. Até nos darmos conta do que havia acontecido, o cara já tinha levado meu passaporte, todo meu dinheiro, minha passagem aérea, meu casaco de estimação, nossas duas máquinas fotográficas, meu relógio, minha calça com minha carteira e meus cartões de crédito. Deixou os documentos da Léa, que estavam numa outra bolsa menor. Ainda atordoado, sem saber o que fazer, saí do hotel, no escuro, morrendo de frio, para encontrar uma delegacia. Enquanto esperava o oficial que registraria minha ocorrência, solicitei o telefone para cancelar meus cartões de crédito. Foram várias ligações, algumas demoradas e, no meio de uma delas, um policial holandês enorme me dá uma tremenda esculhambação por eu estar usando o telefone ‘a noite inteira’. Contive-me para não mandá-lo à merda (ser preso àquela altura, sem documentos, não seria a melhor opção para mim). Fui então chamado a registrar a ocorrência com uma holandesa enorme, seca, masculinizada, absolutamente indiferente ao meu drama – que, vim a saber depois, era relativamente comum em hotéis pequenos. Ali com ela, numa sala fechada, sentindo-me mais protegido e ainda abalado com a grosseria do policial, não pude conter as lágrimas e vivi o meu primeiro momento de fraquejamento naquela situação. Saí de lá com a ocorrência policial – em holandês – e pensei no turista que chega a uma delegacia brasileira tentando falar inglês. Exceto em uma ou duas cidades com delegacias especializadas para turistas, nas outras isso é virtualmente impossível. Naquela delegacia, todos os policiais, até o cavalo que me esculhambou, falavam inglês comigo. Já era um consolo.
De volta ao hotel, já com o dia raiando, tive que lidar com a indiferença com que as funcionárias do hotel reagiram ao episódio. O sábado começa e resolvo ligar para o consulado brasileiro que fica em Roterdam, a 1 hora de trem de Amsterdam. Ouço o educado funcionário de plantão me informar que, para eu ter uma segunda via do passaporte, preciso esperar até segunda-feira e, para isso, eu precisaria de cópias da carteira de identidade e, acredite ou não, do certificado de reservista. Disse-me, ainda, calmamente, que se eu não apresentasse esses documentos, eu seria deportado para o Brasil, por não ter como provar minha identidade. Se eu apresentasse apenas a carteira de identidade, eu teria um passaporte temporário (o que não me permitiria regressar à Inglaterra que, naquele momento, era minha residência).
Tive nesse momento a certeza da dimensão do meu problema. Esses documentos me pareciam inatingíveis dali de Amsterdam. Tentamos contornar o problema com o André, marido da Léa, que é diplomata, mas o caso era realmente sério. De fato, como dar um passaporte a qualquer um que chega ao consulado dando seu nome e dizendo que é brasileiro? O drama só não seria maior porque tínhamos dinheiro, ou melhor, o cartão de crédito da Léa. Mas, doce ilusão. Quando fomos ao caixa sacar dinheiro, descobrimos, estarrecidos, que o limite do cartão dela estava estourado. Agora, nem documento nem dinheiro. Fizemos um balanço do que tínhamos: eu tinha 40 libras que trouxe de Londres, Léa tinha 40 dólares e mais alguns pounds. À nossa frente, despesas de hotel, alimentação, trem de ida e volta para Roterdam, um novo bilhete aéreo para mim, transporte na cidade e muitas ligações telefônicas. Ou seja, o dinheiro não dava para nada.
No meio da constatação do nosso drama, começa a nevar em Amsterdam. Uma neve forte, intensa, rapidamente branqueando a cidade. Um espetáculo inédito para mim, que teria tudo para ser lindo se a situação fosse outra. Se pelo menos nossas duas máquinas fotográficas não tivessem sido roubadas e pudéssemos registrar aquelas imagens inusitadas para um mês de março. Se meu casaco não tivesse sido roubado e eu não estivesse congelando de frio... Se nós tivéssemos dinheiro para tomar um chocolate quente num café enquanto olhávamos a neve cair...
Hora de cair na real e tomar as providências. Preciso de uma identidade e do título de reservista. Minha identidade está guardada no meu quarto, em Londres. Contei então com o apoio precioso de pessoas como Marcelo e Karina, Nicola, que foram de disponibilidade, dedicação e carinho inesquecíveis. Ligavam, recebiam ligações a cobrar, viabilizavam formas de entrar no meu quarto, pesquisavam como mandar dinheiro, descobriam como enviar fax num sábado à tarde. Em alguns momentos, ao falar com eles, me emocionava pelo simples fato de eles estarem lá do outro lado. Lembrei-me também de amigos como Maysa, Carmen e William, parte do meu círculo de referência em Londres, com quem eu podia contar, caso precisasse de mais gente. Tesouro inestimável num momento desse.
Não dava para contar muito com o Brasil, parado por conta do carnaval. Bancos fechados, amigos diplomatas viajando. Mas eu sabia que, trancado num quarto em meio às milhares de caixas que deixei no Brasil, cercado de geladeira, fogão, máquina de lavar, sofás, roupas, CDs e livros, jazia meu certificado de reservista. Quando senti que esse documento idiota, que não usava há mais de 20 anos, seria fundamental, decidi recorrer a meus pais que, com meu irmão, conseguiram achá-lo e imediatamente enviá-lo por fax.
O fim de semana viria a se mostrar o mais longo da minha vida! Muito frio, parcialmente contornado com pilhas de camisas que eu vestia uma por cima da outra, o pijama de flanela por baixo da calça. O pouco dinheiro tinha que ser contado. Fomos almoçar no McDonald’s, a opção mais barata. Dois sanduíches, uma batata frita compartilhada e uma coca-cola. Léa devolveu o catchup e a mostarda quando viu que custavam alguns centavos. Um pão de forma, presunto e queijo serviram como refeição pelos próximos 2 dias. Tínhamos ainda água da torneira, geléia e manteiga do café da manhã, além de mexericas e chocolate toblerone comprados antes do roubo. Telefonemas comiam nossas poucas moedinhas, e limitamo-nos então às ligações a cobrar. Nossa programação de fim de semana em Amsterdam, que incluiria museus, restaurantes, shows, passeios, foi totalmente cancelada.
No domingo decidimos que Léa deveria voltar para Londres, e à tarde ela embarcou. Sua permanência em Amsterdam era um grande apoio moral, mas implicava despesas de alimentação, hotel, transporte. Ela saiu com o dinheiro absolutamente contado para pegar um bonde até a estação de trem, e depois um trem até o aeroporto. Nada podia dar errado, mas deu. Na viagem de Londres para Amsterdam, após o check in, trocamos as passagens. Assim, a passagem roubada na verdade era a dela, e ela foi para o aeroporto com a minha. Não podia viajar, e sequer podia voltar para o hotel, já que estava sem dinheiro para o transporte. Mas alguma coisa tinha que dar certo: aceitando a sugestão do funcionário da companhia, ela tentou usar mais uma vez o seu cartão, o mesmo que não havia funcionado em momento algum e, por razões inexplicadas, dessa vez conseguiu com ele comprar uma passagem. Menos mal: a minha passagem ficou no aeroporto para quando eu tivesse o meu passaporte em mãos, uma vez que eu ainda teria que pensar como comprar uma nova passagem quando toda a parte burocrática estivesse resolvida.
Depois que Léa foi embora, fui aproveitar a tarde de domingo, naquilo que me era possível fazer sem um tostão no bolso. As ruas, o Vondelpark, os músicos na calçada, tudo era de graça, mas o que eu fazia com o meu desejo de comer pipoca, tomar sorvete ou beber um chocolate quente? Voltei cedo para o hotel com uma grande sensação de solidão. Resolvi fazer funcionar a televisão do quarto que, até então, não me fazia falta. Fiquei ali vendo filmes em holandês, jantando sanduíche, mexerica e toblerone. Estava ansioso, mas com a sensação de que as coisas estavam se resolvendo.
O domingo ia acabando e eu assistia o noticiário holandês. Deparei-me com imagens das enchentes em Moçambique. Não precisava entender holandês para entendê-las. Milhares de pessoas fugindo das águas, ilhadas em árvores, aguardando desesperadas o próximo helicóptero. Já perderam suas famílias, não têm passaporte, cartão de crédito, comida, casa, dinheiro, amigos. Nunca tiveram muito. Ser deportado para o Brasil já não me parecia tão grave. Nas cenas mais leves, a TV mostra o carnaval no mundo: as máscaras e fantasias de outros países e, no Brasil, apenas mulatas exuberantes com suas não menos exuberantes bundas nuas. E eu ainda tenho que explicar para meus amigos europeus que o Brasil é bem mais do que mulheres nuas, futebol e Amazônia em chamas.
A noite de domingo foi longa. Acordei às 3 da manhã e não consegui dormir mais. Saí cedo, sem tomar café, e tomei o trem para Roterdam. Felizmente, os documentos eram suficientes, tudo de que eu precisava para um passaporte definitivo. Os funcionários foram eficientes e gentis, embora eu tivesse de presenciar a estupidez de uma mulher que atendia uns empresários holandeses e, com um inglês macarrônico, explicava que não podia resolver o problema deles porque era carnaval e o consulado estava funcionando em regime de plantão. Recebi meu passaporte e assinei um documento comprometendo-me a enviar-lhes o equivalente a 75 dólares pelas despesas de emissão (um abuso!). Saí de lá feliz com meu novo passaporte, mas com uma nostalgia pela perda do antigo que, em seus múltiplos carimbos, guardava uma parte importante das minhas histórias mundo afora.
Tomei o trem para o aeroporto, consegui uma conexão imediata e entrei no avião pensando em tudo que me havia acontecido. Comecei a pensar nas lições do episódio. No que poderia ser diferente, no que poderia ter melhorado ou piorado a situação, no que eu podia ter feito e não fiz para evitar esse drama. Pensei na ausência de valor do dinheiro que eu tinha no banco em Londres, que existia mas era inacessível no momento em que eu mais precisava dele. Lembrei-me de como o pão com queijo e presunto dos últimos dois dias tinha adquirido um sabor todo especial. Pensei na tecnologia que me alcança amigos e família por telefone e que faz um documento chegar por fax em segundos. Agradeci os amigos com quem podia contar. Pensei na minha amiga Léa. Viagens trazem o que há de melhor e de pior nos companheiros de viagem. E felizmente, nesse stress todo, a Léa foi uma grande companheira, com iniciativa, alto astral, despojada, solidária nos momentos de baixo astral total, quando achávamos que nada ia dar certo. Se ela não tivesse sido o que foi, eu certamente teria preferido estar sozinho no episódio.
Em meio a tudo, eu ainda conseguia pensar em Amsterdam, uma cidade que me encantou desde o início, e que ficou explorada muito superficialmente. É certamente uma das cidades mais bonitas e charmosas que já conheci. Quero voltar lá, sem julgá-la por um episódio infeliz. A imagem que se tem de um lugar depende do que vivemos nesse lugar: o momento, o que se vê, o que se vive, a companhia, o restaurante, o hotel, mas não quero essa imagem de uma cidade que julguei tão linda desde o começo. Lembrei-me de lugares que visitei, supostamente mais perigosos, Turquia, Bolívia, Peru e, por que não dizer, Brasil. Não, a imagem que me fica de Amsterdam não é a do risco ou do perigo, mas do que a cidade me inspira a conhecer numa outra oportunidade.
Minha preocupação agora era a entrada na Inglaterra, sem documento algum que provasse a minha condição de estudante a não ser uma carteirinha vagabunda da universidade, dessas que mal valem para desconto no cinema, e que o gatuno deixou cair na fuga. Felizmente, uma funcionária atenciosa e educada (raro em serviços de migração) acreditou na minha estória, na ocorrência policial em holandês que ela não conseguia ler, e carimbou meu passaporte com a mesma validade do anterior. Quando passei a barreira da migração, no hall do aeroporto, me senti finalmente aliviado. Mais, me senti em casa, seguro, protegido. A sensação, por incrível que pareça, de que, nesse momento, esse é o meu canto, o meu refúgio, o meu país. Nesse momento, minha vida está aqui. Minha casa está aqui. Chegar em Londres, tomar um banho, botar roupas limpas, jantar, tomar um vinho, ouvir minha música, é tudo de que eu precisava para fechar minha viagem. E então, mais relaxado, permitir-me viver a raiva e o medo que não deixei aflorarem durante o fim de semana.
7 de julho de 1999
O carro - Julho de 1999
Vendi meu carro hoje, o meu jipinho. Um carro que não só era bonito, gostoso, confortável, valente, mas era também um símbolo de um novo estilo, de uma nova vida, de uma nova forma de ver e de explorar o mundo. Um carro que leva consigo memórias de momentos, de descobertas, de sentimentos. Que leva consigo cada cachoeira, cada estrada, cada trilha que desbravei. Que leva consigo sentimentos que experimentei. Vendi com a certeza de querer vendê-lo, de precisar vendê-lo, mas, também, com a sensação de que desfazer-me dele é mais um símbolo de um novo rito de passagem, no momento em que deixo o País para embarcar num longamente acalentado projeto acadêmico-pessoal. É boa a sensação de vendê-lo para uma amiga. Ele é simbólico demais para ficar na mão de qualquer um. Hoje eu o entreguei definitivamente. Houve um momento em que eu o vasculhava buscando as minhas coisinhas. Papéis, moedinhas, canetas, tudo que pudesse representar um pouquinho de mim que tivesse ficado ali. Procurei, procurei, mas achei pouco. De repente fui tomado de profunda emoção. Engasguei, disfarcei, e comentei com minha amiga que aquele parecia um momento de separação. Aquela hora cruel em que um dos dois dá adeus, fecha a porta e vai embora sem olhar para trás. Aquele momento me ficou. Não era o carro. O carro é apenas um objeto. Mas objetos são também símbolos poderosos. Aquele carro, ali, era também o símbolo do que estou deixando. Separar-me dele é não só deixar para trás algumas coisas, mas, também, ir em direção a outras. É uma escolha. É uma opção. E opções envolvem renúncias. Algumas fáceis, outras mais difíceis. Mas são renúncias. E foi com esse sentimento que fechei a porta, dei tchau e vi o carro se afastando... já não era mais parte de mim...
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